Sofia Dinger escreveu a Jean Renoir (e teve resposta)

Sofia Dinger pegou nas palavras escritas de Jean Renoir e montou uma peça que é, ao mesmo tempo, a construção do cineasta à sua semelhança. A Grande Ilusão, em estreia no festival Temps d’Images, funciona como uma manipulação mútua.

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Apesar de ter morrido em 1979, em Los Angeles, há alguns meses que o cineasta francês Jean Renoir se corresponde com a actriz portuguesa Sofia Dinger. Sem que o saiba, naturalmente. E sem que Sofia necessite de internamento psiquiátrico compulsivo. Mas após um longo período em que se rodeou de leituras constantes de textos de Renoir, e após uma primeira montagem do espectáculo A Grande Ilusão que seria abortada pouco antes da estreia, foi nesta relação epistolar que a actriz descobriu a chave para não ficar emparedada dentro da sua própria criação. Se na primeira versão, prevista para estrear em Março, Sofia Dinger tomava o palco apenas com palavras alheias, tentando encontrar um nexo num labirinto de ideias e narrativas que habitavam um lugar poético de tensão dramática, agora não quis ser apenas uma presença diante de Renoir. Quis deixar as cortesias de lado, assumir um diálogo e criar uma figura de palco em que não sabemos exactamente onde começa Jean e onde termina Sofia.

"Comecei num exercício de correspondência imaginária com o Renoir”, explica a actriz, “em que lhe ia falando e escrevendo as minhas questões, mais ou menos ficcionadas, misturando com o texto dele, que irrompia pelo meu discurso dentro. Achei que era isso que mais me interessava: a mistura do que humildemente tenho para dizer com estas pontes que crio com quem acho que ele era, com o que pensava, com o que me iria responder”. Ao não se limitar a ser um veículo para as palavras de Renoir, e fundindo-se no seu discurso, Sofia Dinger abandonou a postura cerimoniosa e sujou as mãos, sujou o corpo, colocando-se por inteiro dentro do texto, manuseando-o com mais liberdade e autoridade, alterando a estrutura sem estar constrangida pelo pudor ou pela culpa. “Sinto que agora consigo estar com mais propriedade, algo que é fundamental para esta proposta tão despida”, reflecte. No “palco” do Espaço Alkantara, dos próximos dias 27 a 30, integrando a programação do festival Temps d’Images, haverá apenas uma mesa, uma cadeira, luzes e Sofia Dinger, num exercício de convocação do espírito de Jean Renoir. Mais despido era difícil.

Vamos ouvi-la, precisamente, repetir-se a si mesma indicações como “seca”, “sem lamentos” ou “sem sentimentalismos”, dirigindo-se e corrigindo a sua atitude em palco, como se fosse o Renoir da curta-metragem La Direction d’Acteur par Jean Renoir (1968) a moldá-la como fazia com a actriz Gisèle Braunberger. Na primeira versão de A Grande Ilusão, o vídeo era projectado no final, como que espelhando a manipulação de que ela fora igualmente alvo; agora, desaparece, mas são esses ecos que ficam no ar, e que a actriz recolhe sempre que imagina que o seu tom está a resvalar para um lugar que o cineasta vetaria. “Uso indicações que me lembro de ele dar à actriz nesse vídeo, até porque uma das minhas camadas de trabalho é estar sempre nessa função de direcção em tempo real. E, assim, é também uma forma de ele estar comigo e de manter o meu trabalho o mais vivo possível. Não há nada no meu trajecto que traga uma ideia de fixação ou rigidez. Estou sempre a encontrar estratégias que tentem quebrar com essa possibilidade a cada esquina.”

A eliminação do vídeo permite ainda que seja sempre Sofia Dinger a mediar a relação do público com Renoir. Para se chegar ao cineasta tem de se encontrar um atalho através da actriz. E, por isso, o facto de ser sonegado um rosto ao fantasma de Dinger lembra-nos que é, de facto, a relação entre os dois que está, antes de mais, em cena. “Uma das coisas mais incríveis da ideia dos fantasmas é que só cada um de nós os vê”, argumenta. “Dar-lhes uma cara parece-me que é roubar aos outros [ao público, no caso] um espaço qualquer que lhes é privado.”

A reconciliação

Após cancelar a primeira versão de A Grande Ilusão dias antes da estreia, Sofia Dinger precisou de se afastar um par de meses do trabalho que tinha desenvolvido até então (Rui Catalão, a quem recorreu para apoio dramatúrgico, apresenta igualmente no Temps d’Images uma conferência-performance em que aborda a situação). “Trato os trabalhos como quem trata de feridas”, confessa a actriz. “Tento entender onde dói e é lá que mexo. É para lá que olho, é aí que me concentro. Acredito que assim as coisas se revelam. As feridas não deixarão de doer, mas transformar-se-ão numa outra espécie de coisa, numa cicatriz bonita e selvagem, ou até numa experiência digna de ironia. A minha forma de resolver esta montanha-russa e não ser engolida por ela foi usá-la a meu favor.” De facto, na peça que agora Sofia Dinger estreará, a própria experiência falhada anterior alimenta a obra, salpica subtilmente o texto, quer na ideia de reconciliação e de luto do falhanço, quer na confissão de que será mentira que as opiniões de terceiros para ela pouco signifiquem. Mesmo que a intervenção da actriz no texto seja sobretudo a de garantir costuras que ligam os vários excertos que foi debicando e escolhendo para a sua construção de Renoir. A Grande Ilusão de Sofia Dinger é, num certo sentido, como um kit oferecido a uma criança para que construa o seu próprio Jean Renoir. Ela escolhe as peças que mais lhe convêm e lhe permitem um discurso sobre si mesma. E fabrica, assim, um cineasta que existe apenas na sua cabeça.

Nem tudo da primeira versão, no entanto, foi varrido para debaixo do tapete. Muito, aliás, volta à boca da actriz, mas depois de devidamente ruminado. Um dos lugares a que quis regressar é aquilo a que Sofia chama “a confirmação de um corpo em estado de desejo”. “As volúpias do Renoir não serão exactamente como as minhas”, explica, “mas a carne, o corpo, a pele, a alegria de viver…” Disso foi também à procura, mantendo presente que um criador é sempre produto das suas circunstâncias. Renoir, diz ela, agradecia à bala que o tinha tornado coxo. Sofia, achamos nós, estará provavelmente a agradecer a este Renoir que a tornou insegura. Talvez para que em A Grande Ilusão os dois protagonistas entrem em palco numa dança manca, sem esconder as suas debilidades.