Identificação do esqueleto de Ricardo III: caso encerrado ao cabo de mais de cinco séculos

Volvidos 529 anos sobre a morte do rei inglês e feitas as contas todas, confirma-se que o esqueleto descoberto em 2012 é o seu com pelo menos 99,999% de certeza. Mas a genética também revela falsas paternidades na linhagem real do Reino Unido.

Retrato de Ricardo III (colecção da Sociedade de Antiquários de Londres)
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Retrato de Ricardo III (colecção da Sociedade de Antiquários de Londres) DR

Uma equipa internacional liderada por Turi King, geneticista da Universidade de Leicester (Reino Unido) acaba de anunciar a resolução final de um mistério forense com mais de cinco séculos – talvez o mais antigo de sempre. Os resultados foram publicados na última edição da revista Nature Communications.

Com base no ADN extraído de um esqueleto descoberto em Agosto de 2012, em Leicester, debaixo de um parque de estacionamento, na sua comparação com o ADN de vários parentes vivos de Ricardo III e ainda numa massa de documentação histórica e genealógica, os autores concluem no seu artigo que “as provas de que os restos mortais são os de Ricardo III são esmagadoras”. É, aliás, a primeira vez, salienta em comunicado a universidade, que a equipa realiza uma análise estatística conjunta de todos os dados recolhidos – e é nela que os autores alicerçam a sua conclusão.

Ricardo III de Inglaterra foi o último monarca inglês da casa de Iorque e o último rei da dinastia Plantageneta de Inglaterra. Reinou durante apenas dois anos e foi morto no campo de batalha, em 1485, na guerra contra os Tudor. Não deixou descendentes directos.

Para fazer a comparação genética, os autores identificaram dois parentes vivos de Ricardo III por via matrilinear directa e cinco por via patrilinear. Trata-se, por um lado, do canadiano Michael Ibsen e da australiana Wendy Duldig, descendentes directos por via matrilinear de Ana de Iorque, irmã de Ricardo III; e, por outro, de cinco descendentes por via patrilinear directa de Eduardo III, tetravô de Ricardo III.

Numa primeira abordagem, a comparação do ADN mitocondrial (ADN transmitido pelas mães aos seus filhos e filhas) das ossadas com de Michael Ibsen e de Wendy Duldig indicava que os três eram primos. E de facto, os cientistas mostraram que essas duas pessoas e o indivíduo exumado em Greyfriars [local de um antigo convento em Leicester] possuem o mesmo – e, aliás, muito raro – ADN mitocondrial.

Os cientistas quiseram também ligar as ossadas aos outros cinco descendentes de linhagem real através do cromossoma Y (o cromossoma sexual masculino). Mas aqui tiveram menos sorte (ou talvez não...). É que o cromossoma Y de um desses homens revelou ser diferente do dos outros, o que significa que não pertencem todos à mesma linhagem patrilinear. E mais: o cromossoma Y do esqueleto de Ricardo III também é diferente do cromossoma Y daqueles cinco homens – o que significa que eles não são primos de Ricardo III por via patrilinear directa.

A razão para isto: infidelidades matrimoniais. A primeira terá ocorrido já no século XIX; mas a segunda, a que gera a discrepância genética entre Ricardo III e os cinco homens actuais, é mais interessante, pois pode remontar à Idade Média – e pôr em causa a legitimidade de uma parte substancial da linhagem real britânica (pelo menos no que respeita ao direito do sangue, embora não ao das armas ou das leis).

“Resolvemos um enigma histórico, mas, ao fazê-lo, descobrimos outro”, disse à BBC News Kevin Schürer, genealogista e um dos principais co-autores do artigo. “Um evento de falsa paternidade (…) poderá ter acontecido tanto num ramo como no outro da genealogia que descende de Eduardo III”, escrevem ainda os autores – ou seja, tanto na casa de Iorque (a de Ricardo III, de quem Eduardo III era tetravô) como na casa de Lancaster (a dos Beaufort e dos Tudor, descendentes de John de Gaunt, filho de Eduardo III).

Schürer, citado pela agência AFP, pensa que esta “quebra” no ADN, se tiver acontecido do lado dos Lancaster, levanta dúvidas sobre a legitimidade de “toda a dinastia dos Tudor”, a começar por Henrique VII, filho de Margaret Beaufort (1457-1509) – e precisamente o homem que derrotou Ricardo III em 1485 e foi rei no seu lugar.

Os cientistas explicam ainda que, com base na análise de outros genes do esqueleto, estimam que Ricardo III terá tido os olhos azuis e cabelo loiro (pelo menos em criança). Daí que, segundo eles, o retrato mais fidedigno do monarca é o que ilustra este texto e que se encontra na Sociedade do Antiquários de Londres.

Seja como for, este “caso de pessoa desaparecida” com mais de 500 anos, fica assim resolvido, concluem.