Sete mil milhões de vozes à beira do Tejo

Lisboa recebe vídeo-exposição com milhares de depoimentos que reflectem os sentimentos, ideias e aspirações da população do planeta.

Um encontro fortuito entre um fotógrafo francês e um aldeão no Mali, ocorrido há muitos anos, trouxe agora sete mil milhões de pessoas para a beira do Tejo, em Lisboa. Não estão todos lá, mas é como se estivessem.

Basta sentar-se à frente do "mosaico", deixar o tempo passar e ouvir o que têm a dizer as centenas de rostos, dos quatro cantos do globo, que lá estão, registados em vídeo. Falam de tudo: da família e do dinheiro; das alegrias e dos medos; da guerra e da morte; do clima e da natureza, da tristeza e do humor.

E cabe a um português proferir uma sábia ironia: "É bom rir. Sou um bocadinho preguiçoso. Não gosto de trabalhar. Por quê? Porque fazer cara feia implica mexer vários músculos, enquanto rir precisa de poucos". E todos, cada qual na sua quadrícula no mosaico, irrompem em contagiante gargalhada.

O hipnotizante painel é o carro-chefe de uma vídeo-exposição que já percorreu o mundo nos últimos anos e agora chega a Portugal. 7 Mil Milhões de Outros é inaugurada este sábado no Museu da Electricidade, da Fundação EDP.

Não é uma simples exposição, e sim mais uma gigantesca realização de Yann Arthus-Bertrand, o fotógrafo e cinegrafista que ficou mundialmente conhecido sobretudo pelo seu livro A Terra Vista do Céu e pelo filme Home, sobre a saúde do planeta.

Foi numa das suas inúmeras viagens que começou a germinar a ideia do projecto 7 Mil Milhões de Outros. Bertrand estava a realizar uma reportagem no Mali para uma revista francesa, quando o helicóptero em que seguia teve uma avaria. Foi acolhido por um aldeão que partilhou com ele o pouco que tinha. Conversaram durante um dia inteiro. Mais tarde, sentiu que às imagens aéreas da Terra que estava a colher faltava um complemento: a voz dos seus habitantes.

Em 2003, o projecto tomou forma. Bertrand juntou uma equipa de repórteres que, durante anos, percorreu o mundo a filmar depoimentos, baseado num conjunto de 45 perguntas. Foram percorridos 84 países, feitas seis mil entrevistas, em mais de 50 línguas. São cinco mil horas de gravação.

Não só o questionário era o mesmo, como também o enquadramento – planos fechados, sobre fundo neutro, com os entrevistados a conversar directamente para a câmara. O resultado assemelha-se a milhares de fotografias tipo passe, mas animadas.

É um retrato múltiplo dos sentimentos, ideias e aspirações da população do planeta, no qual impressionam tanto as vozes como os rostos. Sentar-se à frente do tal mosaico é como participar desta grande conversa global.

E ouvem-se histórias extraordinárias, como aquela que é contada em francês por um de nós, aparentemente africano, um lenço na cabeça e metade dos dentes a faltar na arcada superior:

"Eram dois homens, um que não tinha braços e o outro, cego. Fomos ter com eles e nos disseram: 'Gostaríamos de trabalhar'. E a minha mulher: 'Mas que trabalho podemos vos dar? Aqui fazemos artesanato. Tu não tens braço!'. E ele: 'Posso trabalhar com os pés. São como as minhas mãos'. 'E tu, és cego! Sabes fazer artesanato?'. E ele disse: 'Posso fazê-lo. Contratem-nos'. E nós… nós acabámos por os aceitar. E eles estão cá. O que não tem braços trabalha muito bem com os pés. E o cego trabalho no escuro, tacteando as peças".

Possivelmente, a história resulta de uma das 45 perguntas: "Considera que todos os homens são iguais?"

Além do mosaico, a exposição dedica várias salas a temas específicos. Há uma para os sonhos de infância. Muitos dizem que quiseram ser pilotos. Um chinês afirma que o que mais desejava era "comer até não ter mais fome".

A pergunta "qual é o seu maior medo?" abriu um leque enorme de respostas em diferentes países: das mulheres e de falta de dinheiro (Sérvia); que a guerra recomece (Camboja); que meu filho case com uma mulher de quem eu não goste (Egipto); das cobras (Tibete); do vulcão (Papua Nova-Guiné); de estar sozinha em casa (Portugal); ou dos demónios (Mali).

