Autoridades confirmam que surto de Legionella teve origem em torre da ADP

Director-geral da Saúde disse que resultados das amostras vão ser remetidos para o Ministério Público para "apuramento de crime ambiental com origem na água de uma das torres de refrigeração da empresa Adubos de Portugal".

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As torres estão fechadas desde que surgiram suspeitas sobre a origem Miguel Manso

A informação consta de um comunicado conjunto da Direcção-Geral da Saúde, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e da Inspecção Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, que foi lido pelo director-geral da Saúde, Francisco George, numa conferência de balanço sobre o surto.

“As análises conduzidas pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge confirmam que o isolamento por cultura” da Legionella encontrada “em amostras de água de torres de arrefecimento, apresenta um perfil molecular semelhante ao das estirpes clínicas, obtidas em doentes com pneumonia devida, comprovadamente, a doença dos Legionários”, afirmou Francisco George. "Há dados analíticos que estabelecem ligação entre bactérias encontradas em água de torres de arrefecimento e amostras clínicas", reforçou.

“Nestes termos, para fins epidemiológicos, no plano descritivo, foi identificada uma fonte emissora de aerossóis contaminados”, disse, acrescentando que “serão enviados ao Ministério Público os relatórios até agora produzidos bem como os relatórios da sequenciação do genoma para eventual apuramento de crime ambiental com origem na água de uma das torres de refrigeração da empresa Adubos de Portugal (ADP)”.

O ministro do Ambiente, numa declaração final na conferência de balanço, salientou a gestão que foi feita numa “crise com proporções singulares mesmo à escala internacional” e destacou que as autoridades desencadearam as “todas as medidas necessárias para [haver] eventual responsabilização”. “Disse sempre que neste caso, ao contrário do que aconteceu noutros países, que não chegássemos ao fim desta crise sem ter o foco provável e que a culpa não morresse solteira”, afirmou Jorge Moreira da Silva”, reforçando que os resultados das análises e nas inspecções feitas “permitem hoje ter uma segurança muito maior quanto ao desejo que tínhamos de que a culpa não morresse solteira”.

Ainda sobre as análises, George explicou que o Insa ainda está a trabalhar várias amostras de doentes, mas garantiu que “os trabalhos de investigação realizados permitiram excluir outras fontes potenciais, tais como água de consumo, grandes superfícies comerciais e sistemas de ar-condicionado” e assegurou que “o risco de adquirir a infecção, no âmbito do surto, é agora praticamente nulo” e que “a população da zona afectada pode retomar as suas actividades habituais”. “Já não estão presentes as condições ambientais, incluindo as atmosféricas, que se conjugaram para originar o surto”, salientou Francisco George.

Desde que o surto foi detectado, do dia 7 de Novembro, foram identificados 336 casos de doença do legionário, “dos quais 327 foram internados na Região de Lisboa e Vale do Tejo, três na Região Norte, cinco na Região Centro e um na Região do Algarve”, esclarece um comunicado conjunto das várias entidades que integram a task-force criada para lidar com o surto, liderada pelo ministro da Saúde, e que agora será “dissolvida”, como adiantou Paulo Macedo.

Na maior parte dos casos os doentes foram internados no Hospital de Vila Franca de Xira. Ao todo, já foram dadas 179 altas na região de Lisboa, duas no norte, duas no centro e uma no Algarve. Há também dez óbitos confirmados. O último balanço referia oito, mas o director-geral da Saúde explicou que estas duas mortes ocorreram pouco depois do surto ter sido identificado, mas que só agora, com os dados da Medicina Legal, foram confirmadas como doença do legionário. As mortes ocorrerem em pessoas entre os 52 e os 89 anos, sendo sete das vítimas homens e três mulheres. Há ainda 38 doentes nos cuidados intensivos, 23 dos quais ventilados, pelo que o número de óbitos pode subir.

Por seu lado, o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Luís Cunha Ribeiro, apresentou dados que mostram que houve 112 doentes encaminhados pelo Hospital de Vila Franca de Xira para outras unidades, em 36% dos casos para o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental e em 24% para o Centro Hospitalar de Lisboa Norte. O pico de internamentos aconteceu no dia 8 de Novembro, com 70 casos. Em média os doentes que já tiveram alta estiveram internados ente quatro dias e oito dias.