Opinião

Pornex 2014

Sinto-me já devidamente homenageado por estes minuetes cómicos. Muito, muito obrigado. Bem hajam.

Faz 30 anos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa realizou-se a Pornex 84. Durante cinco dias houve debates, filmes, performances, em volta do douto tema. A data tem a sua importância: 1984, dez anos depois do… isso mesmo, aquela data que qualquer dia já não ousamos nomear, como diria Oscar Wilde.

A Pornex era um teste à liberdade, à capacidade de encaixe, ao sentido de humor, à alegria, à democracia e, enfim, também à universidade. Pode-se ou não discutir tudo? Podemos ou não, sobretudo na universidade, discutir a coisa humana? Ou só são tolerados os “temas decentes”, que não “ofendam a gente de bem”? E a FCSH, graças a Deus e às pessoas, passou o teste. De raspão, titubeante, com umas hesitações aqui ou ali (à portuguesa), mas passou. No mesmo ano, recorde-se, a direcção da RTP tinha caído por causa de, valha-nos Santa Ingrácia, um filme brejeiro com Ugo Tognazzi e Monica Vitti, Pato com Laranja. Onze telefonemas indignados, onze, menos do que os que o Ronaldo dá seguidos, bastaram para a Santa Indignação abalar o país. Em 1978,  o parlamento tinha debatido um sketch de Alberto Pimenta na RTP (“A Arte de Ser Português, realizada por Jorge Listopad). Em 1987 Herman viria a ser alvo de censura também na RTP. E ainda faltavam uns anitos para Saramago ser sonegado por um governo com horror às demasiadas vírgulas. Mas, na universidade, a Pornex realizou-se e, apesar da turbulência em volta, chegou até ao fim. Foram cinco dias e cinco noites de muito penar, e cheguei a ouvir que “nos corredores do ministério já se falava em fechar a faculdade”, ao que respondi, do alto dos meus 23 anos, que isso era terrorismo e as decisões eram, tanto quanto eu sabia, tomadas nos gabinetes, não nos bastidores. Foi uma aventura. Foi, acho, uma bonita aventura. Um vento de liberdade e uma prova de que, quando querem, as universidades conseguem ser quase tão inteligentes como os telemóveis ou os edifícios pós-modernos. 

Lembro-me como se fosse hoje: quando fui falar com o director da FCSH a informá-lo da natureza da nossa actividade, ele hesitou: “Não sei se isso poderá ser autorizado.” Sosseguei-o: não nos importávamos de cancelar o evento, mas teríamos de informar as pessoas de que uma actividade da Associação de Estudantes fora cancelada devido ao seu conteúdo ideológico. Ele ponderou e, honra lhe seja feita, cedeu. Só fez um pedido: “Já têm cartazes feitos?” Respondi que sim. “Então, por favor, tentem coloca-los em locais discretos.” (Ainda hoje me maravilho com o génio desta frase, uma revolução no marketing político, social, cultural.)

Agora vêm de rajada duas notícias e meia assustadoras, porque de duas universidades: a revista do Instituto de Ciências Sociais adstrito ao ISCTE e a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. A revista: por conter graffiti que punham “em causa o bom nome da revista e da instituição”. Coimbra: “por um debate marcado pela Associação de Estudantes entre figuras conhecidas ser invejável. (A estupidez dói menos quando vem de onde a esperamos. Também o sr. Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia tem um respeitável currículo, o que torna ainda mais doloroso o que está a acontecer.)

São sinais chatos, porque nem sequer têm origem no governo – por uma vez, Pedro, estás perdoado – mas no mercado ou, mais sinistro, no medo do mercado. Em dez dias que abalaram meio mundo, temos uma Revista de Ciências Sociais que é censurada (e não sei o que é pior, se a censura, se as desculpas a posteriori e a solidariedadezinha institucional) e um debate na Faculdade de Coimbra entre dois rapazes limpos e barbeados interdito por ser “ideológico”.

Por um lado, estou triste com o que está a acontecer. Por outro lado, sinto-me honrado: o meu país está a homenagear bonitamente a celebração do humor absurdo que, com um punhado de amigos e colegas, tive a honra de realizar faz este ano trinta anos. Já me pouparam trabalho. A galeria Perve queria fazer uma evocação, mas assim é mais irmão catita. Durão Barroso sentiu que o seu esforço foi reconhecido ao ser medalhado pelo Presidente Aníbal Cavaco Silva? Pois eu sinto-me já devidamente homenageado por estes minuetes cómicos. Muito, muito obrigado. Bem hajam.