Opinião

Posso ter uma vida boa?

A Ética e a Política não podem ser separadas para que eu possa ter uma “vida boa” numa “vida má”

Convoquemos aqui dois textos, distanciados entre si uma centena de anos mas que respondem a uma questão essencial ao tempo de hoje: “Posso mudar para uma vida melhor?”.

O primeiro desses texto é de Herman Hesse e data de 1910. Trata-se de uma curta novela intitulada Der Weltverbesserer publicada sob o título O homem que queria mudar o mundo. conta a história de Berthold Reichardt, jovem historiador de arte que decide mudar-se para Munique para ali encontrar, no mundo artístico em ebulição, interlocutores revolucionários, anti-militaristas que, como ele, desejem participar nos novos tempos que então se anunciavam. Infelizmente, esse sonho seria frustrado resultante das várias experiências de decepção que ele teve em Munique.

A primeira decepção foi com a comunidade artística que, afinal, se revelaria frívola e pouco interessada em mudar alguma coisa; a segunda decepção foi com um artista, Hans Konegen, em quem depositou muitas esperanças mas que veio a revelar-se mitómano e ditador; depois, a terceira e grande decepção foi amorosa e com a bem-amada Agnes Weinlandque, mulher que se cansou da ideologia libertária dele, daquele seu não querer enveredar por uma profissão nem tornar-se no burguês que uma boa família burguesa esperaria.

O encontro com um líder espiritual, um profeta, Eduard Van Vlissen, acabaria por conduzi-lo a uma vida regrada, asceta e casta numa aldeia do Tirol. Deixou crescer o cabelo, vestia-se pobremente como era de costume mas esta vida viria a revelar-se ser de uma infelicidade permanente. No fundo, querendo mudar o mundo tinha apenas mudado o seu próprio comportamento. Exaltava uma vida moral que, porém, não tinha contribuía com quaisquer ensinamentos ou consequências para a sociedade. Pagava, ademais, o alto preço do abandono daquele seu já referido amor.

Um congresso de movimentos teosóficos, vegetarianos e outros, realizado em Munique, haveria de, entre muitas peripécias, provocar o reencontro com Agnes. Reavivar esse encontro amoroso trouxe-lhe uma mudança de hábitos e, com ela, a reconquista daquele antigo amor.

Em suma: o homem que ia mudar o mundo através das suas ideias de moralidade passara, afinal, por experiências de mudança pessoal. Acabou por ter uma “vida melhor” através do amor. Uma vida individual: a sua de onde concluir que uma vida moral boa não passa necessariamente pelo ascetismo, que a felicidade não decorre do viver isolado e que um comportamento moral individual também não conduz à felicidade dos outros.

O segundo texto aqui chamado é Can One Leed a Good Life in a Bad Life (Pode levar-se uma boa vida numa má vida?), texto do discurso de agradecimento do prémio Adorno de 2012 recebido por Judith Butler.

Esta filósofa americana, especialista em filosofia política, feminismo e teorias queer responde aqui à questão colocada por Theodor W. Adorno em 1951 (Minima Moralia). E, para essa resposta, convoca outros autores de Filosofia Política, de Moral e de Ética, bem como defensores das teorias políticas contemporâneas do “tomar cuidado”. E destaca também as posições de Rousseau e de Arendt.

Começa por se perguntar como é possível levar uma vida correcta – questão comum ao referido texto de Hesse – num mundo onde uma “vida boa” é sistematicamente interdita à maioria das pessoas por um sistema económico que produz a desigualdade. Quando fala de “uma vida boa” não está a referir-se ao bem-estar económico, à prosperidade ou, até, à segurança. Na constatação do que diferencia uma “vida boa” de uma “vida má” há que evitar a todo custo o discurso comercial que confunde Ética com teorias económicas e sociais.

Quando se apela à condução de uma “vida boa”, moralmente correcta – o desejo do protagonista Berthold Reichardt –, verifica-se que esta não é possível porque as condições em que o homem contemporâneo vive estão muito condicionadas pelo sistema económico. Ou, como afirma Adorno: “é absolutamente absurdo evocar uma conduta ética ou moral sem tomar em consideração as relações que os humanos estabelecem entre si, e a ideia de que um indivíduo existisse só para ele não é senão uma abstração vazia”.

Como a Ética e a Moral são fenómenos sociais, assim se compreende que haja pessoas que vivem uma “não vida”, que são consideradas como estando à beira do abandono, e que “ninguém fará luto por elas” e, para estas pessoas, tão pouco o seu comportamento moralmente correcto não lhes trará uma boa vida.

Só uma leitura aligeirada poderia ver nesta afirmação uma explicação casuística para a existência de pobres. A tese de Butler vai muito mais longe: exige que a possibilidade de viver uma boa vida, digna de luto, implica que a mesma possa estar sujeita a assistência social e económica, tenha a possibilidade de emprego, use os seus direitos de expressão e participação política e de reconhecimento social.

A institucionalização das racionalidades neoliberais e de produção de precaridade não é uma abstracção. Aliás, a seu propósito fala-se de Ética, de Moral e de Política. A precaridade actua sobre o corpo e atinge a vulnerabilidade da pessoa. Essa vulnerabilidade é o que faz dela o animal humano e impõe ao corpo precaridades várias – como a mudez social ou a mais profunda mudez da esfera privada e nas tensões que existem com outros corpos.

Assim, “viver bem” numa “vida má” não decorre da adopção de uma moral individual mas da conjugação entre a Ética e a Política, a começar pelo acto verbal – aquele que se torna acção no espaço deliberativo e público da Política.

E isto é já uma forma de “viver bem”, embora não seja suficiente para se viver bem numa má vida.

Provada que está a interdependência entre os humanos, duas outras atitudes éticas e políticas são necessárias. A primeira é distinguir que a parte de mim que quer viver bem não pode opor-se à outra parte de mim que faz parte de todos os corpos humanos. Por isso, a crítica é necessária. A esta deve ligar-se a resistência que, ao dizer Não! a determinados modos de “vida má”, diz Sim! aos modos de “vida boa”.

Associada à resistência vem necessariamente a Política, exigindo-nos que a exposição a todas as formas de precaridade constitui o terreno partilhado de uma potencial igualdade, bem como a obrigação (recíproca) de produzir um conjunto de condições de vida vivíveis.

Deste modo, a Ética e a Política não podem ser separadas para que eu possa ter uma “vida boa” numa “vida má”.