Paulo Whitaker/Reuters
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Megafone

A meritocracia é o ópio das elites

A meritocracia perpetua o "status quo" de uma elite que tem como único interesse o seu próprio interesse

Um dos mitos muito em voga hoje em dia, e muito paparicado pelo neoliberalismo, é o da meritocracia. Resumindo: a ideia de que qualquer pessoa, independentemente da sua classe social, género ou raça, tem desde que nasce todas as ferramentas necessárias para ser bem-sucedido, podendo chegar onde quiser através do seu próprio esforço. Portanto, o sucesso é visto como um produto de uma fórmula onde só entra um factor: o trabalho individual.

Este é o tipo de ideologia que, quando levada ao extremo, gera todo o tipo de pensamentos abjectos, como o de que os pobres são pobres porque não se esforçaram, ou que se alguém é pobre a vida inteira é porque assim o merece, ou ainda, como fez questão de afirmar Kevin O'Leary (um dos investidores do programa “Tanque dos Tubarões”), que a enorme desigualdade social que se vê no mundo é uma bênção porque as pessoas que estão no fundo podem olhar para cima e esforçar-se para virem a ser como os bilionários.

Enfim, sem dúvida que a crença de que o sucesso advém só do mérito é o grande estupefaciente para os privilegiados. Mesmo ignorando estes casos extremos, a simples ideia de que o sucesso depende apenas do nosso trabalho, é fazer tábula rasa de um grande número de factores que estão em jogo quando falamos em ascensão profissional ou em alcançar sucesso. Não há sucesso sem trabalho, é certo. Mas, apropriando-me de Ortega y Gasset, “eu sou eu e as minhas circunstâncias”, e ignorar circunstâncias é manter ilusões. E manter ilusões é um dos mais velhos truques para se ir alimentando um determinado sistema de estrutura político-social.

A elite

Os casos de sucesso existem e conhecemo-los bem das pregações do “self-made-man” que abundam na nossa cultura, mas não passam disso mesmo: pregações. A meritocracia perpetua o "status quo" de uma elite que tem como único interesse o seu próprio interesse. Elite essa, para onde, ocasionalmente, alguém vai ascendendo por sorte ou cunha e raramente apenas por mérito. Podemos sabê-lo pelo carreirismo que habita nas juventudes partidárias, e que se reflecte em muitos administradores de algumas das grandes empresas portuguesas que fazem vida a gravitar entre cargos políticos e o sector privado.

Mas isto não só mantém o estatuto privilegiado da elite, como também mantém todo o sistema. Há aqui ciência. A agenda neoliberal é acompanhada por uma desresponsabilização do próprio papel do Estado, colocando a tónica única e exclusivamente no eleitor-consumidor: não nos esforçamos o suficiente, não emigramos, não somos empreendedores, gastamos acima das nossas possibilidades mas também consumimos menos do que era suposto.

Com todos os "bater punho" deste mundo, repetidos como mantras para apaziguar realidades não coincidentes com a agenda que impera nalgum tipo de direita, a ilusão vai-se mantendo em narrativas irrealistas. Não me lembro melhor ilustração do que a do burro atrás da cenoura: por mais que ele corra nunca a vai conseguir apanhar.