Miguel Felix
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A história da Maria e dos dois pais é um livro infantil — mas também é para adultos

"Um dia na praia" é o primeiro livro infantil português que fala abertamente sobre a exclusão de uma menina por ter sido adoptado por um casal homossexual, diz a autora Sónia Pessoa. Campanha de "crowdfunding" está a decorrer até 26 de Janeiro

Tinham sido personagens secundárias no primeiro livro de Sónia Pessoa e assumem agora o papel principal: Maria, Luís e Miguel são uma família — ela a filha, eles os pais — num mundo onde a diferença ainda é mal vista e a homofobia persiste. "Um dia na praia" é um livro infantil que também é para os pais, "o primeiro em Portugal que aborda abertamente o tema da exclusão da Maria por ter sido adoptada por um casal homossexual", mas só será publicado se a campanha de "crowdfunding" para angariar 3600 euros tiver sucesso.

A aproximação de Sónia Pessoa a temas relacionados com a inclusão já vem de longe. Um dia, ao passar por um casal homossexual que trocava carinhos na rua, o filho de três anos surpreendeu-a com um comentário: "Ele disse-me 'Oh mãe, que nojo'. Aquilo foi estranho para mim. Como é que uma criança tão pequena já tem interiorizado que a noção de família tem de ser de um homem e uma mulher?" Tempos depois, ao ver um programa onde Júlio Machado Vaz e Gabriela Moita discutiam o assunto, a ideia voltou: "Comecei a pensar como é que podia fazer com que as pessoas vissem isto de outra forma e lembrei-me dos livros infantis", contou ao P3 a portuense de 45 anos.

O livro "Ser diferente é bom", publicado em 2008, foi a primeira abordagem que fez do tema. Contava a história do primeiro dia de escola de um menino romeno em Portugal, mas através das imagens iniciais já abordava o tema da adopção indirectamente: "No início aparecia a Maria em casa dela com os dois pais, o Pedro em casa com o pai e a mãe. Quis passar essa mensagem de normalidade propositadamente", recorda a autora, mãe de dois filhos.

Essa história paralela acabou por transformar-se em assunto de debate e o livro, editado pela Papiro, esgotou em Portugal e vendeu vários exemplares para o Brasil. Sónia Pessoa, ex-trabalhadora do PÚBLICO, actualmente desempregada, quer com este segundo livro “abordar o tema como tem de ser abordado: sem chocar, sem invadir espaços, mas abertamente”.

Crianças aceitam a diferença

PÚBLICO -
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Essa "naturalidade" com que escreveu este livro, já pronto há "bastante tempo", é a mesma que encontrou quando, depois do primeiro livro editado, esteve em várias apresentações do "Ser diferente é bom". “As crianças nunca me perguntaram porque é que a Maria tinha dois papas, as crianças aceitam. E não é por estarem habituadas a ouvir o assunto”, analisa.

Para conseguir editar o livro “Um dia na praia”, que terá ilustrações de Miguel Felix e será o primeiro de uma colecção de histórias infantis sob o tema "Ser Diferente é Bom", Sónia Pessoa criou uma campanha de “crowdfunding”, a decorrer até 26 de Janeiro, para angariar 3600 euros. Escrever para os mais novos pode ser uma forma eficaz de mudar mentalidades, acredita a autora, mas este livro infantil não é só para os mais pequenos: “Sinto-me sempre tentada a dizer que é mais para os pais do que para os filhos”, diz, numa entrevista concedida por telefone. “Acho que facilita a tarefa dos pais em explicar temas que não são fáceis.”

O grau de eficácia pode ser indagado através da experiência da própria autora com os dois filhos. Sónia percebeu, quando o episódio com o filho na rua aconteceu, que também na casa dela, não havendo preconceito, o assunto não era abordado. E mudou isso: “Eles leram os livros e foram educados para aceitar a diferença. Há dois anos, tinha o meu filho tinha 14 anos, a escola estava a preparar uma peça teatro e havia uma personagem gay. Ele foi o único que aceitou fazê-la.”

Artigo actualizado às 16:04 do dia 3 de Dezembro