Condecoração de Cavaco significa que Durão estava "certo" quando se demitiu em 2004

Presidente distinguiu a “natureza extraordinária” do contributo do agora ex-presidente da Comissão Europeia, que "muito beneficiou" o país, com a Ordem do Infante Dom Henrique.

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Durão Barroso recebeu de Cavaco Silva o colar da Ordem do Infante Dom Henrique Miguel Manso
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Foi com uma colecção de “rasgados elogios” que o Presidente da República condecorou nesta segunda-feira Durão Barroso pelos dez anos de trabalho desenvolvido na presidência da Comissão Europeia.

Cavaco Silva não poupou nos adjectivos e Durão Barroso respondeu com “emoção” à “generosidade” das palavras do chefe de Estado. E com um assinalável balanço, passados dez anos: “Foi correcta a decisão que tive que tomar em 2004”. Durão Barroso referia-se assim ao pedido de demissão de primeiro-ministro que então dirigiu ao Presidente Jorge Sampaio antes de rumar a Bruxelas.

A cerimónia de atribuição do colar da Ordem Infante Dom Henrique justifica-se porque “mobilizou apoios”, “abriu portas”, contribuiu para o “desenvolvimento” económico e social da nação.

A entrega da condecoração, que durou pouco mais de 30 minutos, no Palácio de Belém, em Lisboa, teve na primeira fila o primeiro-ministro, vários membros do Governo – com o CDS em peso - , a família de Durão Barroso e alguns convidados, como Manuela Ferreira Leite.

Cavaco Silva, de gravata azul clara e fato azul-escuro, justificou elevada condecoração do Estado português com o trabalho desenvolvido por Durão Barroso na União Europeia. Uma tarefa, ao longo de dez anos, que “muito ajudou Portugal”.

“Uma justíssima homenagem” ao cidadão português que ocupou o “cargo internacional mais elevado alguma vez exercido por um português”, afirmou Cavaco Silva. “No Portugal contemporâneo não encontramos outro político português que tenha obtido tão grande relevo e influência na cena internacional”, completou o Presidente.

Cavaco Silva, além de ter testemunhado “rasgados elogios” feitos a Durão Barroso nos contactos que teve enquanto Presidente da República, acompanhou de perto o seu trabalho e “o papel decisivo” que teve, nomeadamente, nas crises económicas que a Europa enfrentou na última década.

Antes de Durão Barroso, igualmente de fato azul-escuro e gravata a condizer, ter tido oportunidade de agradecer a homenagem, Cavaco Silva ainda sublinhou várias vezes o “contributo” dado por Durão, esse “grande impulsionador do modelo de governação” da União Europeia. “Portugal muito beneficiou de ter à frente da Comissão Europeia um português, conhecedor da realidade portuguesa, conhecedor do mundo e com o prestígio de Durão Barroso”, disse, não sem acrescentar que teve sempre uma “cuidadosa atenção” aos problemas do país. 

A “natureza extraordinária e a relevância dos serviços prestados” a Portugal é tão assinalável, que o Presidente deseja que outros cidadãos sigam as pegadas do agora ex-presidente da Comissão Europeia: “Faço votos para que, no futuro, outros portugueses possam ajudar tanto Portugal como fez o dr. Durão Barroso”, terminou o Presidente.

E foi com embargo na voz e “emoção” que Durão Barroso respondeu à colecção de elogios dirigida pelo Presidente. “Faltam-me as palavras para dizer como me sensibiliza o seu gesto e as palavras generosas que acabou de proferir”, começou por afirmar. A frase mais política da sua intervenção viria passados uns minutos, quando afirmou que a distinção recebida significa o “reconhecimento” do seu país: “E também que foi correcta a decisão que tive que tomar em 2004". Durão referia-se assim ao pedido de demissão do cargo de primeiro-ministro que então dirigiu ao Presidente Jorge Sampaio antes de rumar à presidência da Comissão Europeia.

Foi também em Belém, e sob o olhar atento do primeiro-ministro, embora sem a presença do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas – que está em viagem oficial a Cuba – que Durão defendeu “mais investimento privado mas também público para resolver o maior problema, que é o desemprego”.

“A questão social e do desemprego é, sem dúvida, a mais grave que a Europa enfrenta”, afirmou, não sem defender que não se pode pedir à União Europeia que resolva os problemas que são da competência dos Estados-membros. 

Durão dissertou depois sobre a década que passou em Bruxelas, considerando que se tratou de “um desafio excepcional” entre a crise das dívidas soberanas, o alargamento de 15 para 28 Estados-membros, mas também uma crise “económica, social e política de confiança dos cidadãos no projecto europeu". E referiu o que considerou ser o seu legado de uma década europeia: “Esteve sempre em mim, ao longo destes dez anos, a convicção que estava também a executar um programa português (…) Defendi o interesse de Portugal porque não via nele qualquer contradição com o interesse europeu”.