Na sala dedicada à pobreza, é instrutivo para qualquer europeu ouvir um pai a descrever como reparte o miserável salário mensal entre a renda da casa e as despesas para garantir que os filhos vão à escola. O que resta dá para um saco de milho e outro de arroz.

Perturbador é o relato impassível e doloroso de um ruandês que participou no brutal genocídio de 1994, em que centenas de milhares de pessoas da etnia Tutsi morreram vítimas dos Hutu: "Durante o genocídio, matei 14 pessoas. Fui para outro lugar e matei três pessoas. Ainda noutro lugar, matei uma pessoa. Matei gente, de três famílias".

Da guerra, uma mulher tchechena recorda o alívio de sair de um abrigo anti-aéreo para se deparar com a lua cheia num momento de acalmia dos bombardeamentos: "Foi sublime. Se houvesse uma oitava maravilha do mundo, seria isso: o silêncio depois da guerra".

Gravar tais depoimentos implicou conquistar a intimidade dos entrevistados. "Às vezes, as pessoas acabam por dizer coisas que nunca tinham dito antes", disse Yann Arthus-Bertrand, numa conferência de imprensa esta quinta-feira, no Museu da Electricidade. É aí que se encaixa esta resposta de uma mulher à pergunta "o que gostaria de mudar na sua vida?": "Faria tudo igual, mas com outro marido".

Uma sala é dedicada aos portugueses. Falam do que é ser português, falam da saudade, falam do mar. Metade são estrangeiros que vivem em Portugal e o tema do racismo é um dos mais salientes. Falam também do passado, do que aprenderam com os pais. Uma mulher já idosa conta como a sua mãe saía de casa de madrugada, sob a luz da lua, e atravessava um pinhal até ao rio, para lavar a roupa e como, enquanto o fazia, deitava algumas lágrimas. "Às vezes dizia-me: 'Filha, quero que tu sejas costureira, porque não quero que vivas sacrificada como eu tenho vivido a vida inteira'".

O filme dos portugueses foi feito pela empresa Projecto Memória, que foi quem trouxe a exposição a Portugal. Segundo a sua fundadora e directora, Sandra Carvalho, a ideia surgiu depois de a exposição ter passado pelo Museu de Arte de São Paulo, em 2011, atraindo 190 mil visitantes. Antes disso, já tinha feito sucesso noutras cidades, desde a versão inaugural em Paris, em 2009, tendo um número recorde de três milhões de visitantes em Xangai, em 2010.

É mais um mega-empreendimento na carreira de Yann Arthus-Bertrand, que nasceu em 1946 em Paris e é hoje, pela via das imagens, uma voz incontornável na defesa do planeta. Aos 20 anos, Bertrand esteve à frente uma reserva natural em França. Aos 30, foi para o Quénia, num projecto para acompanhar, durante três anos, uma família de leões. Tornou-se repórter da natureza e em 1992 aventurou-se no projecto de fotografar a terra do alto, estimulado pelo que tinha visto quando era condutor de balões em África, para completar o orçamento.

Depois do sucesso do seu livro, criou a Fundação Goodplanet, a partir da qual realiza agora os seus projectos. Em curso está um novo, destinado a mostrar porque os seres humanos têm tanta dificuldade em conviver. "Por que continuamos a lutar como animais?", indaga Bertrand. "Para ser um ecologista, é preciso amar as outras pessoas. Não há ecologia sem amor", afirma.

O apelo encontra eco num dos depoimentos mais pragmáticos de toda a exposição: "Você disse a alguma pessoa hoje que a ama? Se não disse, por favor, diga".

Das seis mil vozes no Museu da Electricidade resulta a pergunta que ninguém sabe responder: quantas afinal cabem no planeta. Quando o projecto começou, ainda se chamava "6 Mil Milhões de Outros". Em 2011, teve de passar a "7 Mil Milhões de Outros".

E os números continuam a subir. Enquanto esta reportagem foi escrita, cerca de 41 mil pessoas somaram-se às que cá já estão. Às 20h15 desta quinta-feira, éramos já 7.277.710.933 sobre a Terra.

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