Torne-se perito Reportagem

O caso cada vez mais sério da electrónica portuense

Já é impossível fazer uma radiografia completa da música electrónica nacional sem olhar para cima. Há cada vez mais projectos novos e jovens produtores, que usam referências e educações distintas para criar a sua própria identidade. Uma cena dispersa, mas caleidoscópica e entusiasmante.

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Tar Feather, um dos projectos de Diogo Tudela, joga com a memorabilia da música de dança
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LASERS é o nome de guerra de um dos novos produtores portuenses a ter em conta, João Lobato - a sua música, diz, "tem tido mais validação internacional"
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Polido, 20 anos, recorta, recontextualiza e reinterpreta samples vindos de filmes pornográficos, anúncios anti-drogas, música japonesa...
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Os Unfixed & Broken têm uma residência mensal num concorrido clube de Brick Lane, em Londres; o EP de estreia da dupla foi elogiado pelo veterano Richie Hawtin
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Ghuna X, cara do colectivo Faca Monstro, é uma figura essencial de toda esta história
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Colectivo e editora de rappers, produtores, DJ e ilustradores, a Monster Jinx tem estado por trás de uma revitalização do hip-hop nacional PAULO PIMENTA

Ludovic Pereira tinha uma banda de sludge. Virou-se para a música electrónica depois de ver Monolake, em Braga, e a partir daí “vendeu a alma ao diabo por panquecas e tecno”. Diogo Tudela era do hardcore. Um dia ouviu os MSTRKRFT e aquela coisa do dance-punk “até pareceu fazer algum sentido” – depois seguiu outros caminhos e começou a embrenhar-se em explorações arqueológicas do som. Frederico Mendes era o Fidbek dos MatoZoo, mítico colectivo de hip-hop de Matosinhos. Entrou na electrónica quando se tornou MC do DJ/produtor Infestus e começou a ser presença habitual nas festas da Enchufada vestido de Nave Mãe. Jonathan Saldanha ouvia sobretudo música indiana na adolescência. Electronicamente falando, encontrou no dub e no jungle as deslocações de ritmo e “o desfasamento da realidade” que lhe interessavam nos sons do Norte da Índia.

São referências distintas que fazem da electrónica portuense uma cena dispersa mas altamente caleidoscópica e entusiasmante. É impossível fazer uma radiografia completa da música electrónica nacional sem olhar a Norte. Cada vez mais: as editoras, os projectos e os produtores (muitos deles na casa dos 20) têm-se multiplicado nos últimos tempos, com a Internet a substituir os clubes como espaço de aprendizagens e encontros. Não se reúnem num movimento nem em filiações estéticas, mas partilham pontos de contacto e um chão comum: a vontade de transaccionar sons, batidas e samples de várias origens e enquadrá-los em estruturas de música electrónica (sejam elas mais próximas do house, do tecno, do dubstep ou do hip-hop); a vontade de experimentar para ver no que aquilo dá, sem se preocuparem com o vizinho do lado. E, claro, sem se limitarem a fronteiras locais e nacionais.

A Con+ainer é disso exemplo. Criada com o objectivo de fazer a ponte entre o Porto, onde vive Ludovic Pereira, e Hamburgo, onde residem Fábio Fernandes e Fabian Eichstaedt, a editora começou a alargar horizontes logo nas primeiras edições. No primeiro ano, 2012, saiu Lisnave, o EP de estreia de Miguel Torga, alentejano residente em Lisboa que lançou há uns meses o precioso disco de estreia Hexágono Amoroso através de outra editora portuguesa, a Elements. E o portuense Bruno Deodato (Trikk), que editou o EP Wat U Do/ All This Time pela Con+ainer, está radicado em Londres e leva as suas reinterpretações ágeis e suculentas do house mais clássico a vários clubes europeus.

Lançaram recentemente a compilação 2 Years of Con+ainer, que assinala os dois anos de actividade da editora e congrega produtores por esse mundo fora, descobertos por Ludovic (nome de código: Cloche) em noitadas no Soundcloud. A edição, disponível on-line, dá a ouvir house e tecno de possibilidades atípicas e junta ingleses, alemães e japoneses a produtores do Porto como Ludovic, Dupplo, Voxels ou LASERS.

Um dos pontos altos de 2 Years of Con+ainer é a electrónica imersiva e multi-sensorial de LASERS, um dos novos produtores portuenses a que devemos fazer marcação cerrada. João Lobato parece ter sempre a beleza do seu lado. Ouça-se o EP homónimo editado em 2012 pela Bad Panda Records: Lobato pega em samples, linhas de sintetizadores e batidas fragmentadas de dubstep, hip-hop e house, suavizando-os e fazendo-os deslizar em mantos de electrónica orgânica e luzidia, com melodias afectivas que fazem lembrar Gold Panda, Shigeto ou Toro y Moi (sim, há ali traços de chillwave). Começou a tocar ao vivo lá fora, incluindo na Holanda, onde viveu e deu forma a LASERS. Está de regresso ao Porto mas admite que a sua música “tem tido mais validação internacional”.

