A sonda File detectou moléculas orgânicas no cometa

Depois de uma camada inicial de poeiras, o solo do cometa tem gelo duro, o que surpreendeu os cientistas.

A silhueta da sonda <i>File</i> na descida até ao cometa, registada pela sonda <i>Roseta</i>; e o primeiro local de aterragem da <i>File</i> captado antes e depois da aterragem, já com as marcas deixadas pela sonda
A silhueta da sonda File na descida até ao cometa, registada pela sonda Roseta; e o primeiro local de aterragem da File captado antes e depois da aterragem, já com as marcas deixadas pela sonda ESA
O cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko
O cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko ESA
Núcleo do cometa registado a 26 de Outubro pela <i>Roseta</i>, que se mantém em órbita do cometa
Núcleo do cometa registado a 26 de Outubro pela Roseta, que se mantém em órbita do cometa ESA
Outro pormenor da superfície do cometa, captado a 23 de Outubro pela <i>Roseta</i>, a apenas 7,8 quilómetros de distância
Outro pormenor da superfície do cometa, captado a 23 de Outubro pela Roseta, a apenas 7,8 quilómetros de distância ESA
Os instrumentos científicos da <i>File</i>
Os instrumentos científicos da File ESA
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Eis alguns dos primeiros resultados científicos da actividade da sonda File na superfície de um cometa, durante 57 horas, antes de a sua bateria se gastar na noite de sexta-feira para sábado e o contacto se perder: um dos seus instrumentos detectou moléculas orgânicas no cometa.

Logo a seguir à aterragem da File, a 12 de Novembro, uma proeza espacial inédita que despertou atenções em todo o mundo, o cromatógrafo Cosac, um analisador de compostos químicos, conseguiu detectar as primeiras moléculas orgânicas na atmosfera finíssima do cometa.

A sonda também conseguiu perfurar a superfície do cometa, através de um instrumento designado por SD2, para obter aí amostras de moléculas orgânicas. Mas, segundo a agência noticiosa Reuters e a BBC online, os dados recebidos na Terra parecem indicar que a File não conseguiu entregar as amostras de solo no forno do Cosac, onde seriam analisadas para detecção de moléculas orgânicas. Essas amostras também deveriam ter sido entregues para análise noutro detector de gases a bordo da pequena sonda, o Ptolemy.

A File teve uma aterragem um tanto atribulada, o que obrigou os cientistas e engenheiros da Agência Espacial Europeia (ESA), que lançaram esta missão ao cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko, a lidar com uma série de imprevistos, para que a sonda conseguisse cumprir a missão. Os arpões que a iriam prender ao solo não funcionaram e ela acabou por dar dois saltos — lentos, uma vez que a gravidade do cometa é muito fraca —, indo parar a um local com pouca luz. Pode dizer-se que aterrou três vezes no cometa e o sistema de imagens da sonda não só “fotografou” o primeiro local de aterragem, às 15h34 TMG (a mesma hora em Lisboa), como o sítio onde depois se imobilizou.

Mas a File só pôde contar com sua bateria principal, com energia para cerca de 60 horas, para cumprir a primeira sequência de trabalhos científicos na superfície do cometa. Depois disso, a energia seria fornecida por baterias recarregáveis através de pequenos painéis solares, mas essa parte ficou comprometida quando a File acabou num sítio pouco iluminado. Os cientistas temiam que não tivesse energia suficiente até concluir as tarefas científicas e enviar posteriormente esses dados até à sonda Roseta, que se encontra em órbita do cometa e que transportou a File às costas durante dez anos de viagem pelo espaço, até ao encontro do seu objecto de estudo, a 510 milhões de quilómetros da Terra, entre Marte e Júpiter.

Mas não: a File conseguiu fazer quase tudo o que lhe foi pedido e ainda enviar todos os dados que recolheu. E até, seguindo instruções enviadas de Terra, deu um pequeno pulo e rodou um pouco, na tentativa de ficar num sítio um tanto mais iluminado. Essa manobra já não chegou a tempo e a File, depois de esgotar a energia da bateria, adormeceu.

Diz-se que adormeceu, e não que foi dada como morta, porque se acredita que as baterias ainda possam ficar carregadas quando o cometa se aproximar mais do Sol. Nesse caso, talvez desperte do seu sono e faça mais de ciência. “Estou muito confiante de que a File vai retomar o contacto connosco e ser capaz de pôr os seus instrumentos a funcionar de novo”, disse, citado pela agência noticiosa AFP, Stephan Ulamec, responsável pela sonda na agência espacial alemã (DLR), activamente envolvida na missão. Na próxima Primavera, referiu Stephan Ulamec, é provável que se consiga comunicar de novo com a File.

Uma surpresa

Voltando às moléculas orgânicas: a sua detecção era um dos principais objectivos da missão. Os cometas são ainda restos dos tempos iniciais do nosso sistema solar, que se mantiveram preservados como se estivessem numa cápsula do tempo. Têm moléculas orgânicas antigas e água congelada, além de poeiras. Ora, os cometas bombardearam a Terra no início da sua formação, por isso o seu estudo é importante para saber se trouxeram a água e as moléculas orgânicas para o nosso planeta. E, em última análise, como surgiu a vida e nós próprios.

Por agora, os cientistas da File ainda não revelaram que moléculas orgânicas foram detectadas ou quão complexas são. Se, por exemplo, contêm carbono, um elemento que é a base da vida como a conhecemos na Terra.

“Recolhemos muitos dados preciosos, que não podiam ser colectados senão em contacto directo com o cometa”, sublinhou, citado pela AFP, Ekkehard Kührt, director científico da File na DLR. As propriedades da superfície dos cometas, acrescentou este investigador, “parecem ser de facto muito diferentes do que pensávamos”.

Essas diferenças foram detectadas, por exemplo, por outra instrumentação da sonda — pelos sensores MUPUS, que incluem um martelo e que mediram a densidade e as propriedades térmicas e mecânicas da superfície do cometa. Afinal, o solo não é tão mole como se pensava.

O MUPUS devia ter furado cerca de 40 centímetros de solo, mas, apesar de o martelo estar programado para martelar ao máximo, não chegou a atingir essa profundidade. Depois de ter atravessado uma camada espessa de poeiras com dez a 20 centímetros, o MUPUS deparou-se com uma camada dura de gelo. “É uma surpresa”, contou, segundo a Reuters, Tilman Spohn, que chefia a equipa do MUPUS na DLR. “Não estávamos à espera de gelo tão duro no chão.”