Crítica

Um misfit sai do armário: Eddy Bellegueule

Poderia ser um romance vitoriano, mas é bem uma história do nosso tempo, bullying e telemóveis incluídos

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Foi necessário, literalmente, Acabar com Eddy Bellegueule para que o seu autor se transformasse em Édouard Louis, e recebesse a atenção devida (Bellegueule passou a ser oficialmente Édouard Louis em 2013). Mas, antes da publicação desta obra, despudo-radamente autobiográfica, Bellegueule/Louis teve de ultrapassar as dificuldades próprias de quem nasceu no final do século XX (1992), numa família pobre, dependente da segurança social e num lugar distante do Norte de França. Ao romper o círculo vicioso da ignorância e da indigência — antes dele ninguém frequentara a Universidade —, teve a capacidade para expressar neste relato, ancorado no desassombro, no humor e na subtileza, as peripécias do seu crescimento e da sua revolução interior, enquanto levava a cabo um ajuste de contas com o passado.

Ficamos a saber que os seus primeiros anos de vida não foram agradáveis. O pai nascera em 1967, quando as mulheres ainda tinham os filhos em casa — neste caso no sofá, no meio da imundície — e prolongara uma genealogia de que o abuso do álcool, a violência doméstica, a bravata do machismo, o abandono escolar, o desprezo pela família e o gosto pelas festas populares eram traços dominantes. O nascimento de Eddy foi saudado — era rapaz — como a chegada de mais “um duro” e, para ajudar na fantasia, foi-lhe dado um nome repescado das séries de televisão americanas. Mas o garoto deu sinais, muito cedo, de que não iria agradar aos progenitores. Nervoso e atreito a distúrbios alimentares, começou por ser importunado na escola. Quando mostrou a sua preferência pelas roupas das irmãs, desatou a falar com voz estridente e a balancear o corpo ao andar, o desespero apoderou-se dos membros da família que tanto se escudavam por trás da ideia de que o filho “tinha um parafuso a menos” como o marginalizavam. Na aldeia, Eddy era relegado para a mesma categoria de Jordan, um negro da Martinica. Ambos “fora do baralho”, eram tolerados por serem “bem-educados e respeitadores” e não “uns maricas ou pretos como os outros”.

A segunda parte do livro — a ruptura — refere a consciência do prazer e da sexualidade de Eddy, quando ele tem dez anos e é sodomizado pelo primo, no âmbito das “brincadeiras dos rapazes”, excitados por filmes pornográficos. É neste clima violento e ambíguo — é ostracizado pela sua homossexualidade, mas os outros rapazes que participam nos mesmos jogos são considerados muito “machos” — que Eddy se prefigura e se “forma”. Na mãe, que descobre as suas actividades eróticas, condensa-se o universo feminino, teimosamente preso a uma espécie de heroicidade surda, cuja frustração (abandono muito precoce dos estudos, filhos) se manifesta em fúrias que ecoam no casebre quando levanta a voz contra o Estado, ao qual imputa a falta de apoios sociais (embora, por outro lado, o aprove e até o glorifique): “No entanto, esse poder que ela detesta, louva-o quando se trata de reprimir: repressão dos árabes, do álcool e da droga, dos comportamentos sexuais que ela considera escandalosos” (p. 59). A aldeia é um mundo fechado que a mãe de Eddy teima em considerar menos mau do que outros, como o dos argelinos, o dos burgueses, o dos citadinos, o dos que estudam, o dos que vão ao cinema, o dos que percebem de História ou de Filosofia, o dos que têm pais que “jantam” em família em vez de, simplesmente, “morfarem” em frente à televisão.

Não fosse o autor colocar a acção de Acabar com Eddy Bellegueule nesta nossa época, seria possível considerar este romance como vitoriano, no que diz respeito aos temas: a pobreza infantil como em Dickens, as comunidades que vivem dependentes do trabalho nas fábricas como em Elizabeth Gaskell (homens que bebem, mulheres que ficam em casa como escravas domésticas, crianças negligenciadas, frustração, analfabetismo), a condição feminina eternamente presa às restrições de género, as casas decrépitas sem portas entre as divisões, e as devastadoras questões ligadas ao sexo hetero e homossexual (a culpa, a repugnância pelo sexo oposto), tudo o que se pode ler num romance inglês do século XIX. 

Mas, ao criar uma complexa estratificação de vários níveis de linguagem e uma manipulação ágil da dramatização da História, Édouard Louis mostra ser um óbvio discípulo de Jean Genet, na relação com o racismo, a xenofobia e a homofobia ligadas à falta de cultura e à pobreza, na exploração da frustração e da violência em espaços concentracionários — aqui, a aldeia é como uma prisão — e nas descrições dos embates rituais dos misfits de todos os tipos (sociais, raciais, de género) com os seus opressores. Assinale-se a muito contemporânea importância da ditadura da imagem; para além da televisão (na barraca da família havia quatro televisões, sempre ligadas), os telemóveis são um veículo de afirmação da identidade, por muito degradante que esta seja. É com eles que filmam os comas alcoólicos, os actos de selvajaria e de delinquência, o bullying… para que todos saibam! De notar ainda a influência do imaginário de Pasolini, sem esquecer a marca de Pierre Bourdieu, que estudou incansavelmente as dinâmicas do exercício do poder na sociedade e que mereceu, por parte de Louis, a escrita do ensaio Pierre Bourdieu. L’insoumission en héritage (2013), base deste romance inscrito numa nova vaga de narrativas autobiográficas da literatura francófona.