“Escassez de recursos humanos” está a condicionar actividade do INE

Publicação dos dados mensais do desemprego é um dos projectos previstos para 2014 que está por concluir devido à falta de pessoal.

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INE tem vindo a perder trabalhadores nos últimos anos. Gonçalo Santos

A intenção de divulgar, ainda este ano, as estatísticas mensais do desemprego não foi abandonada, mas o Instituto Nacional de Estatística (INE) reconhece que o projecto “é vítima” da “escassez de recursos humanos”, que tem dificultado a concretização do seu plano de actividades para 2014. Fonte oficial do INE alerta que, “num cenário de escassez de recursos humanos e de contínua deterioração desse cenário”, tem sido dada prioridade às “actividades essenciais e compromissos nacionais, sendo já hoje difícil assegurar o plano de actividades”.

No plano que apresentou no início do ano, o instituto propôs-se, entre outros aspectos, a desenvolver “estudos de viabilidade relativos à produção de taxas mensais de desemprego”. O INE nunca apontou uma data concreta para a publicação destes dados, que serão complementares às estatísticas trimestrais, referindo apenas que isso nunca poderia ocorrer antes de Maio “devido aos trabalhos associados à revisão da série intercensitária das estimativas da população residente, fundamentais para as estimativas do Inquérito ao Emprego”.

Questionada pelo PÚBLICO sobre se mantém a intenção de divulgar as estatísticas mensais, fonte oficial do INE garante que “vai divulgar este ano as primeiras estimativas mensais do Inquérito ao Emprego” e que “oportunamente será anunciada a data exacta”.

Embora se recuse a falar em atrasos, a mesma fonte justifica que a prioridade tem sido dada a “actividades essenciais e os compromissos nacionais, sendo já hoje difícil assegurar o plano de actividades”. “Neste contexto, é compreensível que os estudos e actividades menos prioritárias funcionem como a almofada de ajustamento”, refere fonte do gabinete de comunicação do INE, acrescentando que “o projecto não está abandonado, mas é vítima do contexto de recursos escassos”.

Esta não é a primeira vez que o INE alerta para a falta de meios. Em Janeiro, o Conselho Superior de Estatística alertava que a redução do orçamento do instituto punha em causa a sua actividade e comportava riscos “gravosos para a credibilidade do país, do sistema estatístico e do próprio INE”. O órgão que coordena o sistema estatístico nacional, que tem na vice-presidência a responsável pelo INE, Alda Carvalho, chamava a atenção para o volume de informação que seria necessário tratar, nomeadamente com a adopção do novo Sistema Europeu de Contas nacionais e regionais.

Já em Outubro, a presidente do INE dizia à TSF que tinha dificuldades em travar a saída de pessoas para outros organismos públicos com condições remuneratórias mais atractivas, mas que nenhum trabalho tinha ficado por fazer por causa da falta de recursos humanos.

Nos últimos anos, o INE tem vindo perder recursos humanos. Em 2009, o quadro de pessoal tinha 905 trabalhadores, número que em 2013 caiu para 666.

No relatório de actividades do instituto relativo a 2013, dava-se conta de uma execução global das actividades de 93%, “utilizando um volume de efectivos inferior em 3,1% ao planeado e realizando uma despesa efectiva inferior em cerca de 3,5% à dotação planeada”.

Dados trimestrais divulgados nesta quarta-feira
A divulgação mensal dos dados do desemprego será complementar ao inquérito trimestral. Os dados de Julho a Setembro serão divulgados nesta quarta-feira e se a tendência do segundo trimestre se mantiver, é expectável uma redução da taxa de desemprego para valores inferiores aos 13,9% apurados entre Abril e Junho. Os últimos dados do Eurostat dão conta de uma taxa de desemprego de 13,6% em Setembro.

Analistas contactados pela Lusa esperam uma queda ligeira da taxa. A economista do departamento de Estudos Económicos e Financeiros do banco BPI, Paula Carvalho, aponta para 13,8%, destacando a melhoria no mercado de trabalho e o aumento do emprego, mas também "o recuo da população activa", motivado por "movimentos migratórios".

O presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros, Filipe Garcia, antecipa "mais uma descida" na taxa de desemprego, que, justifica, "decorre do contexto de crescimento ligeiro da economia e da melhoria na confiança dos agentes económicos".

O Governo conta chegar ao final do ano com uma taxa de desemprego de 14,2%, enquanto as previsões da Comissão Europeia divulgadas nesta terça-feira apontam para 14,5% e as da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) para 14,1%. Em 2015, o desemprego deverá atingir 13,5% da população activa, na perspectiva do executivo, enquanto Bruxelas prevê uma taxa de 13,6% e a organização liderada por Angel Gurría para 13,3%.

Notícia corrigida às 11h02 Responsável do INE que integra Conselho Superior de Estatística chama-se Alda Carvalho e não Alda Macedo