Entre Porto e Londres
A 1980 é outra jovem editora entre cá e lá. Foi criada há uns meses por Frederico Mendes (conhecido como DJ Nave Mãe e como o Fidbek dos defuntos MatoZoo), no Porto, e Ivo Fontão (o produtor Tugalife), em Londres. Tudo sem grandes ambições, confessa Frederico. Queriam virar costas às modas e editar “aquilo de que gostavam” – o que, por acaso, não resultou nada mal, como prova a compilação Lyfers, o cartão de apresentação da 1980. “A Rita Maia [DJ portuguesa radicada em Londres com um programa de rádio na influente Resonance FM] tem passado os temas da editora e diz que as reacções são óptimas”, conta Frederico.

É música em que os beats estão no centro do jogo, mas são driblados em encruzilhadas difusas: ouvem-se o dubstep subaquático do portuense Dubout, o tecno-jungle mutante e analógico de José Acid (o outro projecto do lisboeta Shcuro), o dub voodoo e de arquitecturas em constante ressonância de Spaced Out (Maze, dos Dealema), ou o house old-school de fisicalidade sublimada pela bass music e pelo breakbeat dos Unfixed & Broken, que se estrearam pela 1980 com o EP Your Woman, elogiado por figuras como o veterano Richie Hawtin.

A dupla composta por Pedro Maurício e Miguel Tavares tem uma residência bimensal no Café 1001, concorrido clube de Brick Lane, uma das zonas culturalmente mais relevantes de Londres. São mais um caso de produtores portuenses que se instalaram na capital inglesa, como fizeram os amigos Bruno Deodato (Trikk), Ivo Pacheco (IVVVO) e Luís Dourado (Purple, agora a residir em Berlim). Três nomes ligados à editora Terrain Ahead, que continua a ser mantida no Porto por Tiago Carneiro (Solution), um dos DJ/ produtores mais interessantes da cidade, sobretudo no que toca ao tecno denso e exploratório mas com propulsão rítmica para a pista de dança. “O formato e a estética editorial” da Terrain Ahead vão ser redesenhados, adianta Tiago, e para breve está o lançamento de uma série de EP guardados na gaveta. O primeiro a chegar é o de Twerz, um obscuro produtor britânico de tecno espartano e construtivista.

Ainda na senda das compilações, convém não passar ao lado de Vernissage, preparada pela Monster Jinx, colectivo e editora de rappers, produtores, DJ e ilustradores com base no Porto que tem manobrado uma revitalização no hip-hop nacional e nas suas contaminações electrónicas. Em Vernissage apresentam ao mundo quatro novas contratações (promissoras, dizemos nós), duas delas portuenses: Polido e No Future. Ambos foram educados pelo hip-hop.

João Polido Gomes, 20 anos, estudou bem as lições de Madlib, que o fez “ir à procura da origem dos sons”. Não admira, portanto, que a manipulação de samples seja o seu recreio preferido. Plethora, o novo disco produzido no dormitório da universidade onde fez Erasmus, em Tallinn (Estónia), é um exercício livre de recorte, recontextualização e reinterpretação de samples de variadas proveniências: cinema neo-realista italiano, anúncios anti-drogas, filmes pornográficos, música soul, música japonesa. São composições diluídas que fogem aos parâmetros da canção e que tanto se aproximam de uma electrónica distópica como de um R&B elanguescido e narcotizado.

Inspirações de múltiplas fontes são também a base de trabalho de No Future. Ivo Deodato (primo de Trikk), beatmaker imparável e cheio de alma, de apenas 19 anos, vai buscar poemas de Fernando Pessoa, excertos de obras de Brecht, os fumos ilícitos do gangsta rap, sintetizadores serpenteantes e a volúpia do R&B para fazer temas entre a introspecção e o desencanto político, entre sessões de roço e a folia desregrada. Esta última bem presente no novo EP, Excuse My French, um trabalho de corte e costura que reúne numa imensa pista de dança funk carioca, trap, hip-hop, eurodance, Britney Spears, Chico Buarque, Rihanna e French Montana.

Numa geografia totalmente oposta está Atillla, ou Miguel Béco de Almeida, que começou a meter o pé fora do black metal (mas sem nunca se separar dele) e a ouvir coisas mais próximas da electrónica “através daquela modita do witch house” (mas agora “até ouve Caribou”). Absorve as ambiências do black metal mais atmosférico de uns Burzum e de uns Wolves In The Throne Room, integrando-as em música electrónica nublosa sustentada por drones, sintetizadores cortantes e estilhaços de distorção e de sons que esvoaçam como fantasmas numa casa assombrada. Em Outubro fez a primeira parte de Tim Hecker, no Hard Club, o que não é nada mau para um rapaz de 22 anos que começou a dar concertos em 2014. Quanto a discos, tem quatro EP e está a preparar o seguinte, V, que contará com a voz de António Costa, vocalista e letrista dos Ermo.

