Crítica

Estragos do tempo

Um poeta europeu dos nossos dias, como Tiago Patrício, não pode passear na República Checa sem sentir o frio do tempo congelado
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Um poeta europeu dos nossos dias, como Tiago Patrício, não pode passear na República Checa sem sentir o frio do tempo congelado Rui Gaudêncio

Entre mapas e poesia a relação não é clara ou, pelo menos, não estamos habituados a pensar nisso. Um livro como Turismo de Guerra — dividido em três partes: Língua Eslava, Cristal da Boémia e Inverno Eslavo obriga a pensar nisso. Referências directas a Praga, a Olomouc (alguns quilómetros a Leste de Praga) ou à Morávia não deixam dúvidas de que Tiago Patrício quer esclarecer que essa ligação existe ou que ele pertence à família de poetas para quem essa ligação existe.

Não era obrigatório pensá-lo conhecendo um livro como A Memória das Aves, que em 2012 ganhou o Prémio Natércia Freire. Mas Tiago Patrício também é autor de Caderno de Nova Iorque (2013) e do romance Mil Novecentos e Setenta e Cinco (2014), cuja história se passa numa aldeia de Trás-os-Montes, sendo que Trás-os-Montes é justamente o título do seu primeiro romance, escrito e premiado em 2011. O espaço, os lugares, os mundos que os lugares significam são, portanto, tema ou obsessão do escritor, para quem as fronteiras entre géneros literários talvez sejam menos marcantes do que as da geografia.

Marcantes não é, aqui, um adjectivo qualquer. Em Turismo de Guerra as marcas têm uma forte presença, a começar pelas marcas da linguagem. Aprender outra língua é logo o primeiro poema e, no entanto, a sensação que temos é de que Tiago Patrício fala de aprender outra língua com uma língua — poética — que não tem nada de outra. É aquele tom de prosa baça que nos soa familiar desde os anos 90: “Contamos mentiras ao telefone/ encurtamos frases e deixamos/ de pensar no que dizemos/ até conhecermos outra língua”. Até esta primeira pessoa do plural parece ainda demasiado comprometida com a voz indiferenciada, para não dizer incaracterística, que durante tanto tempo pareceu deixar a poesia à mercê do banal, como se um poema não pudesse (nem quisesse) ser mais do que a moralização em verso livre da vulgaridade quotidiana.

Perceber-se-ia, assim, o “turismo”: certa experiência de vida na República Checa transposta em menos de 30 poemas que não visam muito mais do que algumas impressões, alguns instantâneos dessa passagem pelo estrangeiro. Mas o que terá a guerra a ver com este lado fotográfico, ligeiro, do mero “turismo” existencial comum a tantos livros de poesia perdidos no meio dos outros livros?

A sequência da primeira parte do livro pode responder. À medida que avança, sabemos cada vez menos de que experiência se está a falar. Como se a língua, sendo portuguesa, se tornasse de facto eslava, isto é, fosse ficando cada vez mais a língua de um mundo estranho. Até que os dois últimos poemas (os melhores do livro) já só falam disso: da língua, das palavras “cobertas de chagas e sem lugar onde repousar a cabeça”, que a si mesmas se reconhecem como “apenas aforismos/ ou fragmentos largados pelo chão”.

Vemos então a violência inscrita no processo de “conhecermos outra língua” como se víssemos os obstáculos que a poesia interpõe a quem só quer fazer turismo. Com o poema Medir o pulso à palavra é uma consciência de poeta moderno que já não pode ser moderno, de novo a braços com a problemática relação da linguagem com o tempo, que vem à superfície pouco lisa da escrita de Tiago Patrício. Mas é aí que o mapa se torna essencial: essa consciência é europeia e a viagem deste livro é a de um “turista de guerra” porque visita uma Europa central que, identificada com as batalhas pelo comunismo, se tornou um terreno devastado. Sobretudo quando tudo está em paz, quando, como diz o poema que dá título ao livro, “tudo corre pelo melhor”, sobretudo portanto quando não há guerra nenhuma e tudo pode ser visitado e revisitado, é aí que o incómodo voyeurismo das guerras europeias pelo sentido se torna sensível: “prendas para o pai recordações de guerra/ ilustrações totalitárias para o escritório/ um postal da polícia para a secretária/ […] / experimentamos casacos/ amuletos e boinas de exércitos invasores […]// fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros”.

Não por acaso, neste mundo em que o turismo está no lugar da guerra, a última secção do livro é a do Inverno eslavo, um inverno duro, menos por começar “abaixo dos trinta graus negativos” do que pelo ambiente pesado, isolado, incomunicável e humanamente frio, que o define. O emblema desse Inverno, porém, o que fica na memória, é o do poema O relógio socialista de Olomouc, que começa assim: “era um relógio que comandava o tempo histórico/ em que os segundos demoravam horas a passar”. Era já, portanto, um relógio marcado pelo erro, disfuncional, um paradoxal relógio anacrónico. Esse relógio trágico “que tinha o mundo inteiro contra si”, condenado a render-se (e já rendido) “à ordem cronológica internacional”, tornou-se ele mesmo um estrago do tempo. Agora, esse relógio “desactivado há muitos anos” não serve sequer para ser combatido, nem sequer negativamente ele marca qualquer espécie de tempo histórico: “por isso já não adiantava fazer nada contra ele”.

Talvez um poeta europeu dos nossos dias, sobretudo um poeta ainda jovem como Tiago Patrício, não possa passear na Europa sem sentir o frio do tempo congelado e sem se sentir compelido a falar dele na primeira pessoa do plural. Mas este é um poeta que sabe que usar esse “nós” não é entrar numa fala que todos partilham; pelo contrário, diz um poema que tem por cenário um mosteiro, é antes outra espécie de guerra, “como se atirássemos/ pedras às bocas do mundo/ e depois assobiássemos/ como crianças que ainda/ não sabem como lidar/ com o excesso de silêncio”.