Da queda do Muro de Berlim a uma liderança relutante da Europa

Foto
Parte da cidade de Berlim está dividida temporariamente por uma instalação de oito mil balões- -candeeiros para comemorar a queda do muro HANNIBAL HANSCHKE/REUTERS

Em apenas 25 anos, a Alemanha foi sofrendo várias mudanças, tão rápidas como brutais: a queda do muro e a reunificação, um período de fraco crescimento e até recessão, reformas dolorosas, criação de riqueza, crise do euro e uma liderança relutante da Europa

Eram onze e meia da noite e o guarda Harald Jäger estava exausto. Ninguém percebia o que estava a acontecer desde que, umas quatro horas antes, numa confusa conferência de imprensa, um responsável da Alemanha de Leste anunciara (por lapso) a abertura da fronteira entre as duas alemanhas. Dezenas, depois centenas, depois milhares de cidadãos da Alemanha de Leste saíram à rua e foram até à fronteira.

Jäger tinha perante si uma multidão a gritar que queria sair. Então, às 23h30, decidiu dar a ordem aos 46 homens sob o seu comando de abrir a barreira. Minutos mais tarde, afastou-se para chorar. Chorou de alegria por não ter havido violência. Chorou de angústia por perder o sistema no qual tinha fé, e por não saber o que viria a seguir.

Ninguém sabia. Entre a euforia de poder passar para outro lado nunca visto por muitos, reencontros de famílias separadas, tudo aconteceu num ápice.

Confrontados com uma situação inédita, os líderes tiveram de tomar decisões. Havia um povo, nenhuma fronteira, dois países. Uma parte significativa dos dois milhões de alemães de Leste poderia procurar melhores condições de vida na parte ocidental. Erguer um novo muro era impossível. A única opção realista era a reunificação - embora ela assustasse a Europa (Margaret Thatcher foi famosamente contra, o espectro do perigo da força de uma Alemanha unida era muito presente e até dentro da Alemanha) e alguns alemães (Günther Grass foi uma dessas vozes).

A reunificação não foi fácil. "Pensava-se que o povo era um único", comenta Heike MacKerron, directora do gabinete de Berlim do German Marshall Fund, numa entrevista telefónica ao PÚBLICO. "Mas já não era. Mais de 40 anos a viverem em sistemas completamente diferentes - a política, a escola, a mentalidade - fez com que os alemães fossem mais diferentes do que se esperava."

As disparidades de salários, preços e quantidade de bens disponíveis, nível de vida, eram enormes, isto apesar de a economia da Alemanha de Leste ser a maior dos países do Pacto de Varsóvia. Na altura da reunificação, o regime da Alemanha de Leste estava com tão pouco dinheiro que muitos edifícios antigos estavam quase a cair, em zonas como Mitte ou Prenzlauer Berg, para serem substituídos por construção mais nova e mais barata. A República Democrática Alemã (RDA) precisava de dinheiro de tal modo que alguns dissidentes e pessoas presas por terem tentado passar o muro e ir para a República Federal (RFA) acabaram por ser levadas para o outro lado da fronteira em troca de uma compensação monetária do Oeste, tudo em segredo. "Entre 1964 e 1989, alguns 33.755 prisioneiros políticos e 250 mil familiares foram vendidos à Alemanha Ocidental, por uma quantia total de cerca de 3,5 mil milhões de marcos", disse à BBC o historiador Andreas Apelt.

Alguns classificam esta reunificação como uma "tomada de controlo" do Leste pelo Oeste. "Houve algum ressentimento, alguma confusão", diz MacKerron. No Leste, pensava-se porque não tinham os líderes ocidentais aproveitado algumas coisas boas que tinha o seu sistema. No Oeste, muitos pensaram que tinham de pagar um preço elevado pela reconstrução do Leste. "Ainda me lembro do aniversário dos dez anos da reunificação, as coisas não estavam assim tão boas, e o país estava realmente em apuros."

Dez anos depois da queda do muro, a Alemanha tornou-se o doente da Europa. A situação não melhorou durante vários anos e em 2005 o país assustava-se com o nível de desemprego, cerca de 11%, cinco milhões de alemães sem emprego, o maior nível desde a chegada de Hitler ao poder.

Como recuperou o país?

