Sonda File conseguiu enviar todos os dados e depois entrou num longo sono

Principal missão científica foi concluída, ao fim de quase 57 horas de a sonda ter aterrado no núcleo de um cometa.

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A pequena sonda File na viagem de descida até ao cometa ESA

A sonda File conseguiu enviar ao final da noite de sexta-feira todos os dados científicos que recolheu no núcleo de um cometa, seguindo as instruções dos cientistas. O grande receio era de que não tivesse energia suficiente para fazer o trabalho científico solicitado e, depois, para enviar os dados recolhidos para a sonda Roseta, em órbita do cometa. Mas, após vários percalços e falhas, as coisas acabaram por correr bem na primeira aterragem alguma vez realizada num cometa.

Uma das coisas que a File conseguiu fazer foi perfurar o solo do cometa e analisar essas amostras. Ao fim de quase 57 horas sentada no núcleo de um cometa, onde chegou a 12 de Novembro, a File conseguiu concluir grande parte da sua principal missão científica. “Foi um enorme sucesso, toda a equipa está maravilhada”, declarou Stephan Ulamec, o responsável pela equipa da File, citado num comunicado da Agência Espacial Europeia (ESA).

A partir de agora, a sonda entrou num longo e profundo sono, depois de ter gasto toda a energia que tinha nas tarefas científicas e enviado essa preciosa informação. A aterragem teve uma sucessão de factos imprevisíveis: os arpões que deveriam prender a sonda ao chão não funcionaram, tal como o sistema de propulsão que auxiliaria nessa complexa operação, por isso ela saltitou duas vezes e acabou dentro de um buraco onde chegava pouca luz solar. Os cientistas e engenheiros da ESA tiveram de lidar com essa situação e tentar cumprir a missão na superfície do cometa.

Mas nem sempre podiam comunicar com a File através da Roseta (que continua em órbita do cometa), porque a rotação dele, como era esperado, a deixava fora de alcance. Enviadas as derradeiras instruções, a partir das 9h58 de sexta-feira (hora de Lisboa) os cientistas ficaram sem contacto com a File. Iria conseguir furar o chão do cometa? Conseguiria analisar essas amostras? E detectar moléculas orgânicas complexas? E ainda seria capaz de enviar esses dados para a Roseta, de onde seguiriam para a Terra?

É fácil imaginar a ansiedade dos cientistas – que só começou a acalmar ao fim de mais de 12 horas de espera, quando a Roseta, às 22h19 de sexta-feira, pôde retomar o contacto com a File, de início intermitente e depois estável. Era já sábado (às 00h36) quando a File, depois de ter enviado tudo, incluindo as análises ao solo que conseguiu perfurar, e ter gasto a energia das baterias, adormeceu.

“Apesar das três aterragens não planeadas, todos os instrumentos funcionaram e agora é altura de vermos o que temos”, disse ainda Stephan Ulamec. “Os resultados da File são extraordinários. Oitenta por cento do trabalho foi feito”, acrescentou, citado pela agência AFP, Marc Pircher, director do Centro Nacional de Estudos Espaciais francês, envolvido na missão.

Como os painéis da File recebem agora muito pouca energia solar, os cientistas da ESA consideram muito pouco provável que se consiga estabelecer algum contacto com ela nos próximos tempos. No entanto, também conseguiram enviar instruções para que a sonda se levantasse um pouco do solo (cerca de quatro centímetros) e rodasse cerca de 35º, numa tentativa de a pôr a receber mais luz solar.

Essa operação já não teve efeitos para agora, por isso a File é neste momento uma bela adormecida a descansar no colo de um cometa, a 510 milhões de quilómetros da Terra, entre Júpiter e Marte, e que se está a aproximar do Sol e de nós. Mas à medida que o cometa se aproxima do Sol, atingindo a distância mínima a 13 de Agosto de 2015, talvez a manobra de rotação da sonda dê frutos e os seus painéis solares consigam então receber um pouco mais de luz. E ela volte a acordar.