Projecto português para desenvolver terapia genética contra o VIH ganha 100 mil euros

Objectivo da investigação passa por travar a replicação do VIH e minar o reservatório viral que torna a infecção crónica. Financiamento europeu será para os próximos dois anos.

Pedro Borrego lidera o projecto vencedor
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Pedro Borrego lidera o projecto vencedor DR

Um projecto português para travar a infecção do vírus da sida foi um dos vencedores de um concurso europeu, e recebeu 100 mil euros para ser desenvolvido nos próximos dois anos. A investigação, que ainda está em fase laboratorial, aposta numa terapia genética pioneira.

Na próxima segunda-feira, 1 de Dezembro e dia mundial da sida, o investigador Pedro Borrego, responsável pelo projecto, irá receber o Prémio Partnering for Cure Research Funding 2014, financiado pela empresa farmacêutica Bristol-Myers Squibb com sede em Nova Iorque, no X Congresso Nacional VIH-SIDA da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da SIDA, em Lisboa. O concurso europeu tinha 300.000 euros para dar, que foram divididos por quatro projectos liderados por jovens investigadores no âmbito da investigação do vírus da sida e do vírus da hepatite B.

“Este tratamento permite que se controle a infecção do VIH na ausência de medicação anti-retroviral”, diz Pedro Borrego ao PÚBLICO sobre o projecto que quer desenvolver. O cientista de 34 anos, formado em ciências farmacêuticas, tirou o doutoramento na área do VIH e trabalha no Instituto Superior de Saúde Egas Moniz como pós-doutorado. Durante o doutoramento, o cientista desenvolveu parte do trabalho agora incluído no novo projecto, que tentará desmantelar o quebra-cabeças que torna, para já, a infecção do VIH invencível.

Desde os primeiros casos de sida observados no início da década de 1980, que o VIH já matou 39 milhões de pessoas. Até ao final do ano passado, 35 milhões de pessoas viviam com o vírus, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto não foram descobertos os primeiros anti-retrovirais, a infecção do VIH era uma sentença de morte.

O vírus, que existe em fluidos humanos como o sangue, o esperma, o fluido pré-ejaculatório, o fluido vaginal, o fluido anal e o leite materno, pode ser transmitido a outra pessoa (independentemente de já se estar infectada ou não pelo VIH) de várias formas: quando um destes fluidos entra em contacto com as membranas mucosas, que existem na boca, na vagina, no pénis e no ânus; quando entra em contacto com uma ferida externa ou interna; ou no caso do uso de seringas ou de transfusões de sangue contaminados com o vírus. Só em 2013, houve mais 2,1 milhões de casos novos.

Dentro do corpo, o vírus entra em muitas células diferentes do sistema imunitário, onde fica pouco tempo e multiplica-se abundantemente. Sem tratamento, os linfócitos CD4 – a classe de células do sistema imunitário mais fustigada por este vírus – vão desaparecendo. Por isso, o corpo deixa de ser capaz de responder a infecções que normalmente são resolvidas facilmente. As pessoas desenvolvem doenças cada vez mais difíceis de debelar, é nesta fase que têm o síndrome de imunodeficiência adquirida (sida).

Os anti-retrovirais mudaram a face mais negra da sida, matam os vírus activos impedindo a morte das células do sistema imunitário. De acordo com a OMS, das 35 milhões de pessoas com o VIH no final do ano passado, 28 milhões estavam em condições de receber estes tratamentos, mas apenas 12,9 milhões de pessoas tinham acesso a estes medicamentos.

No entanto, se o vírus sofrer mutações e passar a ser resistente aos anti-retrovirais ou se uma pessoa deixar de ter condições para tomar os medicamentos, o fantasma da sida volta a surgir graças a uma estratégia de sobrevivência do VIH. Ao mesmo tempo que se vai multiplicando, o ADN do VIH é incorporado no genoma de muitas células de classes diferentes, dando ao vírus uma existência latente.

Por isso, mesmo que os anti-retrovirais tenham erradicado todos os vírus activos, de tempo em tempo, um destes genomas viral volta à vida, produz inúmeras cópias e o vírus espalha-se pelo corpo outra vez. Se uma pessoa infectada com o VIH não tomar continuadamente os medicamentos, a infecção recomeça. Assim, até ver, as pessoas têm que tomar estas fármacos para o resto da vida, sujeitando-se a sofrerem vários efeitos secundários e arriscando-se a que haja mutação e o vírus ganhe resistências.

Mas, com o novo projecto, Pedro Borrego quer atacar o vírus em duas frentes sem ajuda dos anti-retrovirais. Por um lado, o objectivo é evitar novas replicações, por outro, é inutilizar o ADN viral que está escondido no genoma de muitas células. Para isso, o projecto vai utilizar terapia genética. No trabalho também estão envolvidos Nuno Taveira, investigador principal da equipa de Pedro Borrego, e Helena Florindo, investigadora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

“A entrada do vírus numa célula vai ser impedida pela expressão genética de uma pequena proteína que se liga ao vírus e impede que este entre nessa célula”, diz Pedro Borrego, explicando como pretende travar a replicação do vírus. Durante o trabalho de doutoramento, o cientista identificou pequenas proteínas, chamadas de péptidos, muito eficazes em bloquear a entrada do vírus.

Agora, no novo projecto, será preciso pôr vários tipos de células a produzir estes pequenos péptidos para se protegerem do vírus. Como se faz isso? “Vamos introduzir ARN nas células através de nanopartículas”, responde o investigador. O ARN é uma molécula parecida ao ADN que contém informação genética para se produzir proteínas.

Dentro de uma nanopartícula, esta molécula pode ser dirigida para determinadas células no corpo humano. Nas células, o ARN pode multiplicar-se e expressar os péptidos que vão bloquear, fora da célula, o VIH. Para isso, os cientistas querem desenvolver uma maquinaria que vai junto com as nanopartículas para ajudar o ARN a replicar e a produzir o péptido.

Por outro lado, os cientistas querem usar a mesma tecnologia das nanopartículas para introduzirem nas células onde há genoma viral adormecido um “sistema de edição genómico”, explica Pedro Borrego. Este é o nome sofisticado para um conjunto de moléculas de ARN e de proteínas que irão até ao núcleo dessa célula e alterarão o ADN viral de modo a deixá-lo estragado para que nunca mais volte a acordar.

“O objectivo é ter uma solução diferente da que existe actualmente”, sublinha o cientista, que chama a esta uma “cura funcional”, em oposição a uma “cura de esterilização”, quando se erradica o vírus do corpo. Para se erradicar completamente o vírus seria necessário bloquear o ADN viral em todas as células do corpo onde ele se escondeu. Esse continua a ser um desafio grande, já que é preciso ter a certeza que se reconhecem todos os reservatórios do vírus. Mas a nova terapia genética, se resultar, não provocará os problemas dos anti-retrovirais que fazem o vírus mutar ou causam efeitos secundários.

Nos próximos dois anos, a equipa quer desenvolver as duas terapias genéticas e testá-las em células de mamífero e células humanas de pessoas com o VIH. O prémio será usado para contratar pessoas e para material de laboratório, além de ajudar a equipa a entrar numa rede de contactos de institutos de investigação e de farmacêuticas na Europa. “Fiquei muito satisfeito, é uma oportunidade de trabalho numa área emergente”, diz Pedro Borrego. Se as terapias forem eficazes, diz-nos o cientista, o próximo passo será testá-las em animais.