Por que razão surge a arte?

O aparecimento da representação simbólica em suporte material só foi possível porque o Homo sapiens dispunha de uma notável capacidade inexplorada de pensamento simbólico.

Feita uma reserva com grande antecedência, cheguei na hora e dia combinados e, na imensa entrada natural da gruta decorada por uma bela escultura metálica do arquiteto Massimiliano Fuksas, formou-se um grupo de cerca de vinte pessoas munidas de lanternas portáteis. Penetrámos na completa escuridão da caverna e caminhámos lentamente num solo pedregoso e encharcado com poças de água, uma distância de cerca de 800 metros. Apontei diversas vezes a lanterna para as paredes daquelas vastas abóbadas cobertas de estalactites, na busca de algum sinal humano, mas em vão.

Quando o cansaço começava a ganhar o grupo, o chão ficou enxuto, começámos a andar sobre areia, cascalho e rochas cristalinas e chegámos a uma sala vasta, mas de teto baixo. À entrada, à direita, a parede angulosa estava coberta de variados sinais e figuras geométricas de cor vermelha, incluindo os claviformes que provavelmente caracterizam uma cultura, ao surgir repetidos desde as grutas do Cantábrico, em Espanha, até aos Pirenéus franceses. Mais adiante, virámos para uma galeria larga em que o terreno arenoso sobe até se atingir uma sala circular de proporções majestosas e de paredes onduladas que o arqueólogo Émile Cartailhac, em 1906, designou por Salão Negro.

É nas paredes desta sala que se encontram desde há cerca de 13.000 anos desenhos magníficos de bisontes, cavalos e cabras (Capra ibex). Curiosamente, não há representações de renas, que constituíam a principal fonte alimentar destes nossos antepassados. São frisos sucessivos de desenhos feitos com uma mistura de carvão vegetal, dióxido de manganés e gordura animal a servir de ligante, subtis, expressivos e que nos permitem “ver” os animais, por vezes em alto-relevo, aproveitando as formas das paredes.

Picasso, quando viu pela primeira vez as gravuras de Altamira, pertencentes à mesma cultura magdaleniana que floresceu entre 17.000 e 12.000 anos atrás, exclamou: “Después de Altamira todo el arte parece decadente”. Há mais desenhos nas paredes das imensas galerias de Niaux, mas a maior parte está no Salão Negro. Porquê?

É impossível responder à maioria das perguntas que nos ocorrem quando apreciamos a arte rupestre do Paleolítico Superior. Contudo, o Salão Negro é magnífico na sua forma, na proporção das suas dimensões, no seu isolamento e posição recuada no interior da gruta. Muito provavelmente os Homo sapiens que o decoraram pensariam algo semelhante.

Não há vestígios de a gruta de Niaux ter sido habitada pelos humanos, mas sabe-se que era visitada por adultos e também por crianças, cujas pegadas na lama se fossilizaram e são ainda visíveis. Note-se que, apesar da entrada da gruta estar relativamente elevada na encosta da montanha, é possível concluir que, há cerca de 20.000 anos, em pleno período glacial, quando a temperatura média global atingiu um mínimo, o vale de Vicdessos estava coberto por um glaciar que bloqueava a entrada da gruta. Só mais tarde, há cerca de 14.000 anos, quando o clima aqueceu, a entrada da gruta ficou liberta, permitindo que os caçadores-recolectores madgalenianos a descobrissem, explorassem e desenhassem nas suas paredes. Para entrar na gruta era preciso caminhar na encosta íngreme ao lado de um grande glaciar. A entrada da gruta ficava no limite da imensa região de glaciares e campos de gelo que cobriam os Pirenéus no último período glacial. Era a fronteira mais avançada sobre uma barreira de gelo, fatal e intransponível, e também o ponto de passagem da caça que no Outono descia das montanhas para os vales. Perante este cenário e o pouco que se consegue reconstruir sobre essa época, surgem as perguntas: qual a origem e a razão da arte rupestre pré-histórica? Qual a origem da representação simbólica em suporte material?

Há muitos sistemas de explicações para responder a estas perguntas, tais como a magia da caça, os rituais de fecundidade, os “mitogramas” de André Leroi-Gourhan, o “diálogo com a gruta” de Michel Lorblanchet e, mais recentemente, o xamanismo de Jean Clottes. Todas estas conceções são esclarecedoras e importantes para procurar compreender a arte do Paleolítico Superior, mas necessariamente parciais. Em lugar de as aplicar e debater detalhadamente, procuremos traçar uma visão evolutiva mais abrangente.  

