Entrevista

A voz camaleónica de Zebra Katz

Entre a performance, a dança e o rap, eis Zebra Katz, trazendo até Lisboa – quarta-feira, no MusicBox – alguma da cultura mais alternativa de Nova Iorque.

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Demos por ele em 2012. Aliás, a existir um videoclip e uma canção representativos desse ano, provavelmente a escolha recairia sobre Ima red, de um tal de Zebra Katz.

No vídeo, raparigas envergavam máscaras e uniformes escolares, enquanto Zebra Katz cantava numa biblioteca obscura, sobre uma base sonora electrónica minimalista e sombria, algures entre o dubstep e o hip-hop, enunciando coisas como “like a slaghterhouse/ I'm gonna bleed that bitch”.

Originalmente gravado há quatro anos com a participação da cantora Njena Redd Foxx, foi quando o DJ e produtor Diplo relançou o tema, através da sua editora Jeffree, uma subsidiária da Mad Decent, que viria a causar impacto.

O designer de moda Rick Owens gostou do que ouviu, acabando por utilizá-lo no desfile da semana de moda de Paris. E desde então Ojay Morgan, verdadeiro nome de Zebra Katz, transformou-se numa das grandes sensações dos mais recentes sons urbanos de Nova Iorque.

“Esse tema abriu-me todas as portas”, diz-nos ele ao telefone, dias antes de se estrear em palcos portugueses – estará na próxima quarta-feira no MusicBox em Lisboa. “Antes do impacto de Ima red nunca tinha pensado propriamente no universo da música como uma ocupação a tempo inteiro, mas é isso que agora está a acontecer.”

Antes desse tema, Ojay Morgan era um estudante aplicado e director de uma empresa de catering. A personagem Zebra Katz, um rapper ensombrado com ligações ao mundo da moda, foi criada por ele quando estava a estudar no centro de artes Eugene Lang, em Nova Iorque, no contexto da criação de uma performance. E o nome Zebra? “Queria um nome animalesco”, ri-se ele, “e as zebras agradam-me porque têm qualquer coisa de camaleónico. Parecem todas iguais, mas na verdade são todas diferentes, o que deve ser um pouco desorientador para os predadores. Por outro lado, gosto de criar personagens, são formas de sair de mim próprio e de, ao mesmo tempo, explorar zonas de mim que estão mais ocultas. Zebra Katz é como se personificasse o meu lado mais negro”.

Depois desse tema, o americano criou duas mixtapes (Champagne, de 2012, e DRKLNG, de 2013) e revelou mais uma série de temas, para além de inúmeras colaborações, uma delas com João Barbosa (Branko) dos Buraka Som Sistema, no tema Rolling, incluído na mixtape do português, Drums, Slums & Hums, de 2013. Em todas essas produções, a sua voz felina surge envolvida por sonoridades urbanas, quase sempre com um sombreado minimalista escuro, onde predomina a potência das linhas de baixo. Gay assumido, é muitas vezes associado à cena “queer hip-hop” de Brooklyn, na esteira de Mykky Blanco ou Le1f, mas ele prefere libertar-se de espartilhos: “Sou muitas outras coisas, não me defino apenas por ser gay, por isso não faço muita questão de empunhar essa bandeira naquilo que faço, pelo menos de forma ostensiva. Não tenho qualquer problema com o assunto, como é evidente, mas às vezes esses rótulos acabam por ser redutores.”

O mistério do palco

Na última década, o hip-hop libertou-se do estigma de universo machista, diversificando-se e complexificando-se, graças ao sucesso de nomes como André 3000 (OutKast), Kanye West, Pharrel Williams ou Frank Ocean, todos eles situando-se longe de qualquer imaginário mais redutor. Não por acaso, nomes como André 3000 ou Frank Ocean estão entre as suas principais referências. “Cresci a ouvir a mais diferente música. Hip-hop, soul, jazz, Nina Simone, Lauryn Hill, esse tipo de coisas, mas também música de dança dos anos 1990 ou Björk, que tem uma voz incrível e não receia experimentar quando se trata de criar música.”

Tudo isso acaba por estar presente no que faz, embora a sua música esteja mais próxima, por exemplo, de Angel Haze ou Azealia Banks, com quem já andou em digressão. Mas onde Azealia saltita de forma instigadora, ele é grave e austero, embora ambos provoquem o mesmo tipo de embate entre a cultura hip-hop mais alternativa e uma electrónica de dança felina e esquálida.

Ao vivo diz que tenta criar “uma atmosfera tão mental quanto terrífica e celebrativa”, num misto de performance, dança e rap futurista. “O palco continua a ser um mistério para mim; todas as noites são diferentes, o que é óptimo porque vou sempre descobrindo coisas novas à minha volta”, reflecte. 

Na sua música, tempo e espaço são esculpidos com rigor. Existe alguma claustrofobia, mas também lugar para movimentos amplos e pulsantes, numa sonoridade lancinante, com a voz de Zebra, profunda, declamada, profeta para dias muito enevoados.

Distinguimos traços rítmicos de dubstep, dancehall, hip-hop ou house, mas amalgamados por um tipo de produção electrónica que acaba por levar ao seu não-reconhecimento. No fim dos temas permanecem o rumor de graves vigorosos, alguma tensão, a imersão num ambiente agitado e aquela voz, sempre inquietante.