Morreu Bobby Keys, o saxofonista que viveu com (e como) os Rolling Stones

O americano que acompanhou a banda desde 1969 e que ouvimos em Brown sugar ou Exile On Main St. morreu esta terça-feira aos 70 anos, vítima de cirrose.

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Bobby Keys a actuar em Sydney em Março passado Ford/Splash News/Corbis

Não era oficialmente um Rolling Stones, mas viveu e tocou como um deles. Bobby Keys pegou no saxofone e fez-se à estrada ainda adolescente. Aos 15 anos acompanhou Buddy Holly e aos 16 Bobby Vee. Em 1969 partilhou pela primeira um estúdio com os Rolling Stones. Nascido no mesmo dia que Keith Richards, 18 de Dezembro de 1943, tornar-se-ia companheiro inseparável da banda. Morreu terça-feira na sua casa em Franklin, no Tennessee, vítima de cirrose.

É dele o solo inconfundível de Brown sugar e a sua contribuição foi indispensável para a definição do som do clássico Exile On Main St. Encarnação perfeita da década de todos os excessos do rock’n’roll, a de 1970, foi expulso dos Rolling Stones depois de falhar uma data da digressão europeia de 1973 da banda – algo memorável, tendo em conta o lendário quotidiano de “sexo, drogas e rock’n’roll” da banda no período. Nessa ocasião, Keith Richards encontrá-lo-ia na banheira do quarto de hotel. “Tinha um charuto, uma banheira cheia de champanhe e uma rapariga francesa com ele. ‘Vai-te lixar’”, recorda o guitarrista na sua autobiografia Life.

O episódio não macularia o forte elo que unia os dois músicos. Em reacção à morte, Richards declarou ter perdido “o maior companheiro neste mundo”: “Não consigo expressar a tristeza que sinto, mesmo tendo em conta que o Bobby me diria que me animasse”. Num comunicado conjunto, os Rolling Stones dizem-se “devastados pela perda de um amigo muito querido e um saxofonista lendário. Bobby deu uma contribuição musical única à banda desde os anos 1960. A sua falta será tremendamente sentida”.

Bobby Keys participou em todos os álbuns e digressões dos Rolling Stones entre 1969 e 1973. Depois do incidente na digressão europeia, passariam nove anos até passar a integrar novamente a banda a tempo inteiro. De 1982 até este ano, participou em todos os seus álbuns e digressões. Subiu pela última vez a palco a 3 de Julho, no festival de Roskilde, na Dinamarca, dois meses depois de o termos visto no concerto da banda no Rock In Rio Lisboa. “Estes tipos, pá, têm esta naturalidade”, dizia à Rolling Stone em 2012. “Isso faz parte da música de onde venho, porque não sei ler música, não faço ideia do que vai sair daquela corneta metade das vezes – quer dizer, agora tenho uma ideia. Mas não sei ler música. Não é daí que venho musicalmente. Venho estritamente do sentimento, e esse sentimento vem do rock’n’roll”.

Bobby Keys nasceu em Lubbock, a cidade de Buddy Holly. E seria ao ver o pioneiro do rock’n’roll a tocar na inauguração de uma bomba de gasolina no Texas, a primeira vez que Keys ouviu uma guitarra eléctrica, que definiu o seu futuro. Seria um músico em digressão até ao fim da vida, com um currículo riquíssimo que incluiu os referidos Buddy Holly e Bobby Vee, John Lennon, BB King, Eric Clapton, Joe Cocker, Harry Nilsson ou Lynyrd Skynyrd. Seria a sua ligação aos Rolling Stones, porém, a preservar o seu lugar na história da música popular urbana.

Deparou-se com os Rolling Stones pela primeira vez em 1964, quando estes actuaram na San Antonio Teen Fair e os sentimentos foram mistos. Por um lado, ao ouvi-los tocar a versão de Not fade away, original de Buddy Holly e um dos primeiros êxitos da banda, questionou-se sobre que ideia era aquela de um bando de ingleses ganhar dinheiro com uma canção do seu ídolo. Por outro, havia neles algo de irresistível. “Dado o que eram os amplificadores e PAs na época, não conseguia ouvir muito bem, mas, pá, se o senti… Lembrou-me tanto a energia que tinha ouvido no Buddy e que tinha ouvido no Elvis. Havia ali qualquer coisa que era ‘a’ cena”.

Em 1969, reencontraria a banda. Gravaria em Live with me, do álbum Let it Bleed. Ouvimo-lo em Brown sugar ou em Can’t you hear me knocking, de Sticky Fingers. Acompanhou a banda até à mansão na Cote d’Azur onde decorreram as lendárias sessões de gravação de Exile On Main St. Pelo caminho, encontrou-se com John Lennon, por exemplo, e juntou-se à Plastic Ono Band com que o Beatle gravou os seus dois primeiros álbuns a solo.

Tocava como vivia, no limite e sem rede. No controverso filme Cocksucker Blues, realizado pelo fotógrafo Robert Frank e retrato fiel da glória e decadência da vida dos Stones no início da década de 1970, vemo-lo, por exemplo, a atirar uma televisão, com o inseparável Keith, do décimo andar de um hotel. Na supracitada entrevista à Rolling Stone, descreve como surgiu a sua contribuição para Brown sugar. O momento, tudo o momento. “Era o primeiro take – limitei-me na verdade a fechar os olhos e a tocar. Ouço subliminarmente. Toco mais ritmicamente, em vez de usar uma série de notas. Extraio muito do que toco das faixas de ritmo – e o Keith Richards tem sido uma das maiores contribuições para as minhas interpretações inspiradas”.

Apesar do álbum a solo homónimo de 1972, apesar da imponente lista de colaborações que acumulou ao longo da vida, Bobby Keys será sempre recordado pelo trabalho com os Rolling Stones. Foi o americano do Texas que descobriu ter um bando de irmãos em Inglaterra.