Franco Maria Ricci: "É muito útil ver como um museu público vê com outros olhos a minha colecção”

O editor Franco Maria Ricci mostra pela primeira vez a sua colecção de arte fora de Itália. O Museu de Arte Antiga diz que a exposição é também uma estreia de Bernini em Portugal.

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Papa Clemente X, de Bernini
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Vanitas
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Cardeal Paluzzo, de Lorenzo Merlini
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Cardeal Paluzzo, de Lorenzo Merlini
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Retrato de Vítor Amadeu III de Saboia e de Maria Antónia Fernanda de Bourbon (à direita), de Francesco Orso
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À direita, retrato de de Antonio Ghidini com a família, de Pietro Melchiorre Ferrari
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Será a primeira visita de um Bernini a Lisboa. Um quarto da colecção de arte do coleccionador, editor e designer Franco Maria Ricci está a partir de sábado no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Depois, a valiosíssima escultura de Bernini representando o Papa Clemente X regressará juntamente com o resto a Parma onde, em Maio, nascerá o museu criado pelo italiano. Exactamente no seu labirinto privado, o maior do mundo, em forma de estrela e com uma pirâmide no centro. Por agora, a colecção Ricci dá a Lisboa um mar de cinco séculos de rostos e histórias.

Estas cem obras da colecção são mostradas pela primeira vez fora de Itália como uma das grandes apostas da temporada do MNAA – é a exposição temporária que ocupa o piso térreo do museu e também a sua biblioteca, aberta ao público e com duas preciosidades em destaque. A Encyclopédie francesa de Denis Diderot e Jean le Rond d'Alembert (1751-72) e a bíblia tipográfica que são os manuais de typefaces (ou tipos de letra) de Giambattista Bodoni, impressor e desenhador de letras oficial do duque de Parma no século XVII. Ambos foram reimpressos por Franco Maria Ricci há cerca de 50 anos. O tesouro de Bodoni pertence ao coleccionador, mas o original francês é pertença do MNAA. “Se há sistematização do saber, do pensamento ocidental, esta é uma obra paradigmática”, postula José de Monterroso Teixeira, comissário da exposição FMR - A Colecção Franco Maria Ricci.

Um Bernini que "sela a reconciliação entre o mais famoso escultor do barroco romano e o Papa após um grande desentendimento", contextualiza o historiador de arte Monterroso Teixeira, livros preciosos, as revistas de arte FMR, paixão pelo neoclassicismo e design gráfico. “A formação gráfica de Ricci atravessa a orientação e enquadramento da colecção e por isso torna-a tão apetecível e instigadora. É uma colecção que nos interpela e remete para outros universos estéticos”, diz ao PÚBLICO. Frisa a importância do “arquétipo de Bodoni” no trabalho e colecção de Ricci, “a dimensão incisivamente gráfica com que olha para as coisas”.

É isto Franco Maria Ricci, uma figura esguia de 76 anos que passeia entre os jornalistas durante a visita guiada na manhã de quinta-feira retendo-se numa ou noutra obra. Obras que povoam a sua casa, na região de Parma de onde é natural, obras como a pintura seiscentista Cabeça de São João Baptista, a partir de Andrea Solario, na qual se detém no núcleo dedicado às Vanitas e Memento Mori. Um coleccionador na encruzilhada das peças da sua família de aristocratas, da sua formação em Geologia e do design.

Aos 26 anos, já a exercer como designer e gestor de uma tipografia, descobre Bodoni. O nome que conhecemos da lista de fontes disponível nos nossos computadores e cujo manual de 1818 reimprimiu, ganhando com ele nome no mercado editorial. E o reconhecimento da comunidade do design e das artes visuais, à qual deixou um legado - “Foi um marco para quem trabalha em grafismo e edição”, diz ao PÚBLICO por email. Em 1970 reimprime a Enciclopédia francesa, a primeira e única reedição completa da obra magistral, ao mesmo tempo que estava já a criar alguns dos logotipos que se entranham na cultura e sociedade italianas como o dos correios italianos (Poste Italiane) ou dos equipamentos de cozinha Smeg, mas também nos EUA com um logotipo para os armazéns Neiman Marcus.

Além destes, lista os cartões de embarque com imagens de arte italiana que entre 1990 e 2005 estavam nas mãos dos passageiros da Alitalia como os trabalhos em que se sente “particularmente representado como designer”- uma actividade na qual, para além da estrutura dada por Bodoni, reconhece a influência da Pop art de Warhol ou Rauschenberg. E que é, para ele, onde tudo começa. “A minha actividade de designer esteve na base da minha actividade de editor, juntamente com a minha paixão por Bodoni que, no Settecento, foi como eu tanto designer gráfico quanto editor.” Um “campeão do neoclassicismo, da clareza e elegância. Trabalhou toda a vida na minha cidade, Parma, e descobri a beleza das suas obras nos anos 1960, quando abriu o Museo Bodoni em Parma. A partir daí segui sempre o seu exemplo”, descreve ao PÚBLICO. 

