Das raves à noite da Ribeira, antes do boom da Baixa

Porto Electrónica 1985-2005 é um documentário sobre as subculturas da música electrónica que se moviam na noite do Porto, sobre os DJ e os clubes que nelas participavam. Estreia-se esta sexta-feira no Passos Manuel, seguido de um concerto especial.

Foto
O documentário de Francisco Abrunhosa e Daniel Reifferscheid estreia-se esta sexta-feira no Passos Manuel

Aniki Bóbó, Ribeira, anos 90. A meio do set, Pedro Tenreiro passa o disco Jazz Note/ Burning, de DJ Krust, figura-chave do então borbulhante drum&bass de Bristol. As reacções na pista de dança são confusas. “O que é isto? Como se dança? Está com a rotação errada?”. O admirável mundo novo das batidas aceleradas, multi-dimensionais e sincopadas do drum&bass descoberto ali, no meio de pessoas, num bar, sem telefones espertos e aplicações ainda mais espertas que identificam músicas e autores.

Um tempo pré-Internet (e isso na música já parece passado arqueológico) em que eram os DJ a trazer as boas-novas lá de fora. É esse tempo, e o início do fim dele, que é recordado no documentário Porto Electrónica 1985-2005, em estreia esta sexta-feira às 23h no Passos Manuel, no Porto.

Neste filme realizado em parceria com a TVU, Francisco Abrunhosa e Daniel Reifferscheid recuperam várias etapas (e histórias) da noite e das subculturas da música electrónica do Porto antes do boom da Baixa. Através de uma série de entrevistas a DJ veteranos (entre eles Pedro Tenreiro, Rui Trintaeum e Frank Maurel), mostram como o pós-punk, o acid house, o drum&bass, o tecno, a electrónica experimental, o deep house e o electro foram chegando à cidade, introduzidos em clubes como o Amnésia, o Rock’s, o Meia Cave, o Trintaeum e o Indústria, entre outros.

O nascimento e a morte do Aniki Bóbó, que com o Meia Cave formava a dupla forte da mítica noite da Ribeira, é o fio condutor do documentário, estabelecendo o seu intervalo temporal. “Faz sentido porque o Aniki viveu quase todos os géneros musicais de que falámos”, esclarece Francisco Abrunhosa.

Um dos momentos mais curiosos de Porto Electrónica é sobre a cena rave dos inícios dos 90s, representada sobretudo pelo Amnésia, extinta discoteca na Praia de Francelos onde o entusiasmo e as drogas rolavam livremente, o que chamava muitos DJ e clubbers britânicos à cidade. Pegando em palavras do crítico musical Simon Reynolds e aplicando-as ao Porto, “com o acid house e o rave criou-se toda uma nova arquitectura subcultural”. “O que mais se destacava era o facto de um pequeno grupo de pessoas fazer as coisas acontecerem e criar uma subcultura que estava a par do que acontecia lá fora”, diz Daniel Reifferscheid.

A noite de estreia do documentário conta ainda com o primeiro concerto em 22 anos dos Mute Life dept. (Pedro Tudela, Pedro Almeida e Alex Fernandes), pioneiros da música electrónica experimental no Porto.

Sugerir correcção