Netanyahu despede dois ministros, dissolve o Governo e força eleições legislativas

Primeiro-ministro israelita pede aos eleitores uma maioria clara nas urnas, para poder liderar o país num quarto mandato consecutivo.

Benjamin Netanyahu disse que não tolerava oposição dentro do seu próprio Governo
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Benjamin Netanyahu disse que não tolerava oposição dentro do seu próprio Governo AFP/GALI TIBBON

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, dissolveu o Governo de coligação em funções há 18 meses e convocou novas eleições legislativas para o início de 2015 – para as quais pediu aos eleitores "um claro mandato para dirigir o país".

O colapso do executivo foi inevitável após o despedimento dos ministros das Finanças e da Justiça, Yair Lapid e Tzipi Livni, respectivamente, que nas palavras de Bibi fizeram "duríssimas críticas" às políticas económicas do Governo e à aprovação de uma controversa lei da nacionalidade, que classificava o Estado de Israel como a nação do povo judeu. "Não posso tolerar oposição dentro do meu próprio Governo", disse o primeiro-ministro.

Vários observadores e analistas políticos interpretam o diferendo público entre o primeiro-ministro e Lapid e Livni, dois experientes políticos de centro-direita, como uma "manobra" meticulosamente planeada por Benjamin Netanyahu para forçar uma nova votação – "aproveitando" o actual ambiente de tensão extrema entre os habitantes judeus e árabes e o mal-estar alimentado pela desaceleração da economia e a acrimónia nas relações diplomáticas com os principais aliados de Israel.

Em declarações ao The New York Times, o especialista do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, Yahuda Bem Meir, disse que o fim do Governo "não tem nada a ver com esta ou aquela lei", ou com as críticas dos ministros às propostas do executivo. "Esta foi uma decisão de Netanyahu, que resolveu utilizar estas questões para provocar uma crise na coligação [constituída por cinco partidos centristas e de direita]", frisou.

"O primeiro-ministro decidiu empurrar o país para umas eleições que são perfeitamente desnecessárias. Não há nenhuma razão, social ou de segurança, para antecipar a votação", concordou o demitido Yair Lapid, que representava o partido Yesh Atid na coligação. "Netanyahu preferiu agir irresponsavelmente, sem querer saber das necessidades do país e da população, para cumprir o acordo que fez com o Haredim para antecipar o prazo das eleições", lamentou o partido, em comunicado.

Outros comentadores ressalvam, porém, que o impasse no seio do executivo resulta do fim da inusitada aliança política entre Yair Lapid – o antigo apresentador televisivo que surpreendeu nas eleições de 2013 ao conquistar 19 lugares no Knesset com o seu recém-formado partido centrista  e Naftali Bennett, o líder do Casa Judaica de extrema-direita. Nenhum dos dois era um parceiro "natural" para Netanyahu, que ainda assim teve de os incluir no seu Governo, em detrimento dos seus aliados ultra-ortodoxos.

A fractura entre Bibi e Lapid tornou-se irreconciliável na segunda-feira à noite, depois de uma badalada reunião entre os dois destinada a promover o consenso: o primeiro-ministro apareceu com um ultimato, sob a forma de uma lista de cinco pontos para a qual exigia a concordância do ministro das Finanças (e que incluía, por exemplo, a reversão de várias das medidas fiscais e orçamentais propostas pelo seu ministério).

Similarmente, Netanyahu colocou Tzipi Livni entre a espada e a parede com a aprovação da lei da nacionalidade. "Não posso dar o meu acordo nem subscrever legislação que seja extremista, ultra-nacionalista e anti-sionista. Nunca vou consentir com uma provocação, seja em palavras ou em actos", criticou Livni.

As sondagens sobre a intenção de voto apontam para uma nova vitória de Netanyahu e do seu partido Likud, bem como o reforço dos partidos ultra-ortodoxos e nacionalistas, que resultaria num Governo ainda mais conservador do que o actual, que já foi descrito como "o mais extremista da História de Israel". Segundo os resultados de um inquérito telefónico conduzido na semana passada pela empresa Smith Research, num cenário de eleições o Likud aumentaria a sua votação e Bibi estaria em condições assegurar um quarto mandato consecutivo, com o apoio do ultra-nacionalista nacionalista Yisrael Beitenu, e do partido de extrema-direita formado por Naftali Bennett, Casa Judaica.