Editorial

Detenção provoca terramoto político

José Sócrates foi detido. É inédita em Portugal a detenção de um ex-primeiro-ministro. E agora?

A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou neste sábado que José Sócrates foi detido no âmbito de um inquérito em que se investigam suspeitas de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Para além do ex-primeiro-ministro, na quinta-feira já tinham sido detidos um empresário, um advogado e um motorista, num inquérito que investiga “operações bancárias, movimentos e transferências de dinheiro sem justificação conhecida e legalmente admissível”, segundo a PGR.

A detenção de um antigo primeiro-ministro para interrogatório é um facto inédito na história da democracia portuguesa. Salvaguardando o princípio da presunção de inocência (para Sócrates e para todos os que estão envolvidos em casos de justiça que ainda não transitaram em julgado), a verdade é que nos últimos tempos têm-se acumulado os casos de investigações, detenções e condenações de ex-titulares de cargos políticos e altos quadros do Estado. Os mais optimistas dirão que é a justiça a funcionar. Os mais cépticos ainda desconfiam. Mas a verdade é que hoje em dia é inegável que a justiça está mais à vontade e confortável (em termos de meios e de enquadramento legal) para lidar com casos de criminalidade económica mais sofisticada e de maior complexidade.

Mesmo quem possa olhar para a justiça com uma nota de maior optimismo, também não se pode deixar de indignar e estranhar a “recepção” de que Sócrates foi alvo no aeroporto da Portela, onde era aguardado por câmaras de televisão. Esta aparente fuga de informação levanta suspeitas de uma desnecessária procura de protagonismo por parte da justiça.

A notícia da detenção de Sócrates caiu que nem uma bomba no meio político, num fim-de-semana recheado de eventos partidários. Além da IX Convenção do Bloco de Esquerda, cerca de 47 mil militantes socialistas elegiam António Costa para o cargo de secretário-geral do PS. Com muitos microfones à procura de uma primeira reacção, a generalidade dos partidos políticos esteve à altura de um momento delicado em que não se devem antecipar julgamentos e condenações.

No Partido Socialista, onde alguns como Ferro Rodrigues ainda chegaram a ensaiar uma espécie de reabilitação política de José Sócrates, a notícia da detenção do ex-líder provocou, num primeiro momento, perplexidade. E num segundo momento, um enorme embaraço. Se até hoje no Largo do Rato havia uma grande dificuldade em lidar com a herança da governação de José Sócrates, agora o assunto passou a ser de extrema delicadeza dada a gravidade das suspeitas que recaem sobre o antigo primeiro-ministro. António Costa sabe que não será fácil blindar o partido e separar águas, numa altura em que falta menos de um ano para as legislativas. Mas esteve bem em apelar para que os eventuais “sentimentos de solidariedade e amizade pessoais” não se confundam com a acção política. À justiça o que é da justiça. Aos partidos exige-se que saibam lidar com as réplicas que este terramoto na justiça irá provocar no terreno político.

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