Steve McQueen volta ao activismo negro no seu próximo filme

Depois do Óscar de 12 Anos Escravo, o realizador continuará a filmar a história racial dos EUA com projecto sobre o actor e cantor Paul Robeson.

Steve McQueen em Veneza em 2011
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Steve McQueen em Veneza em 2011 Alessandro Bianchi/REUTERS

O quarto filme de Steve McQueen vai levar novamente o realizador aos Estados Unidos. Depois do Óscar de 12 Anos Escravo, o artista plástico e cineasta britânico vai filmar a história do norte-americano Paul Robeson — actor, cantor, jogador de futebol americano e activista do movimento dos direitos civis que acabou na lista negra do senador McCarthy. Este, aliás, deveria ter sido o sucessor da sua longa-metragem de esteia, Fome, revelou.

Numa cerimónia de prémios em Nova Iorque, o realizador explicou que depois do seu projecto protagonizado por Michael Fassbender sobre Bobby Sands, o membro do IRA que morreu na sequência de uma greve de fome enquanto detido, queria ter-se dedicado à “vida e legado” de Robeson. “Mas não tinha o poder, não tinha a energia.” Agora vai filmar essa história, mas não se conhecem mais pormenores como o título, prazos ou actores envolvidos.

Na terça-feira, McQueen explicou como se cruzou com a história do afro-americano Paul Robeson (1898-1976) e como ela o influenciou. Robeson formou-se em Direito depois de ter frequentado a Universidade de Rutgers como bolseiro pelo seu desempenho como jogador de futebol americano. Contudo, a advocacia ser-lhe-ia barrada por discriminação racial e o seu caminho levou-o aos palcos e ao cinema, sendo também um cantor respeitado. Foi Otelo na Broadway e actuou no Palácio de Buckingham, tendo ficado amigo do conhecido cantor e actor (e amigo de Martin Luther King Jr.) Harry Belafonte. Recusava desempenhar papéis em salas com públicos segregados e denunciava à Casa Branca, como lembra o Washington Post, os linchamentos de negros nos estados do sul dos EUA.

De facto, a sua projecção americana e internacional deveu-se sobretudo à sua carreira como activista, ao seu trabalho junto dos sindicatos e à propalação da ideologia anti-imperialista, bem como ao apoio às forças republicanas na Guerra Civil espanhola. A proximidade com o comunismo e o trabalho de luta pelos direitos civis levou-o à infame lista negra do McCarthyismo, impedindo-o, por exemplo, de ter passaporte americano e barrando-lhe acesso a papéis no studio system.

Um recorte de jornal colocado por um vizinho na caixa de correio da família McQueen concretizou, aos 14 anos, o primeiro encontro do futuro artista e cineasta com a história do ícone americano. “Era sobre um tipo negro que estava no País de Gales e que cantava com os mineiros. Tinha cerca de 14 anos e, não sabendo quem era Paul Robeson, parecia-me estranho aquele americano negro no País de Gales. E depois descobri que aquele homem era um ser humano incrível”, contou à audiência dos prémios Hidden Heroes, criados em homenagem aos activistas mortos pelo Ku Klux Klan no Mississípi em 1964. Robeson estava em Gales a fazer campanha pelos mineiros que lutavam por melhores condições laborais e por melhores salários na sequência de uma presença em Londres para participar na peça Show Boat.

Steve McQueen filmou Fome (2008), Vergonha (2011) e 12 Anos Escravo (2013), tendo recebido em Março o Óscar de Melhor Filme pela sua visão da luta de um negro capturado para ser escravo nos EUA. Antes e entre as suas longas-metragens, o realizador continuou sempre a trabalhar em várias curtas — e numa delas abordou já a figura de Paul Robeson. Em End Credits, recorda o Guardian, conhece-se o processo do FBI contra o actor e cantor. Harry Belafonte está envolvido no projecto do próximo filme de McQueen, a quem entregou o prémio de Herói dos Média na cerimónia de segunda-feira à noite. 

Steve McQueen foi o primeiro realizador negro a receber o Óscar de Melhor Filme e em 1999 recebeu o Prémio Turner, o mais importante galardão britânico dedicado às artes visuais.