"40 anos da minha vida"

Bustos, muitos, retratos, imensos, e o olhar do comissário e do director do MNAA, António Filipe Pimentel, a encontrar uma pulsão ontológica no coleccionismo de Ricci. Uma “fascinante viagem pela representação humana” ao longo de cinco séculos, promete-se na entrada da exposição, “uma espécie de retrato da condição humana, evocado peça a peça”, disse Pimentel em Outubro. Questionado pelo PÚBLICO sobre se reconhecia nas compras de uma vida essa vontade de questionar o ser humano da Renascença ao expressionismo, Franco Maria Ricci responde: “Não completamente. É verdade que tenho uma paixão por retratos, mas a formação da minha colecção deve-se mais do que tudo aos encontros fortuitos com obras que me fascinaram. Os encontros apresentaram-se sobretudo graças à minha actividade de editor e à minha curiosidade”.

À entrada, Monterroso Teixeira denuncia sorridente a presença de um “grafitista” que, na noite anterior, teria entrado na exposição que se foca nos períodos clássico, neoclássico e maneirista para produzir as três pinturas contemporâneas que se opõem a bustos do século XVIII. Duas cabeças de tigre (1955-57) e um Auto-retrato (1959-60) não de um writer de graffiti mas de Antonio Ligabue, o pintor italiano que tem lugar no panteão dos artistas naif do século XX. Os núcleos mais fortes da colecção FMR são, explica o comissário Monterroso Teixeira, os dedicados ao “classicismo em que podemos incluir o neoclassicismo”. Mas “ao mesmo tempo, vai piscar o olho às terracotas”, exemplifica com as peças que ocupam o oitavo dos dez núcleos da mostra. “É como a própria desmontagem da eleição desse gosto e desse paradigma. E é nessa tensão que podemos encontrar em outros núcleos que a força, a dinâmica e a identidade da colecção se joga.” Um clássico com desvios.

São os diferentes caminhos para que aponta a colecção Franco Maria Ricci: apesar de parecer então uma rota definida na arte antiga, contém peças como as de Ligabue ou como a escultura expressionista da Cabeça de Benito Mussolini em bronze da autoria do artista plástico italiano Giandante X. “A colecção são 40 anos da minha vida”, disse Ricci aos jornalistas, incapaz de seleccionar uma peça entre as 100 que trouxe de Itália e que além do Bernini em estreia em Lisboa incluem peças de Filippo Mazzola (Cristo abençoando), Jacopo Ligozzi, Philippe de Champaigne (Retrato de Marie Madeleine de Vignerod, duquesa d’Aiguillon), Canova (Beatriz) ou Thorvaldsen.

Ligabue é, aliás, revelou Ricci na apresentação, o tema da primeira exposição dentro do seu Labirinto - ao qual se refere assim, com letra grande. Símbolos de fé, “estão entre as invenções mais antigas da humanidade”, justifica na apresentação do Labirinto de Masone, o parque cultural com museu e pirâmide que abrirá então na sua casa de campo em Fontanellato.

O bibliófilo que não lê na cama (por adormecer infalivelmente, como disse em 2001 numa entrevista) tinha 27 anos quando fundou a sua editora, a Franco Maria Ricci Editore e, depois, a conceituada revista de arte FMR. Sobre esta, o coleccionador disse ter como objectivo acostumar o público a ver a beleza da arte. É esse também o fito do seu iminente museu? “O museu do Labirinto prosseguirá de facto, num certo sentido, o objectivo da FMR: conseguir, através de actividades de prazer e relaxamento, mostrar obras-primas da arte muitas vezes curiosas e menos conhecidas. Além disso, contará a minha história e o meu gosto, as escolhas de uma vida no campo editorial, a aventura de um homem que aos 70 anos decidiu plantar 200 mil pés de bambu para fazer um labirinto aberto a todos”, diz Ricci ao PÚBLICO.

O fascínio pelos labirintos explica-se com outro nome: Jorge Luis Borges. A colecção privada de Ricci, que em Abril se tornará pública revertendo para o Estado italiano, está recheada de obras “que poderiam estar numa grande galeria europeia” mas irão para o museu no centro da estrela labiríntica. “Não é um projecto rentável – é um projecto cultural e o próprio Labirinto é um projecto cultural ligado a essa figura fabulosa sempre presente no universo e imaginário de Ricci que é Jorge Luis Borges”, contextualiza Monterroso Teixeira. Com ele, além de longas conversas, teve um projecto essencial, a colecção Biblioteca de Babel que editou dezenas títulos a conselho do romancista argentino.

A colecção que esvaziará paredes, estantes e aparadores da residência do coleccionador veio a Portugal em exclusivo depois de ter sido exposta uma só vez em Colorno, também na região de Parma, em 2004. “A colaboração proposta há mais de um ano pelo MNAA revelou-se, mais do que agradável, muito interessante; agora que estou a projectar a montagem de toda a colecção no espaço do meu Labirinto em Fontanellato, é muito útil ver como um museu público vê com outros olhos a minha colecção”, explica Ricci. Organizada em parceria com a promotora de espectáculos UAU, que investiu cerca de 350 mil euros em FMR - A Colecção Franco Maria Ricci, a mostra está também associada à exposição Giambattista Bodoni: a invenção da simplicidade que abre também este sábado na Biblioteca Nacional e Il Celebre Pittore Francisco Portuense (Desenhos de Pádua) no MNAA.

As peças que captam a atenção e o desejo em Franco Maria Ricci, que continua a comprar obras para a colecção cuja amostra se expõe agora no MNAA, estão relacionadas com a sua “paixão pelo neoclássico” mas também pelo maneirismo. “Por exemplo, cometeria loucuras para comprar um Parmigianino (1503-1540) se o encontrasse no mercado… Ainda que a verdadeira loucura que não deixa espaço para as outras é mesmo a construção do meu Labirinto.”