Não há uma razão simplista mas vários factores que o explicam. Ao PÚBLICO, Jan Techau, director do Carnegie Europe, o centro europeu de estudos do americano Carnegie Endowment for International Peace, enumera alguns: o investimento no Leste "não foi atirar dinheiro para um saco sem fundo", e começou a dar frutos depois de algum tempo; as reformas do chanceler Gehard Schröder, que foram radicais para os alemães, modificando o sistema de apoio social de um modo nunca imaginado, deram sustentabilidade ao sistema; e houve uma grande contenção na subida dos salários, que se mantiveram fazendo com que a Alemanha conseguisse ter produtos a preços competitivos.

Junte-se a isto tudo o euro. Deixar o marco, a moeda que para os alemães simbolizava o renascer das cinzas depois da II Guerra, não era algo que a população quisesse. Mas o chanceler da altura, Helmut Kohl, acreditava que esta concessão era fundamental para a via europeia da Alemanha. Para os outros países do euro, a moeda única era positiva também porque diluiria a força da Alemanha. "A tragédia para os alemães é que eles viam o euro como o seu grande presente para o resto da Europa, um acto de autonegação em que desistiram do seu totémico marco pelo bem do continente", comenta Simon Winder, autor de Germania: A Personal History of Germans Ancient and Modern, ao diário britânico The Guardian. Afinal, o euro acaba por estar na raiz da sua força.

Ao deixar a Alemanha com uma moeda que não era excessivamente forte, o euro abre um mercado de exportação que faz crescer a economia alemã. O euro traz também a semente da crise. Dá crédito artificialmente barato a economias mais frágeis com as taxas de juro alemãs - o pecado original que há-de ser apontado por Techau aos países do Sul: com dinheiro disponível, tornou-se fácil gastar o que não tinham e não fazerem as reformas de que precisavam.

A Alemanha, admite MacKarron, pode parecer moralmente superior quando prega o caminho de reformas dolorosas - ela própria as sofreu. As reformas do chanceler Gehard Schröder (a chamada Agenda 2010, com reduções de subsídios, exigências aos desempregados para os poderem receber, aumento da idade de reforma) são vistas como o que salvou a Alemanha e lhe permitiu o seu actual bom momento económico. Mas tiveram enormes efeitos que duram ainda hoje: o partido social-democrata nunca recuperou, passando de um grande partido para um partido médio, deixaram parte da população a viver de trabalhos mal pagos ou precários, e foram parcialmente revertidas na grande coligação que a actual chanceler, Angela Merkel, agora chefia.

Chegamos à crise do euro. A Alemanha é vista como o país que deve liderar - afinal é a maior economia da Europa, uma potência "semi-hegemónica", como lhe chama Techau.

O seu peso económico torna esta posição inevitável. Antigos inimigos como a Polónia querem que Berlim tome a iniciativa. Mas a ideia é profundamente desconfortável para os alemães, até por uma questão semântica, diz MacKarron. "O líder é o Führer. Ora esta palavra é tabu, porque o Führer era Hitler. Ser líder, Führer, é mau."

Mais: os alemães não percebem porque lhes é exigida liderança e depois essa liderança é criticada. Não entendem quando vêm Merkel apresentada como Hitler em cartoons ou em protestos nos países sujeitos a medidas de austeridade.

Techau sublinha que a Alemanha lidera na Europa, mas está longe de estar sozinha na defesa da solução de austeridade para a crise do euro. "Há um consenso grande entre países do Norte e também entre alguns da Escandinávia, Áustria, Holanda, etc. Há uma coligação muito sólida por trás."

O analista nota ainda que Berlim cedeu, mais do que uma vez, em posições do que entende que deveria ser feito na crise do euro. "Houve questões em que a Alemanha perdeu, como na política monetária e no papel do Banco Central Europeu [por exemplo na compra de dívida dos países em crise] - os alemães aceitaram isso contra a sua vontade. A união de transferências light [em que a Alemanha garante os empréstimos aos países em crise] é o oposto do que a Alemanha quis."

A Alemanha manobra assim entre um estatuto de excepção e um comportamento de potência semi-hegemónica. Já se permite celebrar as suas vitórias no futebol. Até já tem um partido populista ("as pessoas esquecem-se muitas vezes disso: a Alemanha também tem política interna", nota Techau). Mas num mundo de desafios cada vez mais complexos, a Alemanha, diz MacKerron, "ainda procura definir qual será o seu papel". Passados 25 anos, "ainda não estamos completamente adultos".