O Homo sapiens surgiu em África há cerca de 200.000 anos, saiu desse continente através do Médio Oriente há cerca de 70.000 anos e começou a colonizar a Eurásia e em particular a Europa Ocidental há aproximadamente 50.000 anos, onde ficou conhecido por Cro-Magnon, nome da gruta em Les Eyzies, no Sudoeste de França, onde os primeiros fósseis foram descobertos, em 1868. Durante aquele longo período de tempo até há 50.000 anos a representação simbólica foi pouco expressiva e limitou-se a pinturas corporais, tatuagens, objetos de adorno, tais como colares de dentes ou de conchas furadas. Os registos gráficos mais antigos são sinais gravados nas paredes rochosas ou em pequenas placas, pontos alinhados, traços paralelos, círculos, cruzes, retângulos e também desenhos de mãos e de vaginas.  

Há cerca de 40.000 anos na Europa, no período da cultura do aurignaciano, as formas de representação simbólica dos Cro-Magnon diversificaram-se de forma extraordinária. Surgem novas técnicas de caçar e de produzir artefactos talhados na pedra, no osso e no marfim de mamute. Há uma grande variedade de imagens de humanos e de animais, desenhadas, gravadas, pintadas, esculpidas e também de objetos de adorno. Entre as esculturas mais antigas e notáveis está a Vénus de Hole Felds, descoberta em 2008, com uma idade compreendida entre 40.000 e 35.000 anos, e a mulher-leoa da gruta de Stadel, com cerca de 40.000 anos. Qual a razão desta aceleração do desenvolvimento cultural? Não sabemos ao certo, mas há várias conjeturas.

Poderá ter resultado do encontro do Homo sapiens, adaptado fisiologicamente aos climas de África, com populações de Homo neanderthalensis, adaptado aos climas mais frios da Europa, onde se encontravam há mais de 300.000 anos, e com as quais competiam por recursos naturais escassos e aleatórios. Outra hipótese, porventura mais provável, é ter origem numa evolução social resultante de uma maior densidade demográfica das populações de Homo sapiens. A maior proximidade promoveu uma interação social mais complexa, propiciadora do desenvolvimento de aptidões e manifestações culturais transmissíveis de geração em geração.

Desde o seu aparecimento, o Homo sapiens tinha uma capacidade potencial para o pensamento simbólico, conferida pela sua configuração biológica, especialmente no que respeita ao cérebro, mas só mais tarde esta capacidade foi usada e desenvolvida com estímulos exteriores. Os humanos utilizavam certamente formas de representação sem suporte material, a mais importante das quais terá sido a linguagem. Mas as representações verbais são insuficientes para manter a coesão de sistemas sociais com comportamentos e identidades de complexidade crescente. As representações em suporte material completam e valorizam a linguagem. Devido à sua durabilidade, podem ser partilhadas por várias gerações, o que, além de lhes conferir uma autoridade acrescida, permite-lhes transmitir as mensagens que transportam muito para além da vida dos seus autores.

Conseguir reproduzir, no fundo de uma gruta, a visão de bisontes e cavalos por meio de simples traços e manchas feitas com misturas de pós minerais e gordura deveria ser algo extraordinário, misterioso e deslumbrante para os que viam as obras, fossem contemporâneos dos autores ou seus descendentes. Hoje em dia, quando vemos as pinturas de Altamira, Lascaux, Chauvet, Niaux e de muitas outras grutas, o nosso deslumbramento é diferente e resulta do mistério da origem da representação simbólica e da beleza daquelas imagens primordiais no contexto da história da arte, um conceito que é um produto das sociedades ocidentais modernas.

O aparecimento da representação simbólica em suporte material, ou representação plástica, só foi possível porque o Homo sapiens dispunha de uma notável capacidade inexplorada de pensamento simbólico que os seus antepassados e o Homo neanderthalensis não possuíam ou não chegaram a usar. Nas condições específicas que o Homo sapiens encontrou na Europa, onde coabitaram pela última vez duas espécies do género Homo, a representação simbólica por meio de gravuras, pinturas e esculturas antropomórficas e de animais foi provavelmente uma forma de adaptação de natureza cultural.

A representação plástica não floresceu apenas na Europa, mas em todos os continentes e regiões habitadas pelo Homo sapiens, o que revela ter sido uma inovação cultural progressivamente selecionada à escala global devido às vantagens que trouxe para os grupos que a adotaram e desenvolveram. As representações plásticas através do mundo e da história adquiriram um valor e uma diversidade notáveis, fruto das suas funções específicas no contexto social, religioso, político, económico e ambiental em que se inseriram e da criatividade dos seus autores. Hoje em dia, integramos estas representações na história da arte, mas importa não esquecer que o conceito de arte pela arte surgiu apenas no princípio de século XIX.