Passos adverte que Portugal pode regressar a “alta velocidade” de 2010

Primeiro-ministro classificou como “paroquialismo” ausência da oposição na condecoração de Durão Barroso.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Passos Coelho advertiu esta segunda-feira à noite que o trabalho do Governo ainda não acaba nas legislativas de 2015 e que, se “outros” vierem, Portugal corre o risco de regressar de “alta velocidade” a 2010. O primeiro-ministro e líder do PSD falava numa iniciativa do PSD sobre Orçamento do Estado, num hotel, em Lisboa, que não teve direito a perguntas dos participantes ao contrário da informação inicialmente dada pelo partido.

Na sua intervenção, perante uma sala que demorou a compor-se, Passos Coelho lamentou que a oposição – sem se referir directamente ao PS – nunca colaborou com o Governo para atingir os “resultados” de agora. “Estaríamos hoje mais confortáveis se o esforço fosse de todos. Não tenho prazer em dizer que alcançamos estes resultados apesar, apesar da oposição”, disse Passos Coelho. Quanto ao futuro, Passos Coelho não dá a tarefa do Governo como acabada. “Podíamos dizer: a nossa missão foi cumprida, tirámos o país do resgate, tirámos o país do défice excessivo, venham outros, nós acabámos o nosso trabalho, este nosso trabalho está acabado. E ainda bem que não está, regressaríamos a alta velocidade, alta velocidade, como se lembram, aos tempos de 2010 e de 2011”, disse, numa alusão ao TGV, defendido pelo governo socialista de José Sócrates. O aviso recebeu uma salva de palmas. 

Mais uma vez, Passos Coelho reiterou o seu anti-eleitoralismo, mas recuando até Sócrates novamente. “A proposta de Orçamento do Estado é responsável, não é por ser ano de eleições que vamos prometer tudo a toda a gente, foi assim em 2009”, afirmou, deixando um compromisso. “Apesar de todas as profecias e previsões que possam aparecer que lancem dúvidas sobre essa matéria, garanto-vos: o Governo nunca deixará de adoptar uma estratégia que permita a Portugal sair em 2015 do défice excessivo”. Um objectivo (que se concretiza em fixar um défice abaixo dos 3%) que considerou ser um “ponto de honra”. O défice para 2015 estava previsto fixar-se em 2,5% do PIB e foi depois revisto em alta para 2,7%, valor esse que está estabelecido no Orçamento do Estado.

Logo no início da sua intervenção de 47 minutos, o líder dos sociais-democratas deixou um elogio à mobilização do partido e mais um recado aos que fazem opinião. “Por vezes aparecerem umas vozes dissonantes que acabam por ter mais eco na opinião pública ou na opinião publicada, do que milhares de apoiantes”, afirmou, considerando que o trabalho dos apoiantes “funciona como estímulo redobrado” e vem daqueles que “sem buscar qualquer notoriedade pública apoiam o que o Governo tem feito.  

Nesta sua exposição de prestar contas sobre o trabalho feito, Passos Coelho voltou a sublinhar a redução da despesa pública. “Temos menos despesa pública total, primaria (sem os juros), temos menos despesa pública primária corrente (se excluirmos despesas de investimentos além dos juros). Quer isto dizer qualquer que seja o prisma para que olharmos para a despesa pública, descemos”, afirmou, depois de há duas semanas ter criticado os comentadores e jornalistas por não reconhecerem a redução da despesa do Estado.

Outra crítica que refutou foi a de anunciar “viragens” da economia desde 2012 e sem resultados. Passos rejeita essa acusação: “Aconteceu em 2013. Tal como eu tinha dito no Pontal em [Agosto] 2012. Essa inversão não se deu no segundo trimestre, como chegámos a pensar, mas no primeiro trimestre”.

Foi uma intervenção de balanço mas também cheia de recados para a oposição. Até sobre a condecoração do Presidente da Comissão Europeia cessante, Durão Barroso, nesta segunda-feira, pelo Presidente da República e em que faltaram os representantes dos partidos da oposição. “Isto mostra o paroquialismo para não dizer outra coisa na sociedade política”, apontou.

Sem se referir directamente ao Bloco de Esquerda, Passos criticou o pedido de auditoria às estatísticas do desemprego solicitado por aquele partido: “Agora sugerem que os números são trabalhados para ter bom aspecto. É uma atitude típica, sempre que a realidade não está de acordo com o que desejam, querem adaptar a realidade.”

Passos Coelho falou depois de uma intervenção mais técnica do secretário de Estado do Orçamento, Manuel Rodrigues, de apresentação das principais linhas do Orçamento do Estado, incluídas numa brochura distribuída aos militantes e jornalistas. Nesta sessão não houve direito a perguntas por parte dos militantes ao contrário do que o partido tinha informado. Só nas outras sessões que decorrerão ao longo desta semana, com membros do Governo e do partido, para explicar o Orçamento do Estado para 2015.