Fábrica de químicos de Vila Franca de Xira com vestígios de Legionella

Bactéria detectada na Solvay. Há outros locais onde foram igualmente encontrados vestígios. Ainda não se conhece a origem do surto.

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Uma fábrica de Vila Franca de Xira Miguel Manso

A Solvay Portugal confirma que as primeiras análises feitas em duas das suas 12 torres de refrigeração na fábrica de Póvoa de Santa Iria acusaram a presença de vestígios de Legionella, mas sublinha que esses primeiros testes foram também positivos noutras fábricas da região, cujas torres foram entretanto encerradas.

Graça Freitas, subdirectora-geral de Saúde, também confirmou ao PÚBLICO essa informação e admitiu que este não é o único local do concelho de Vila Franca de Xira onde foram detectados vestígios da bactéria que provoca a doença do legionário.

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“Não foi o único local, mas não quero dar mais informações até as investigações estarem concluídas”, disse Graça Freitas, afirmando que não é possível ainda saber se foi este o foco do surto de Legionella pneumophila.

O porta-voz da Solvay, Mário Branco, lamenta alguma “manipulação” de informação e garante que não tem qualquer indicação da Direcção-Geral de Saúde (DGS) que aponte para a responsabilidade da unidade da Solvay na Póvoa de Santa Iria. E salienta que resultados conclusivos sobre esta matéria só deverão ser divulgados pelo Instituto Ricardo Jorge no prazo de uma semana.

“Estas bactérias estão em todo o lado, as primeiras análises revelam-se quase sempre positivas. Onde está uma pequena colónia, pode estar também uma coisa gigante. Mas quando o primeiro teste dá positivo quer dizer que foram encontradas algumas células, vivas ou mortas. Daí não se pode extrapolar que seja aqui o foco”, sublinha Mário Branco, frisando que só em duas pequenas torres de refrigeração da empresa, com quatro metros de altura, situadas junto ao Tejo, é que foram detectados alguns vestígios e que nas restantes dez os resultados foram negativos.

O porta-voz da Solvay sabe que noutras empresas da zona o resultado “positivo” inicial foi semelhante, mas salienta que só as análises ainda em curso poderão esclarecer a origem do problema e a relação entre os infectados e o foco causador desta contaminação.

O responsável pela comunicação da Solvay explica ainda que entre 120 funcionários da empresa apenas um contraiu a doença do legionário e que entre outras 100 pessoas ligadas a outras firmas que também prestam ali serviço só há conhecimento de mais um caso. Acrescenta que acha muito difícil que a origem do problema esteja naquela duas pequenas torres, porque a Solvay “manteve sempre as suas boas práticas, nada se modificou, tudo é feito como sempre”: “É um processo que fazemos há dezenas de anos, há uma empresa externa que faz esse controlo, injecta cloro e assegura as boas condições das torres”, refere.

Mário Branco sublinha ainda que os ventos dominantes naquela área vão exactamente no sentido contrário das zonas habitacionais mais afectadas. “Não temos mais informação nenhuma da DGS, vamos agora procurar saber se há mais dados, mas todos os raciocínios lógicos apontam em sentido contrário. Não temos conhecimento de população afectada naquela área, em 120 funcionários só um está infectado. Os nossos escritórios estão a 100 metros dessas torres. Nada nos diz que esteja ali o problema”, conclui.

A Solvay, uma das três empresas de Vila Franca de Xira que pararam a actividade as torres de refrigeração por precaução e a pedido do Ministério do Ambiente, produz nesse centro de actividade peróxido de hidrogénio (água oxigenada) e clorato de sódio. A empresa está presente em Portugal há 80 anos e emprega 400 colaboradores em dois centros de trabalho: o de Vila Franca de Xira e outro, em Oeiras, onde funcionam os serviços de Recursos Humanos e Finanças, num Centro de Serviços Partilhados.

Na Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, cuja sede fica na Fábrica de Vialonga, também foram recolhidas amostras para análise. Os resultados deverão ser comunicados pelas autoridades. "Para além do nosso controlo regular mensal, e porque a origem do problema é ainda desconhecida, decidimos suspender a utilização dos balneários e fazer um tratamento de choque às nossas torres de refrigeração", disse o director de comunicação e relações institucionais da empresa, Nuno Pinto de Magalhães, numa resposta por email. A Central de Cervejas tem “um colaborador abrangido, que felizmente já não tem febre e que está a recuperar bem”, acrescentou.

Na ADP Fertilizantes, que produz e comercializa fertilizantes para a agricultura, também foram recolhidas amostras para análise. Os resultados serão conhecidos esta tarde, disse fonte da empresa ao PÚBLICO.

Num comunicado da administração, com data de segunda-feira, a ADP Fertilizantes garante que não existe risco de exposição para os trabalhadores e apela à calma de todos, depois das precauções tomadas “em consonância com os comunicados divulgados pela Direcção-Geral da Saúde e pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira”.

Entre outras medidas, foram também decididas a paragem das torres de refrigeração que leva à paragem geral das instalações e o reforço do tratamento das águas de refrigeração, ficando “eliminados quaisquer potenciais focos de contaminação”, segundo o comunicado que explica que a partir do momento em que deixa de haver refrigeração de água “não há possibilidade de formação de gotículas de vapor de água”.

A Póvoa de Santa Iria, juntamente com Vialonga e Forte da Casa, é uma das três freguesias mais afectadas pelo surto de doença do legionário, que já causou cinco mortos. A doença do legionário não é rara em Portugal (morreram 86 pessoas nos últimos nove anos), mas desta vez assumiu uma dimensão pouco habitual.

Esta bactéria já apareceu em vários locais do mundo, tendo a primeira manifestação sido detectada em 1976 nos Estados Unidos.