Cartas mostram que Caravaggio morreu mesmo em Porto Ercole

A acreditar nos documentos agora divulgados, o célebre e tumultuoso pintor italiano terá mesmo morrido nesta cidade costeira.

 Caravaggio num retrato de Ottavio Leoni, c. 1621
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Caravaggio num retrato de Ottavio Leoni, c. 1621 Cortesia: Biblioteca Marucelliana, Florença

O local da morte de Michelangelo Merisi da Caravaggio, que a História de Arte imortalizaria simplesmente como Caravaggio, tem sido tema de debate entre os especialistas nas últimas décadas.

Para uns morreu em Nápoles, para outros em Civitavecchia, e há ainda quem defenda que o artista, conhecido por escolher entre os mais marginalizados – prostitutas, mendigos e meninos de rua – os modelos para as suas pinturas de temas bíblicos, morreu em Palo. Mas, segundo o jornal espanhol <i>ABC</i>, documentos do Arquivo de Estado de Urbino, recentemente divulgados, vêm agora mostrar que o autor de <i>Rapaz com Cesto de Fruta</i> ou de <i>Salomé com a Cabeça de São João Baptista</i>, obra que agora se pode ver na exposição dos tesouros da casa real espanhola na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, morreu em Porto Ercole, na Toscana, em 1610.

A informação faz parte de um lote de cartas enviadas por Deodato Gentile e pelo vice-rei de Nápoles ao duque de Urbino entre 28 e 31 de Julho de 1610 (Caravaggio terá morrido a 18 de Julho). Gentile era núncio apostólico, representante da Santa Sé, do reino de Nápoles, precisa o diário espanhol.

Nas cartas comunica-se a morte de Caravaggio (1571-1619), quando o artista estava já de regresso a Roma, depois de ter obtido o perdão papal. O mestre do barroco fugira da cidade quatro anos antes ao ser acusado de homicídio e condenado à morte.

“Teve-se conhecimento da morte de Michelangelo Caravaggio, pintor famoso e excelente nos retratos de naturezas-mortas, depois de adoecer em Porto Ercole”, escreveu-se a 28 de Julho. Três dias depois, outra carta dizia: “Michelangelo de Caravaggio, pintor, morreu em Porto Ercole, quando viajava de Nápoles a Roma pela graça de Sua Santidade [que levantou] a condenação à morte que pesava sobre ele.”

Os documentos foram tornados públicos por Silvano Vinceti, um dos que há anos procuram a sepultura do artista. “Tinha de se pôr um fim às muitas hipóteses que apoiam a ideia de que Caravaggio morreu noutras localidades”, disse ao ABC.

Vinceti, um apaixonado por figuras históricas das artes e das letras italianas como Leonardo da Vinci ou Dante Alighieri, tem provocado algum debate desde que, em 2010, afirmou ter encontrado os restos mortais de Caravaggio no pequeno cemitério de São Sebastião, precisamente em Porto Ercole. Isto porque, ao contrário de muitos outros que procuram ainda esclarecer as circunstâncias em que morreu este mestre do barroco, Vinceti não é nem historiador, nem cientista.

Lembra ainda o ABC que estes restos mortais, depois de devidamente estudados por uma equipa forense, revelaram dados que coincidem com o que se conhece do artista: a datação por carbono 14, salvaguardadas as devidas margens de erro, mostra que pertenceram a um indivíduo que terá vivido entre 1522 e 1647, que mediria entre 1,73 e 1,76 metros de altura, e que terá morrido entre os 37 e os 43 anos (Caravaggio viveu até aos 38).

No entanto, muitos são os que argumentam que os dados forenses nada são sem a devida contextualização histórico-documental, a mesma que, diz Vinceti, é agora assegurada pelas cartas identificadas no arquivo de Urbino.

Silvano Vinceti defende ainda que, quando morreu, Caravaggio tinha sífilis e que a doença começava já a afectar-lhe gravemente o sistema nervoso central, provocando-lhe delírios.

Um dos que contestam esta teoria da morte do artista em Porto Ercole é um dos maiores especialistas na sua obra, Vincenzo Pacelli. Para este historiador e professor universitário, Caravaggio terá sido assassinado em Palo, no centro de Itália, pelos cavaleiros da Ordem de Malta, para quem, aliás, trabalhou.