Governo chinês vai mandar artistas para o campo, para aprenderem o socialismo

Esta decisão "vai dar um grande impulso aos artistas, ajudá-los a ter uma visão correcta da arte e a criarem mais obras-primas".

Há quase 50 países que estão ao lado da China, liderada por Xi Jinping, na criação do AIIB
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Há quase 50 países que estão ao lado da China, liderada por Xi Jinping, na criação do AIIB Reuters

O Governo chinês vai enviar artistas, cineastas, realizadores e produtores de televisão para o campo, onde deverão viver com o povo de forma a "formarem uma ideia correcta do que é a arte", noticia a agência oficial chinesa, Xinhua.

Trata-se de uma decisão do Partido Comunista que recorda a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, que mandou todos os que cabiam na definição de intelectuais para campos de trabalho e reeducação no campo.

A notícia nos media estatais surge semanas depois de o Presidente Xi Jinping ter dito a um grupo de artistas que não devem procurar a fama através de trabalhos "vulgares". Xi incitou-os a mudar de atitude e a promover o socialismo — e os próprios jornais oficiais disseram que as palavras do Presidente se pareciam com um discurso que Mao Tsé-tung fez, em 1940.

A um grupo de escritores, artistas e actores, reunidos num fórum, Xi disse que a arte deve servir o socialismo e o povo e ser consistente com o pensamento marxista-leninista.

A Xinhua explica como se vão processar estas viagens. A agência estatal que controla os media irá organizar grupos que, nos meios rurais, irão contactar e conhecer as "bases, as comunidades, as aldeias e as zonas mineiras" com o objectivo de "realizarem trabalho de campo e terem experiência da vida". Os argumentistas, realizadores, apresentadores e outros profissionais do cinema, televisão e rádio vão, desta forma, viver "30 dias" em "comunidades de minorias étnicas das zonas de fronteira e noutras zonas que tenham sido determinantes para a vitória na guerra revolucionária", diz a Xinhua.

Esta decisão, concluiu a agência, "vai dar um grande impulso aos artistas e ajudá-los a ter uma visão correcta da arte e a criarem mais obras-primas".

O Governo de Pequim exerce um grande controlo sobre a cultura e a arte e há muitas limitações ideológicas. Estas estão a ser apertadas por Xi. Joseph Cheng, professor de Ciência Política em Hong Kong, define esta decisão como um acto semelhante às "campanhas de rectificação" de Mao, destinadas a silenciar os crtíticos.

"Xi está debaixo de uma grande pressão devido à sua campanha anticorrupção que prejudicou muitos interesses. Estamos outra vez a assistir a um período de tácticas de pressão sobre os intelectuais e os críticos", disse o professor ao jornal de Hong Kong South China Morning Post.

Outro académico, Steve Tsang, da Escola de Estudos Contemporâneos chineses da Universidade de Nottingham (Reino Unido), disse ao mesmo jornal que as auoridades chineses estão a apertar o controlo idológico sobre as artes, pretendendo com este gesto deixar claro que a arte promove a visão do partido comunista e o nacionalismo.

"Xi está a adensar a censura e o controle. Pretende que as artes e a literatura façam o que Xi e o partido querem e que moldem a opinião pública. Este foco no nacionalismo tem implícita uma xenofobia e o que Xi considera serem os ‘valores chineses e os direitos chineses’", disse Tsang.