Crítica

Liberdade e raiva

Alexandra Lucas Coelho criou uma personagem singularíssima. Há muitos anos que não aparecia na literatura portuguesa um livro assim

Alexandra Lucas Coelho inscreve-se na tradição de plasticidade da literatura portuguesa da segunda metade do século XX
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Alexandra Lucas Coelho inscreve-se na tradição de plasticidade da literatura portuguesa da segunda metade do século XX Miguel Manso

É uma personagem singularíssima na recente literatura portuguesa: mulher de 50 anos, loura, revisora de profissão, recém-chegada ao Alentejo, que conduz um jipe Lada Niva de 1994 nas suas viagens dominicais a Lisboa para tratar da gata de uma amiga (ausente no Rio de Janeiro), para nadar, e para ter encontros amorosos com um mecânico, o seu amante de domingo. Planeia a morte (“Roda? Garrote? Esmagamento por pata de elefante?”) de um homem 16 anos mais novo (o “caubói”) com quem se envolveu durante um mês, e quer escrever a história dessa vingança que vai desenhando aos poucos. “Não importa quem é o gajo, nem o que fez, mas o buraco que abriu. (…) O buraco fecha com tudo lá dentro, e os pormenores do que aconteceu vão desbotando como pele queimada, porque a pele nova tem uma memória nebulosa da anterior, como nas guerras o neto tem do avô. O que resiste com nitidez é a vingança, vingança de ter sido abusado, vingança da honra.” Se alguma comparação se quiser fazer com outra personagem, algo forçada, é certo, será com Maria dos Canos Serrados, do romance homónimo de Ricardo Adolfo; mas as semelhanças ficam-se apenas pelo tipo de linguagem e por uma vontade desesperada de liberdade.

Esta mulher, nascida no Canidelo (Gaia), enche com muita fúria, raiva e linguagem desbragada (segundo ela típica do Norte, pois os lisboetas têm “uma gravata na língua”) as páginas do mais recente romance de Alexandra Lucas Coelho (n. 1967). O Meu Amante de Domingo é também o título do livro que a narradora começa a escrever mais ou menos a meio deste romance e do qual nos são dadas a ler pouco mais de uma dúzia de páginas. Não se trata aqui de metaficção, pois o livro de que a personagem inicia a redacção (criando para isso uma outra narradora, em tudo semelhante à primeira) não é o mesmo que o leitor tem nas mãos, é antes um interessante jogo que promete mostrar mais do que aquilo que de facto acaba por transparecer. “Podia chamar-lhe O Meu Amante de Domingo, em homenagem ao mecânico. O mecânico seria a punção que fura o abcesso. E aí o cabrão do caubói começaria a morrer.”

O jogo literário é aliás uma das grandes virtudes desta divertida história de Alexandra Lucas Coelho. Quase todo o romance, escrito em capítulos muito curtos, à maneira de folhetim, parece ser um diálogo constante, de uma maneira ou de outra, com as crónicas do brasileiro Nelson Rodrigues (a narradora está a rever uma sua biografia), mas não só: pelo meio surgem também bastantes referências a Machado de Assis e a Euclides da Cunha, e ainda umas quantas, muito veladas, ao Ulisses, de James Joyce, entre outras, algumas mais clássicas, como a Bernardim Ribeiro: “Assim menina e moça me levei de casa dos meus pais até às cavalariças da Universidade Nova de Lisboa.”

A vingança e a raiva são o coração desta personagem que, faça o que fizer, mesmo estando com outros homens — o mecânico, o amigo poeta de Nafarros (que acha que vai ganhar o Nobel), ou o Apolo da piscina — não consegue tirar da cabeça a vontade de matar o “cabrão do filho da puta do caubói”. “Alguém com uma vingança nunca está sozinho. Uma espécie de negativo da paixão, destruída a fotografia. O que foi luz é escuridão, o que foi escuridão é luz. É dessa energia reversa, adversa, que brota a pulsão de um amante: o pau como manguito à morte.” Mas essa raiva (que se manifesta por uma fúria sempre à beira de se descontrolar) só aparentemente é causada na totalidade pelo que aconteceu entre ela e o “caubói”. Há uma raiva e uma fúria, nascidas no Verão de 2014, que têm Portugal como causa. Há uma vontade de lutar contra a resignação, contra a tradicional aceitação do trágico que desde há muito tomou conta do país. “A fúria é uma estranha forma de vida, mas não mais estranha do que o fado, talvez um fado virado do avesso.” Ou ainda, quando a personagem pensa no livro que vai escrever: “Importante era a fúria, a luta armada, a pulsão de vida contra os filhos da puta. O livro seria uma espécie de antropofagia, ela comendo o inimigo para ficar mais forte, como uma tupi portuguesa no Verão de 2014.”

Há muitos anos que não aparecia na literatura portuguesa um livro assim. Não quero com isto afirmar que seja um livro de ruptura com o que vem de trás, como o foram, por exemplo, Rumor Branco e A Paixão, ambos de Almeida Faria, O Que Diz Molero, de Dinis Machado, Missa in Albis, de Maria Velho da Costa, ou ainda O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge. Antes pelo contrário, é um livro que se inscreve de maneira perfeita numa certa tradição de plasticidade da linguagem narrativa da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, e em que encontramos os nomes de Carlos de Oliveira, Nuno Bragança, José Cardoso Pires, alguma coisa de Augusto Abelaira, e a voz tão singular de Maria Velho da Costa.