80 jornalistas + 28.000 páginas + 1 Enterprise = LuxLeaks

Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação começou a investigar o caso há seis meses. Trabalharam nele, numa redacção virtual criada para o efeito, mais de 80 jornalistas de todo o mundo.

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Homepage do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, onde foi revelado o LuxLeaks DR

Será quase tão avançada como na sua época a nave da saga Star Trek: a Enterprise, a plataforma digital criada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) para trabalhar o caso LuxLeaks, foi um instrumento essencial para que a equipa de mais de 80 jornalistas em 26 países funcionasse numa redacção virtual global e trabalhasse em conjunto as 28 mil páginas que compõem o processo.

A descrição é feita por Marina Walker Guevara, a chamada “gestora de projecto” do caso LuxLeaks. “Os documentos centrais da investigação eram incrivelmente complexos”, pelo que a sua análise requeria uma profunda especialização financeira e conhecimentos locais” da realidade de alguns países onde as empresas operam.

A investigação começou há seis meses, quando a ICIJ teve acesso aos documentos e, depois de dúvidas iniciais - porque os casos da engenharia fiscal da Fiat e da Amazon no Luxemburgo já eram públicos e a União Europeia tinha aberto investigações também aos paraísos fiscais da Irlanda e Holanda -, em Junho, uma equipa de 40 jornalistas que se propuseram acompanhar o caso mergulharam a fundo na documentação.

Seguiram-se meses de “trabalho de investigação entediante e silencioso”, para passar a pente fino todos os contratos fiscais entre as empresas e o governo luxemburguês liderado por Jean-Claude Juncker, mas também, por exemplo, as contas das empresas, as leis de cada país. E somaram-se muitas "negas": tanto a PricewaterhouseCoopers, que assessorou as empresas e o Estado luxemburguês, assim como este último e vários responsáveis das grandes empresas fizeram do silêncio a palavra de ordem, descreve Marina Guevara.

Os documentos são agora públicos, no site da ICIJ, que garante que são “assinados, selados e aprovados pelas autoridades do Luxemburgo” e diz divulgá-los em nome do “interesse público”. E avisa: “Há muito mais [informação] na documentação que não foi ainda encontrada ou trabalhada”. Muito por explorar, como para a Enterprise da Star Trek.

Fundado em 1997, o ICIJ é uma rede internacional de 185 jornalistas especializados em investigação de mais de 65 países - e bastante premiados -, sendo boa parte deles freelancers. Trabalha com um vasto leque de empresas de media de todo o mundo, aos quais disponibiliza os conteúdos gratuitamente. É financiado por donativos individuais.