Podia ser num ringue ou numa quinta, mas Kimmo Pohjonen vem tocar em seis salas portuguesas

Desafiador permanente da sonoridade que podemos esperar de um acordeão, o finlandês Kimmo Pohjonen tanto toca a acompanhar combates de wrestling como compõe para actuar com o Kronos Quartet. Em Portugal para uma digressão de seis datas, que este sábado se inicia em Torres Vedras, vamos encontrá-lo a solo. A ele e aos pequenos demónios que esconde nos foles do instrumento.

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Kimmo Pohjonen Steinweg

Vinte anos depois de ter visto a luz, o acordeonista finlandês Kimmo Pohjonen continua a persegui-la sem dar mostras de cansaço. No final dos anos 90, após um período em que se dividia entre as actuações em bailes de música tradicional e o estudo na Academia Sibelius, em Helsínquia, Pohjonen parecia já não conseguir encontrar qualquer satisfação no acordeão.

Andava antes a experimentar bandoneón, kissange e outros desvios à sua formação. Mas perante o convite para apresentar um espectáculo de acordeão a solo, resolveu tentar reanimar essa relação gasta e descobriu, num repente, que o uso de efeitos e de todo um cardápio tecnológico em que nunca antes pensara abria-lhe a porta para todo um desconhecido e amplo universo musical. Não imaginava ainda que, volvidas duas décadas, esse método continuasse a apresentar-se-lhe como uma expansão sem fim, levando-o a tomar riscos inimagináveis para o acordeão quando, por exemplo, sobe a palco para acompanhar combates de wrestling ou ruma até ao campo para tocar em conjunto com o som de máquinas agrícolas em labuta.

Nos alicerces de todos os muitos projectos por que Kimmo se divide – entre os quais o grupo KTU, com membros dos King Crimson, ou Uniko, em que partilha o palco com o Kronos Quartet – está esse caminho a solo, amparado no recurso a uma parafernália tecnológica que não torna o acordeão um instrumento estranho e irreconhecível, mas que permite a Pohjonen criar uma abordagem tão punk quanto jazzística, em que podemos vê-lo como alguém a tentar domar um animal selvagem que teima em escapar-lhe.

É esse músico, esse domador de feras e capaz de puxar para dentro do seu transe infernal plateias inteiras, que este sábado à noite inicia no Teatro-Cine de Torres Vedras uma digressão portuguesa, seguindo depois para o Theatro Circo (Braga, dia 9), o Teatro Tivoli (Lisboa, 11), o Cine-Teatro Avenida (Castelo Branco, 13), o Teatro das Figuras (Faro, 14) e Centro Cultural de Ílhavo (15).

“Este tem sido o meu projecto principal”, explica Kimmo Pohjonen ao PÚBLICO, “porque trabalho nele todos os dias. Tenho projectos com outros músicos, mas sempre que consigo algum tempo livre vou para o meu espaço e crio material novo.” Uma das novas ideias em que tropeçou nos últimos tempos foi a de samplar a sua voz e processá-la para tocar esses fragmentos vocais no acordeão. Essa nova combinação de meios do acordeonista deverá poder ser escutada nos concertos portugueses, uma vez que Kimmo prevê apresentar alguns dos temas que farão parte do seu próximo álbum a solo.

A profusão de projectos em que o músico se encontra envolvido é de tal ordem – destacando-se sempre como principal compositor de serviço em cada um deles –, que custa mesmo a crer que o seu único álbum a solo (Kielo) tenha sido já lançado em 1999. De facto, o instrumento torna-se de tal forma central em todas as formações que integra que é fácil esquecer que há 15 anos, desde que se notabilizou com Kielo, que não grava num registo solitário. “Foram 15 anos a trabalhar no sacana do acordeão! E é por essa razão que vou fazer outro disco a solo.”

No tapete e no campo
Embora não tenha convidado nenhum agricultor a juntar-se-lhe em palco nos concertos portugueses, Kimmo Pohjonen conta recuperar alguma composição de Earth Machine Music (EMM) para esta visita. EMM faz parte de um conjunto de projectos em que Kimmo não quer fechar-se na música. Por muito que a troca de sons com a maquinaria agrícola possa resultar – como aconteceu na Austrália – numa sessão de improvisação para acordeão e tractor, com um tipo a quem o finlandês não conseguiu perceber uma só palavra, EMM é parcialmente motivado pela vontade de encurtar distâncias entre os grandes centros urbanos e as paisagens e povoações rurais. Assim, é Kimmo quem se faz à estrada e tenta convencer os agricultores a trazerem alfaias e debulhadoras para tocarem em conjunto.

Certamente não menos insólito é Accordion Wrestling, empreitada em que Kimmo Pohjonen se resolveu meter quando alguém lhe contou que, em 1920, as lutas na Finlândia eram por vezes acompanhadas ao acordeão, como forma de sublimar a carga dramática e de participar na construção de uma ideia de espectáculo. “Quando ouvi falar disto, desejei ter estado lá e ter assistido. Depois comecei a pesquisar mais e a fazer entrevistas, mas soube logo que não ia fazer nada igual ao que era feito antes.” Isso significa, por exemplo, que o tapete sobre o qual os lutadores se digladiam está amplificado, entrando para as contas do som final, mas também que Kimmo Pohjonen não está numa posição protegida e, a dada altura, leva também o acordeão para o centro da disputa. “Foi por isso que tive de deitar fora a maioria da música que tinha composto para o projecto. Quando comecei a trabalhar com eles, percebi que a música teria de ser preferencialmente composta durante os combates, enquanto assisto aos movimentos e às reacções deles, e quando os sigo e entro na luta. É fisicamente muito esgotante, mas gosto desta ideia de que o acordeão faz parte do meu corpo.”

Cada projecto, defende Kimmo, é como um filho. Quer isto dizer que não pode abandoná-los, mantendo actualmente dez formações diferentes e com as quais tocou pelo menos uma vez em 2014. “Por vezes é duro fazer tudo isto, mas sou um tipo muito impaciente e gosto de estar sempre a saltar de uma coisa para outra.” Mas cada projecto é também, enfim, como uma filha. Por exemplo, o duo que mantém com Saana Pohjonen, baterista e sua filha. O mundo de Kimmo é tão amplo que podemos ouvi-lo com Saana e logo em seguida ao lado do cantor Heikki Laitinen a desfiarem histórias de homicídios. O tipo de coisas sanguinolentas que Kimmo Pohjonen cantava com quatro anos, sem perceber que aquela tradição musical do seu país transformava assassinos em heróis. Como podia, pois, a ‘normalidade’ de Kimmo revelar-se numa música que não fosse tão intensa e retorcida como esta?