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"Queremos que Portugal participe em grandes torneios"

Simon Jelowitz, que esteve em Portugal em representação da Rugby Europe, admite que no futuro o Mundial passe a ser disputado por 24 selecções

Tem um currículo ao alcance de poucos, no qual se destaca uma colaboração de quase cinco anos com os All Blacks onde desempenhou o cargo de Rugby & High Performance Operations Manager, mas foi na IRB e na FIRA (Rugby Europe) que Simon Jelowitz acumulou experiência como director de alguns dos principais torneios organizados pelos dois organismos. Foi nesse papel que esteve em Portugal, durante o Campeonato da Europa Sub-19 e Torneio de Qualificação para o Europeu de Elite de Sub-18, e o P3 Râguebi aproveitou para abordar algumas questões da actualidade do râguebi internacional.

Portugal voltou a receber o Europeu de Sub-18 e Sub-19. Porque motivo a Rugby Europe repetiu a aposta? Houve várias propostas apresentadas pelas outras federações, mas a Rugby Europe considera que estas são competições muito importantes e como tal procura sempre que o país escolhido respeite as nossas exigências, que passam pela responsabilidade e experiência. Portugal é um país que nos oferece garantias, boas condições, tem experiência e no nosso portfolio essa é a chave para se ser um bom anfitrião.

No próximo ano, Portugal vai organizar o Junior Rugby World Trophy. Será um teste à capacidade portuguesa para uma eventual organização de um grande torneio no futuro?

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Por que não? Seria uma boa pergunta para colocar à federação portuguesa, sobre a sua ambição em receber torneios maiores. Isso acarreta mais patrocínios e um número maior de equipas, logo outro tipo de organização. Mas tenho a certeza de que não há coincidências: Portugal vai receber o Junior World Trophy porque conhecemos a qualidade existe e não há dúvida que existe uma grande vontade portuguesa para organizar esse torneio.

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O torneio de Sub-18 qualificou Portugal para o Europeu de Elite. Por que motivo não há também um Campeonato Europeu de Elite sénior?

Boa pergunta. Há o European Nations Cup, que é o nosso campeonato europeu sénior no râguebi de 15…

Mas o râguebi tem sido um exemplo para o futebol em muitos aspectos, como no uso das tecnologias para auxiliar os árbitros. No entanto, no futebol selecções como Gibraltar ou Andorra podem defrontar todos os anos, por exemplo, a Alemanha, enquanto no râguebi Portugal, Espanha ou Rússia só têm a oportunidade de jogar contra a França ou a Inglaterra se chegarem a uma fase final do Mundial. Considera que isso é bom para o desenvolvimento do râguebi?

Tem tudo a ver com a publicidade. A temporada é longa, há muitas janelas para as federações que têm um calendário a longo prazo, mas esse é um calendário fechado. Dou-lhe o exemplo dos All Blacks, que jogaram contra os Estados Unidos. A AIG é o principal patrocinador dos All Blacks e a razão principal para que o jogo se realizasse foi fazer crescer a marca nos Estados Unidos. Para os norte-americanos será uma excelente oportunidade. Por que não pode Portugal jogar contra a Austrália com frequência? Por a janela ser muito restrita e não haver tempo. Queremos que selecções como Portugal participem em grandes torneios. Mas temos de ser realistas: o que precisamos de explorar é onde podemos trabalhar com os países do Torneio das Seis Nações para que as restantes selecções europeias progridam.

É membro da organização do Inglaterra 2015. Concorda com o formato de 20 equipas?

Sim…

Não seria preferível alargar este número permitindo que o râguebi ganhasse mais visibilidade em mais países?

Todas as selecções têm a oportunidade de se qualificarem para o Campeonato do Mundo. A diferença entre as selecções está a diminuir e o número de jogos em que havia uma grande disparidade de resultados já não acontece tanto. Isso é fantástico, mas acho que neste momento 20 equipas são o número perfeito. Há pouco tempo foi considerada a possibilidade de reduzir a prova para 16 equipas, mas ultimamente a ambição de todos no râguebi de alto nível é para que a IRB aumente esse número. As próximas quatro equipas que entrem lá terão que estar preparadas e para a Rugby Europe e outras associações, o objectivo é, juntamente com a IRB, tentar criar boas competições de um modo regular para que as equipas se preparem para uma possível fase final. O plano estratégico da IRB é, claramente, que as selecções evoluam. Quando olhamos para alguns resultados da história dos Mundiais, percebemos que hoje em dia as equipas se equilibram muito mais. Tonga ganhou à França na Nova Zelândia; Samoa venceu a Austrália há três ou quatro anos. Isso é maravilhoso. A Geórgia e a Roménia também estão muito perto de vencer a Escócia. Acho que de momento 20 é o número certo, mas há que trabalhar para que as equipas melhorem a sua performance e se possa aumentar esse número.

Todos os anos a selecção portuguesa depara-se com o problema de os clubes franceses, principalmente da Pro D2 e Fédérale, que chantageiam os jogadores para com que eles não joguem por Portugal. O Rugby Europe está consciente disso? O que pode ser feito para evitar que isso aconteça?

Toda a gente está alarmada para esse problema. Em última análise, pretendemos garantir que os regulamentos são cumpridos. Acho que a IRB tem feito um trabalho importante para que isso aconteça junto dos clubes e das federações. Continua a ser um problema? Sim, mas a IRB está a trabalhar nisso.

Trabalhou com os All Blacks. O que os torna um sucesso tão grande que os faz ultrapassar os limites do próprio râguebi?

Nunca estão satisfeitos com o que são. Nunca! Percebi isso quando, em Abril de 2007, cheguei lá. Seis meses depois, em Cardiff, perderam contra a França nos quartos-de-final do Mundial e foi um choque cultural para mim: todas as pessoas fecharam-se em casa na manhã seguinte. Eles comem, dormem e respiram râguebi. Em Portugal vais à praia ou a um parque e toda a gente joga futebol. No Brasil ou em Inglaterra é igual. Na Nova Zelândia não se vêem muitos jogadores de futebol. Eles nascem com uma bola de râguebi nas mãos e tudo gira em torno disso. Os jogadores dos All Blacks são contratados e os clubes nas províncias, na ITM Cup e no Super Rugby trabalham em conjunto. Na Nova Zelândia todos trabalham para que os All Blacks saiam sempre fortalecidos, para que continuem a ser uma equipa ganhadora. Tudo é feito para tentar desenvolver jogadores com um fim: poderem jogar pelos All Blacks. E depois nunca estão satisfeitos com o nível onde estão, porque pensam sempre que se estão num determinado ponto, alguém poderá melhorar e chegar lá.