Entrevista

“O cante já ganhou”, diz Paulo Lima, coordenador da candidatura

Coordenador da candidatura a património imaterial da humanidade diz que o cante pode ser um forte contributo contra a solidão e o isolamento.

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“A partir de finais de 2012, houve uma explosão de grupos corais. Surgiram grupos jovens” José Serrano/Diário do Alentejo

Antropólogo e director da Casa de Cante de Serpa, Paulo Lima é o coordenador da candidatura do cante alentejano a património cultural imaterial da humanidade. O que quer que aconteça esta semana na sede da UNESCO, em Paris, é o culminar de 15 anos de trabalho para Lima, um investigador na área do cante alentejano que Sérgio Tréfaut, realizador de Alentejo, Alentejo, descreve como alguém que “sabe mais do que os académicos”.

Qual era o panorama do cante há 15 anos, quando começou a trabalhar na ideia de uma candidatura? Melhor ou pior do que é hoje?
Havia um conjunto de grupos com alguma força, não muitos. Hoje o panorama é muito diferente. A partir de finais de 2012 houve uma explosão de grupos corais. Não só houve uma dignificação do movimento coral, como surgiram grupos jovens, com características diferentes dos mais antigos. Surgiram grupos corais nas academias sénior. E a norte de Évora. Esse fenómeno nos últimos dois anos tem a ver com duas coisas. Por um lado, a candidatura, a perspectiva de uma distinção à escala global. Por outro, a questão do turismo. Nos últimos anos, o Alentejo deixou de ser o alvo das anedotas para ser o centro de uma qualidade de vida, um destino de grande qualidade – pela paisagem, pela cultura, pela gastronomia.

Um dos riscos possíveis desta patrimonialização não é uma perda de autenticidade, de espontaneidade, uma bastardização do cante?
Quem esteve por trás da candidatura foi a Direcção-Geral de Turismo. Não vamos ser inocentes e pensar que há almoços grátis. Para o turismo importa ter mais uma distinção da UNESCO para promover o território. Com certeza que vai aparecer quem tente tirar daqui mais-valias, quer operadores, quer projectos musicais. A título pessoal, o que me interessa no cante é aquilo a que eu chamo a esteva. A esteva é a última barreira do deserto. Em muitos locais, os grupos corais são o último lugar onde as pessoas se podem reunir. São um combate à solidão, ao isolamento. Além de todas as questões económicas, turísticas, de salvaguarda das identidades, o que me interessa sobretudo no cante é esta última barreira. Não me interessa se cantam bem ou se cantam mal, se vestem de acordo com a região ou não, se estão ou não a cantar o reportório tradicional. O que me interessa fundamentalmente é a questão social. Pela sua forma de cantar gregário, colectivo, o cante alentejano pode ser um forte contributo: para as crianças, para mostrar que há coisas boas a fazer em conjunto; e pode ajudar os mais velhos a sair da sua terra, da sua exclusão. Em lugares muito pequenos, onde já se perdeu tudo, o cante continua a ser das poucas coisas que as pessoas podem fazer colectivamente. Acredito que, com a candidatura, isso será exponenciado.

Está optimista quanto à decisão da Unesco?
Nós já ganhámos. Esta candidatura e tudo o que aconteceu à sua volta já fez o cante ganhar. Nunca se falou tanto de cante como hoje. Há trabalhos académicos em curso, há novos grupos corais, há projectos artísticos, há uma intenção das câmaras – agora toda a gente quer ter cante nas escolas. Como diz o Astérix, a gente só vende a pele do javali depois de o caçar. Mas estou confiante. Era importante, para estes homens e para estas mulheres, este reconhecimento. Também não vamos pensar que isto vai ser uma revolução francesa. Agora, vai ter uma outra coisa: vamos estar disponíveis para aquilo que poderíamos chamar um capitalismo estético.