Editorial

Um prefácio e três capítulos na FIL

No palco do congresso do Partido Socialista, António Costa. Nos corredores, José Sócrates

Foi ao som de Brahms que António Costa foi chamado a discursar no XX Congresso Nacional do PS na FIL. Num encontro de militantes que já se sabia que iria estar ensombrado pelo fantasma de José Sócrates, o novo líder do PS precisou de apenas alguns segundos para “arrumar” a questão. Separou a Justiça da acção política e voltou a cavar uma trincheira para evitar que a reunião socialista fosse “assaltada” pelo caso Sócrates. E conseguiu, dentro do que era possível conseguir. Não só jogou à defesa, como ainda tentou atacar Passos Coelho que, numa entrevista recente à RTP, falou de "casos judiciais" e ressuscitou, aparentemente do nada, a questão da criminalização do enriquecimento ilícito.

O tema dominou as conversas nos bastidores, nos corredores e nos directos das televisões, mas o congresso do PS não se esgotou em Sócrates. E ainda bem. Se assim fosse, seria uma oportunidade perdida para o partido, numa altura em que muitos portugueses olham para o PS para tentar perceber o que tem de diferente para oferecer à governação do país. A intervenção de António Costa pode arrumar-se em três capítulos, além do prefácio Sócrates: primeiro o partido, depois o país e por fim a Europa.

Em relação à vida interna do PS, deixou uma novidade: se for eleito primeiro-ministro, proporá a eleição de um secretário-geral adjunto para garantir o funcionamento do partido. Os estatutos também foram alterados para consagrarem a possibilidade de os simpatizantes poderem votar nas eleições primárias e directas, num congresso em que, para além dos delegados, também figuras independentes subiram ao palco para discursar.

Quando começou a discursar para fora, para o país, António Costa fechou a porta a consensos com a actual a maioria e pintou um retrato negro da economia: nos últimos três anos perderam-se 340 mil empregos líquidos e a dívida cresceu sete vezes mais do que toda a receita das privatizações. Pelo meio ainda houve tempo para recordar o Novas Oportunidades e o Simplex; e o fantasma de Sócrates voltou a pairar por breves instantes.

A questão da dívida serviu para Costa fazer a ponte para a Europa. Pediu mais flexibilidade na leitura do tratado, uma nova discussão sobre a dívida e mais investimento, além do que já foi anunciado por Juncker. Mais tarde Manuel Alegre viria mesmo a defender a renegociação da dívida.

António Costa acertou no diagnóstico que fez, quer sobre a Europa, quer sobre Portugal. Mas no discurso continua a faltar um quarto capítulo: o que faria Costa de diferente, e de concreto, para criar emprego e baixar a dívida? E como é que conseguirá fazer aquilo que até agora nenhum líder socialista na Europa conseguiu fazer, ou seja, contrariar a ortodoxia financeira que a Alemanha tem imposto à Europa?