Machete quis alertar jovens para não embarcarem numa aventura que não é turística, mas terrorista

Ministro admitiu que governo tem na forja medidas administrativas para os jovens que regressem dos campos de batalha.

Enric Vives-Rubio
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Enric Vives-Rubio

O ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros afirmou esta terça-feira, na Assembleia da República, que as suas palavras sobre o perigo de adesão de jovens portugueses nas fileiras do autoproclamado Estado Islâmico (EI) eram preventivas. “Para não embarcarem numa aventura que não é turística, mas terrorista”, disse.

O chefe da diplomacia portuguesa negou que as suas declarações sobre o arrependimento de duas ou três jovens que queriam regressar da Síria tivesse intuito ou elementos de identificação que fizessem perigar as suas vidas.

“É bom alertar os jovens para a perigosidade desta organização [EI]; não se trata de fazer turismo, mas de enveredar pelo terrorismo, pelo que é necessário prevenir”, repetiu, por quatro vezes, Machete. O ministro compareceu na comissão parlamentar de negócios estrangeiros por iniciativa do PS.

Em entrevista dada, em Nova Iorque, depois de Portugal ter sido eleito com votação-recorde para o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, Rui Machete abordou as actividades do EI. E referiu-se, concretamente, ao envolvimento de portugueses como combatentes e à presença de jovens, como suas companheiras, que já teriam comunicado à família o seu arrependimento. Tal foi considerado pelo deputado socialista Marcos Perestrello como revelação de informação sigilosa, que punha em causa a segurança nacional e de pessoas. Foi isto que esta tarde foi a debate.

A divulgação pelo PÚBLICO, na semana passada (ver edição de sexta-feira), da morte de Sandro “Funa” - um português desde 2007 a residir em Londres, onde se converteu ao islamismo e se radicalizou, passando a integrar as hostes dos combatentes estrangeiros do EI na Síria - pairou na sessão parlamentar. Sandro, de 36 anos, foi a primeira baixa entre os jihadistas portugueses por não ter resistido aos ferimentos de um bombardeamento. Ou seja, pelo efeito da guerra e não por uma inconfidência ministerial.

Perante os deputados, Rui Machete negou qualquer efeito letal nas suas palavras, bem como a divulgação de qualquer sigilo, sobre o número de portugueses na Síria. Dados que, destacou, saíram na imprensa nacional. “O chefe da diplomacia não pode falar de matéria sensível com base no que lê nos jornais”, argumentou Perestrello. “A nossa imprensa, quando é responsável, é muito importante”, respondeu o ministro.

Machete já foi evasivo quando se referiu a medidas de excepção na forja. “O Governo prepara medidas administrativas no âmbito da segurança interna, como a França e a Grã-Bretanha”, anunciou. Depois, nas rondas de perguntas, nada mais precisou porque também não lhe foi perguntado.

Destacou, no entanto, a questão dos que, depois de combaterem com o EI no Iraque ou Síria, querem regressar ao seu país natal, não necessariamente de onde saíram para a guerra. “O problema dos regressados é muito importante, não se sabe se o regresso é fundamentado em vontade genuína”, disse o ministro. E recordou: “O ISIS [siglas inglesas do autoproclamado Estado Islâmico] é talvez a maior ameaça que o terrorismo põe”.

A enumeração das diferenças do EI com a forma de actuar da Al Qaeda exemplifica a nova realidade: “Reivindicam um Estado teocrático, em formação, representam um messianismo radical, a sua acção militar sobrepõe-se à ideologia e utilizam as redes sociais que atingem o quotidiano dos nossos jovens.” E desencadeiam as suas acções, destacou Rui Machete, com uma violência bárbara.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros também se referiu às formas de financiamento: “A venda de petróleo na candonga na fronteira entre a Síria e a Turquia”, assinalou. Reconheceu, contudo, que é problemática a aplicação de sanções pela comunidade internacional a quem se abastece daquele petróleo: “Serão complicadas as sanções, porque é difícil identificar a culpabilidade de quem contribui para o tráfico de petróleo.”

No terreno da geopolítica, no verdadeiro caldeirão de problemas do Médio Oriente”, Machete reconheceu a existência de antigas questões ainda relacionadas com a herança colonial. Admitiu, também, as flutuações dos apoios de potências ocidentais, como os Estados Unidos, que criaram verdadeiros monstros. Mas foi peremptório: “Não são, apenas, os Estados ocidentais que estão em causa, também os muçulmanos, o terrorismo tem ultrapassado estas questões remotas com uma ideologia própria.”