Opinião

O governo de oposição

Costa tem um calendário e um roteiro de propostas, não uma ladainha de promessas.

O governo devia mudar de nome. De Governo de Portugal passar a Oposição a Costa. As primeiras sondagens após a eleição interna do candidato socialista a futuro primeiro-ministro, aterrorizaram o Governo e a já reduzida direita que ainda o apoia. As suas aves canoras foram chamadas à pedra e advertidas de que doravante não haverá discordâncias nem sequer criticazinhas, apenas louvores e incensos. Até já apareceu um editorial assente em impossível elogio a Crato.

Seguir-se-á outro a louvar o falar grosso da justiça por lançar a suspeita criminal sobre dois mexilhões que estavam apenas a cumprir o seu papel de segurar a rocha. O escrutínio minucioso do governo de Costa na câmara de Lisboa vai ser continuado e ampliado. Até um ministro se deu ao trabalho de passar um filme cómico atrasado numa audiência parlamentar nacional, para diminuir Costa. De súbito, invertem-se os papéis: os ministros, e já são dois, em vez de cuidarem do País, criticam a gestão camarária de um escasso território, com 560 mil habitantes, menos de 5% da população do Continente. Porque a ele preside António Costa, inimigo a abater.

O argumentário aí está: Sócrates a regressar pela mão do PS. Sócrates, o que ousou fazer sair o País do subdesenvolvimento crónico, o que atraiu indústrias, o que reestruturou fontes de energia, o que reformou educação, segurança social e saúde, o que pretendeu manter as telecomunicações em mãos nacionais, o que se afanou a construir estradas e linhas férreas, o que ousou colocar o País nas redes transeuropeias de comunicações, transportes e energias. Mas também o que ousou disputar o monopólio comunicacional da direita, o que acreditou que o gastar muito para combater a crise era a verdadeira política europeia, sem se precaver contra a forte viragem de Merkel e Sarkozy, o que deveria ter exigido parceria de governo com outros, em 2009, quando passou a minoritário, Sócrates é visto como Tamerlão, às portas de Constantinopla, disposto a mudar-lhe o nome para Istambul. Um governo tão frustrado como impotente, que recorre a fantasmas de há três anos e meio atrás para amedrontar cidadãos livres que toma por criancinhas ingénuas! Quando, afinal, teve tempo para tudo mudar e tudo fez piorar.

A Costa tudo se exige, agora: que apresente programa completo e detalhado, pasme-se, a um ano de eleições. O que fazer com a dívida, como controlar o défice, como criar emprego, como aumentar as exportações e reduzir as importações, como captar investimento, como aumentar o crescimento e evitar a deflação, como resolver a crise do BES, como fazer regressar os que emigraram, como reduzir a pobreza, como cuidar dos velhos e das famílias, como prevenir a criminalidade, como baixar os impostos, como promover o conhecimento e a inovação. Tudo o que o governo destruiu ou não conseguiu construir é agora exigido, por transferência freudiana da impotência, a um ainda candidato à liderança interna do partido da oposição. Isto demonstra o fracasso de três anos e meio de afundamento consciente do País, bem como a perturbação nos espíritos dos que se meteram na alhada e dela não conseguem sair.

Depois de chegar ao governo, Costa terá inúmeros obstáculos a vencer: a quebra do crescimento, do investimento, do consumo e do crédito, sem os quais não crescerá o emprego, nem baixará a emigração; a pobreza aumentada, o desemprego jovem persistente e o regressado insucesso escolar; um novo impulso a exportações com mais créditos e menos viagens; a erosão das pensões e dos seus fundos, a desatenção aos idosos e à medicina familiar e as barreiras de acesso ao SNS, as velhas e novas epidemias e pandemias; o revigorar da administração e a simplificação de procedimentos; o abandono e taxação de pensionistas pobres e remediados. Até lá, muitos lhe saltarão ao caminho. Por que sim e porque não, como na fábula de La Fontaine, do velho, do rapaz e do burro. Ele terá que seguir o caminho que escolheu, sem se deixar deter ou embaraçar: tem um congresso a preparar e vencer, um partido a unir e reforçar, uma estratégia de longo prazo e uma táctica para galgar o ano que falta.

Os ardis surgirão de todos os que sentem a inexorável derrota mas persistem no fatalismo da agonia: o governo, oposição da oposição, a esquerda à esquerda de si própria, mais apta para se cindir que para se propor; a esquerda conservadora que prefere capitalizar na crise do capitalismo a tentar substituir a prática do capitalismo. O populismo ainda incerto, mas já vociferante. Ainda sem programa, mas já ambíguo e contraditório. A alimentar-se do imaginário e das frustrações populares do “correr com estes, depois se verá”. Como se a dinâmica do azorrague suprisse a inércia do conteúdo.

Costa tem um calendário e um roteiro de propostas, não uma ladainha de promessas. Tem um congresso a convencer e vencer, um corpo temático a congregar, preparar, disciplinar e difundir, um ano que se augura difícil lá fora e inóspito cá dentro. Certamente, um programa eleitoral a propor. Aí, sim, os ansiosos por carne fresca terão alimento para retalhar. Acalmem-se. Ainda é cedo para tal festim.

Professor universitário reformado