Desprogramar para libertar

Os Marshstepper estreiam-se em Portugal com as suas experiências desviantes e ocultistas de noise e electrónica de impacto físico. Hoje em Lisboa e amanhã em Guimarães cumprem um programa político: destruir complexos para libertar o corpo.

Nem todas as aparições públicas dos Marshstepper são assim tão extremas e profanas – mas todas são imprevisíveis
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Nem todas as aparições públicas dos Marshstepper são assim tão extremas e profanas – mas todas são imprevisíveis JANE PAIN

Nudez, sessões de bondage, caras e pescoços cobertos de sangue, luzes strobe em constante arremesso, pessoas ajoelhadas e com máscaras a pegarem em taças, facas, cálices e outros objectos típicos de um ritual medieval. É isto que vemos em fotografias e vídeos dos concertos – ou melhor, das performances – dos Marshstepper, misteriosos facilitadores de experiências noise e electrónica ocultista do Arizona. Hoje passam pelo Bartô em Lisboa (cortesia da Lovers & Lollypops e da Associação Terapêutica do Ruído), e amanhã seguem para o Laboratório das Artes de Guimarães (cortesia da Revolve).

Mas vamos ter calma. Nem todas as aparições públicas dos Marshstepper são assim tão extremas e profanas, prontas-a-usar para deboches instantâneos. São, antes de mais, imprevisíveis. “As nossas performances são diferentes de noite para noite e dependem de uma série de factores. Além disso, é importante para nós não as tornarmos num cliché, em algo previsível e puramente extravagante”, diz ao Ípsilon JS Aurelius, o menino bonito dos Destruction Unit, vendaval de rock psicadélico com veia punk que já passou por cá, e que, juntamente com outro colega da banda, Nick Nappa, forma o núcleo duro dos Marshstepper.

Os concertos em Portugal acontecem na altura em que estão a lançar o disco A New Sacrament of Penance, pela Downwards, e vão ser mais simples, adianta Aurelius. “Não há dinheiro” para trazer para a Europa um line-up de performers e todas as bizarrias incluídas e, além disso, “a música é suficientemente poderosa para se aguentar sem nudez e sem violência”.

E que música é essa? Uma espécie de noise desviante com ondas de distorção em loop e efeitos lisérgicos, vozes manipuladas que tanto parecem saídas de uma gravação caseira de sessões de tortura como de cantos de música sacra, com guitarras dispersas e uma pulsação rítmica de electrónica corrompida e tonitruante, de enorme impacto físico. Às vezes parece que estamos dentro da Death Factory dos Throbbing Gristle e das suas aventuras pela música industrial, noutras parece que nos rebenta na cara (e nas ancas) o tecno duro e visceral dos British Murder Boys. Também não faltam experiências dadaístas e desarrumadas com barulho e maquinaria barata que nos remetem para os Wolf Eyes (com quem os Marshstepper já partilharam o palco).
 

Puro MDMA

Mas para JS Aurelius, que só se reconciliou com a música quando percebeu como integrar nela um lado performativo, as referências sonoras não são determinantes. “O termo 'música noise' está tão carregado [de significados] que já é difícil dizer o que realmente significa”, considera. “Correndo o risco de soar pretensioso, acho que o mais importante é a honestidade, a vontade de experimentar coisas novas das quais percebemos pouco e fazer algo – através da música, da performance ou da poesia, o meio é irrelevante – que nos permita ultrapassar e destruir construções sociais e tabus sexuais.” E é fácil perceber que a música dos Marshstepper é guiada por uma estranha cadência sexual libertária, no meio de todo aquele ruído viscoso e da aura ritualesca.

Dar rédea solta ao que as pessoas bem entenderem pode perfeitamente acontecer: “Depende do ambiente, mas às vezes alguém do público decide ser mais participativo, o que gera o efeito de bola de neve e toda a sala explode numa orgia celebratória e incontrolada.” Para Aurelius, essa transcendência física e psicológica “torna as relações muito mais honestas” e ajuda a eliminar uma série de complexos incómodos e de limitações normativas. “É como experimentar MDMA puro pela primeira vez”, exemplifica. Já dizia o filósofo Jacques Derrida: "A lei natural dita que cada um de nós deve ter a liberdade de fazer o que entender com o seu desejo, a sua alma e o seu corpo, bem como com as substâncias conhecidas como drogas."

Para perceber melhor o que vai na cabeça dos Marshstepper, é preciso conhecer a sua casa-mãe, a Ascetic House. Este colectivo/editora, criado em 2010 e sedeado na isolada cidade de Tempe, Arizona, reúne uma série de músicos de vários flancos (Otro Mundo, Iceage, Helm, Puce Mary e Body of Light são alguns exemplos de projectos que já ali foram editados), performers (entre eles Jane Chardiet, irmã de Pharmakon), artistas visuais e escritores que lançam discos, filmes, poesia, peças de teatro e vários tipos de publicações segundo uma filosofia e modos de produção declaradamente do-it-yourself.

Têm o seu próprio manifesto, em que anunciam procurar “a destruição de uma cultura que impõe as formas que a vida deve tomar” e apelam ao “controlo directo do nosso ambiente económico, social e cultural”. Uma teia de referências que apontam para grupos históricos da contracultura, dos situacionistas de Guy Debord ao Mouvement Panique de Jodorowsky, e com toda uma estética que lembra o provocatório colectivo de música e performance COUM Transmissions, ligado aos membros fundadores dos Throbbing Gristle. “O nosso programa político é libertarmo-nos das restrições dos nossos corpos e das construções da nossa mente”, resume JS Aurelius.

Parece ser uma boa opção para os tempos que correm. Quem quiser pode começar já este fim-de-semana com os concertos de Marshstepper, cujo aquecimento, em Lisboa, é feito pelos portugueses Signs of The Silhouette e BISPO. Em Guimarães, Alex Zhang Hungtai, líder dos recém-defuntos Dirty Beaches, apresenta-se a solo no saxofone e nas electrónicas como Sax Death, o seu novo projecto em constante mutação e sem elenco fixo.