Como fazer rissóis
Há também um sentido espectral na música de Tar Feather, projecto de Diogo Tudela, mas que se reflecte noutros contornos e noutras abordagens. Heavy Metals (2013), o primeiro álbum saído pela Easy Pieces, apresenta uma electrónica de auscultações arqueológicas, um alinhamento oblíquo de batidas ossificadas e gretadas, objectos não identificados, drones e sintetizadores lamacentos, com uma rítmica dançável entre o dubstep, o UK garage, o tecno e o house.

Há, nas suas produções, um retro-futurismo e uma dança de espectros que joga com a memorabilia da música de dança, como se atravessasse a sua história e carregasse os vestígios, cruzando-a com samples de Son House, Britney Spears, Beyoncé ou Lana Del Rey. Um exercício arquivista de resgate e de actualização que reenquadra no presente coisas que ficaram perdidas lá atrás – é a hauntology (conceito cunhado pelo filósofo Jacques Derrida) aplicada à música, como já o fizeram tantos outros, dos Broadcast a Kode 9 ou Burial.

“Uma maneira de fazer as coisas” e um som muito próprio que já vêm sendo burilados desde Cova, o anterior projecto de Tudela editado pela Terrain Ahead. Mas ele gosta de descomplicar: “Chego a casa à noite e em vez de fazer rissóis faço isto”, diz. O próximo disco de Tar Feather é “outro filho que [ele] não quis ter”. Chama-se Caruso (referência ao filme Fitzcarraldo, de Herzog), vai sair no próximo ano pela Easy Pieces, subsidiária da PAD, e será diferente: menos samples e vocais, mais sintetizadores e percussão, com arritmias e uma intensidade epidérmica tiradas do jungle, apoteoses e um certo misticismo new age à Popul Vuh.

Caruso será misturado por Jonathan Saldanha, figura central das movimentações da electrónica portuense (e não só). Faz parte de projectos como os HHY & The Macumbas e Mécanosphère; começou a organizar festas de jungle no Porto aos 15 anos, com Maze e Ex-Peão, dos Dealema; criou, com Filipe Silva, a SOOPA, colectivo que programou uma torrente de concertos entre 2002 e 2004; colaborou com luminárias como Damo Suzuki, Mike Watt, Steve Mackay ou Raz Mesinai (aka Badawi, parceiro regular), que convidou Jonathan a participar no disco Unit of Resistance, juntamente com Kode 9, DJ Spooky, DJ Rupture, entre outros.

O dub, as transposições bizarras de ritmos e timbres, a geologia do som e a capacidade de lhe incutir forças abstractas e alucinações cognitivas são terreno comum nos projectos de Jonathan Saldanha. Fujako, o mais recente, não é excepção. Com ele, Jonathan e Nyko Esterle propuseram-se a encontrar a música folclórica de Fujaco, uma pequena aldeia no interior de S. Pedro do Sul. Saíram-se com um hip-hop alienígena feito de beats lentos e desfasados e de electrónica telúrica e disforme repleta de ecos, baixos distorcidos e batidas de dubstep ocultista e áspero. Foram, depois, à procura de uma voz. Começaram com Sensational e estão agora com Black Saturn, um MC com um flow apocalíptico que vive num gueto afro-americano em Washington DC. O novo EP, EXOBELL, sai ainda este mês pela belga Ångström Records. Vê-los em Portugal parece tarefa difícil: “Só demos dois concertos aqui mas temos muitos convites lá de fora. Já abrimos para Death Grips e para Shabazz Palaces, por exemplo”, diz Jonathan.

“É o som do Porto, moço!”
Jonathan é também um dos ideólogos da Faca Monstro, colectivo nascido em 2008 que sem o Porto não podia ter sido inventado. Reúne uma série de beatmakers da cidade, profissionais e amadores, que mandam cá para fora mixtapes alucinadas de electrónica, hip-hop, grime e dubstep do esgoto, verdadeiros retratos etnográficos das ilhas, das tascas, das ruas escuras e das personagens que nelas habitam. O Porto no seu lado mais podre e rude, sem filtros gourmet. “É o som do Porto, moço!”: assim se apresenta no Facebook do colectivo a nova mixtape, que conta com preciosas contribuições de Ghuna X, Aceloria, Challenger, Spaced Out e DJ V/A, entre outros.

Pedro Augusto (ou seja, Ghuna X, outra figura essencial nesta história toda) tem sido a cara da Faca Monstro, apesar de preferir entregar o título a Fumo Denso, “um operário guna que quando os filhos se vão deitar fuma uns charros e faz uns beats”. “Ele é a verdadeira identidade da Faca Monstro”, defende.

Isto numa altura em que se prepara para fazer uma pausa na electrónica terrífica, hiperactiva e delirante de Ghuna X e lançar um disco sob um novo alter-ego, Live Low. “É sobre uma vida despojada, sem grandes alarmismos”, adianta Pedro Augusto, motivado pela tranquilidade ecologista do álbum Live Low To The Earth In The Iron Age, do músico e compositor Eyvind Kang. Não imaginamos este cenário depois de tanta música sobre gunas, bairros sociais e tuning. Mas ficaremos atentos aos próximos capítulos desta e de outras movimentações da electrónica a Norte, um constante labirinto de surpresas.

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