Esterilização forçada mata oito mulheres na Índia

Há mais 60 mulheres hospitalizadas. As vítimas apresentaram complicações depois de terem sido sujeitas a operações promovidas pelo governo estatal.

O controlo populacional é uma autêntica obsessão das autoridades indianas
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O controlo populacional é uma autêntica obsessão das autoridades indianas Reuters

Oito mulheres morreram na Índia, na sequência de uma operação de esterilização em massa realizada num recinto governamental, onde no sábado 83 mulheres foram sujeitas ao mesmo procedimento. Quatro responsáveis clínicos foram suspensos pelo governo do estado de Chhattisgarh (Centro do país).

Para além das oito vítimas mortais, foram hospitalizadas cerca de 60 mulheres, das quais 24 encontram-se em condições preocupantes, avançou à AFP Sonmani Borah, um responsável administrativo local.

As autoridades estatais de Chhattisgarh lançaram uma investigação para apurar a existência de negligência médica durante as operações. As famílias das vítimas terão direito a uma indemnização de cerca de 2400 euros, segundo a cadeia de televisão NDTV. Testemunhas ouvidas pela BBC afirmam que as 83 mulheres foram operadas em apenas seis horas no último sábado pelo mesmo médico, auxiliado por um assistente.

“É um incidente muito infeliz”, lamentou o primeiro-ministro estatal, Raman Singh, depois de visitar algumas das mulheres internadas. “À primeira vista, parece que o incidente foi causado por negligência. Vai ser conduzida uma investigação profunda que vai ter em atenção todos os ângulos, incluindo a qualidade dos remédios no recinto, o procedimento da cirurgia, as medidas pós-operatórias e outros”, acrescentou Singh, citado pelo jornal Hindustan Times.

O controlo populacional é uma autêntica obsessão das autoridades indianas. Calcula-se que a população da Índia – actualmente de 1,24 mil milhões de pessoas e com um crescimento médio anual na ordem dos 18 milhões – ultrapasse a da China em 2030.

São comuns, por isso, as ferozes campanhas de esterilização promovidas pelos governos estatais, que montam campos especificamente para esse efeito – como foi o caso do campo no distrito de Bilaspur – onde dezenas de mulheres são sujeitas a esterilizações. Os programas estatais prevêem o pagamento de 1400 rúpias (cerca de 20 euros) para as mulheres que se voluntariem para o procedimento e, por vezes, são até oferecidos bens, como carros ou electrodomésticos, diz a AFP.

Em Janeiro de 2012, três homens foram detidos no estado de Bihar depois de terem operado 53 mulheres em duas horas sem terem usado anestesia.

Calcula-se que a Índia seja responsável por 37% das esterilizações femininas em todo o mundo, segundo as Nações Unidas. Em 2012 terão sido sujeitas a este processo cerca de 4,6 milhões de mulheres. Cerca de três quartos dos casais que praticam medidas de planeamento familiar fazem-no através da esterilização feminina. “Os homens temem perder a virilidade ou vir a tornar-se fracos caso façam a operação”, explicava à Bloomberg Sona Sharma, uma das directoras da organização Population Foundation of India.

Por outro lado, há também pressão política para que os responsáveis médicos atinjam as quotas de esterilização pré-definidas. “No final do ano somos julgados pelo número de esterilizações que fizemos (…) o governo não aceita desculpas”, disse também à Bloomberg o médico M. A. Rashid.