“A América e a Rússia só querem saber dos seus próprios interesses na Síria”

O patriarca Gregorios III diz que “Assad matou pessoas por causa da situação” e que a paz só não chega "porque falta um consenso" entre os grandes poderes.

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Gregorios III diz que “Assad matou pessoas por causa da situação” e que “guerra é guerra” Miguel Manso

Gregorios III Laham, patriarca da Igreja Católica Grego-Melquita do Oriente, não acredita numa vitória das armas que ponha fim ao conflito na Síria – e também não vê um futuro sem Bashar al-Assad. Para o religioso, em Portugal a convite da AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) e que este domingo celebra a eucaristia na Sé Patriarcal de Lisboa, a solução passa por um consenso entre os grandes poderes. “Os Estados Unidos, a Rússia e a China têm de conversar e de encontrar uma solução. Se isso acontecer o futuro da Síria vai ser bom.”

Ao contrário de outros líderes cristãos e católicos, o bispo de Damasco não responsabiliza Assad pela escalada de violência nem acredita que no seu país tenha chegado alguma vez a existir uma revolução, muito menos pacífica. Sobre Deraa, a cidade do Sul onde tiveram lugar as primeiras manifestações contra o regime, depois de um grupo de miúdos ter sido detido por escrever uma frase anti-Assad nas paredes da escola, diz que tudo o que se disse “são falsificações”.

“Todas as esquadras desde Deraa até Habab, a casa da minha mãe, o berço da cristandade, a sul de Damasco, foram atacadas pela oposição. E os polícias receberam ordens para saírem sem armas durante muitos meses. Eu sei isso, temos cristãos na polícia e nas esquadras. Não me falem em manifestações pacíficas”, disse ao PÚBLICO, numa entrevista antes de uma conferência sobre a violência que os cristãos têm sofrido às mãos dos grupos extremistas que chegaram à Síria nos últimos anos — e que agora atacam também no Iraque, matando muitos membros de minorias religiosas, mas também muçulmanos xiitas ou sunitas que se opõem à sua visão fundamentalista.

Gregorios III diz que “Assad matou pessoas por causa da situação” e que “guerra é guerra” — “na guerra morrem pessoas” — e acusa “a chamada oposição” de provocar a morte de civis ao usar os centros de cidades como Homs para se entrincheirar.

Um exemplo: “Eu sou de Daraya e o meu seminário foi destruído. Um estrangeiro alugou uma casa ao lado e essa casa tornou-se num armazém para armas. O que é que o Governo podia fazer? Veio e destruiu o meu seminário e a casa. O padre era como um tio para mim. Mas o que é que o Governo podia fazer?”, interroga.

Daraya foi o cenário de um dos massacres do conflito. Em Agosto de 2012, grupos da oposição e organizações humanitárias denunciaram a morte de mais 400 pessoas, a maioria civis, às mãos de milícias pró-governamentais — há imagens das valas comuns. Como em tantos outros casos nessa altura, em zonas hostis ao Governo, primeiro o Exército cercou e bombardeou a cidade, a seguir os milicianos capturaram as pessoas casa a casa.

Os crimes dos rebeldes
“O Exército é poderoso, se ele queria matar porque é que não o fez antes, em 2005 ou 2006? Por que é que esperou por 2011 e 2012? Porque nós também perdemos muita gente. E as pessoas que foram raptadas, mortas com ácido e lançadas aos rios. Todas estas atrocidades, sobre essas não se fala?”, diz, denunciando crimes de grupos de rebeldes. “Quando um general é morto, o que é que os soldados podem fazer, é o pai deles. Guerra é guerra. Não podemos julgar Assad por estes anos. Temos de o julgar pelo que fez entre 2001 e 2011. O que é que ele fez? Éramos felizes.”

O religioso também não acredita numa democracia maior do que a que havia até 2011. “Tínhamos um tipo de democracia e liberdades e podemos continuar a ter, mais na Síria do que em países como a Arábia Saudita, estamos habituados. Durante anos e anos tivéssemos isso, não era perfeito mas era suficiente”, defende. A democracia, diz, também não é o que preocupa países como a França ou os EUA, que passaram anos a dizer que Assad estava condenado. “Os países mais poderosos do mundo, passaram três anos, como é que podemos acreditar no que dizem?”.

“Temos a influência do [Partido] Baas há 40 anos, como é que podemos mudar isso em dois dias?”, afirma Gregorios III. “Sem o poder actual, as tragédias seriam maiores, seria o caos, haveria genocídios. Não estou a elogiar Assad, mas ele é um bom homem, talvez não tenha as melhores pessoas à sua volta, mas é um bom homem. E a Síria é a Síria, a Jordânia é a Jordânia, não é uma democracia.”

“O que temos de ver é que pelas armas não se muda nada. São fáceis de conseguir, mas não levam a solução nenhuma”, sublinha. “É irresponsável que os grandes países pensem que vão resolver esta situação com armas, é uma tontice”, diz. “Se a América e a Rússia já tivessem alcançado algum acordo que preservasse os seus interesses estaria tudo bem”, acredita. “A paz não chega porque falta esse consenso. A América e a Rússia não querem saber de democracia na Síria.”

Uma igreja aberta
No terreno, o patriarca pensa que a situação está a melhorar, com muitas famílias a regressarem a zonas antes em guerra, como Homs, Maaloula ou Qusair, com grandes comunidades cristãs. O Governo lançou programas para ajudar, comparticipando 25 a 30% da reconstrução das casas.

A sua igreja faz o que pode, apesar de a prioridade ser a ajuda básica, alimentos e medicamentos, que distribui a 8000 famílias, na maioria cristãs mas não só, enquanto tenta começar a reconstruir as quase 100 igrejas destruídas pelo país.

Para o futuro, Gregorios III quer lançar “pequenos projecto para dar trabalho às pessoas, para lhes dar alegria e rendimentos”. “Na mesma linha, estou a pensar numa cadeia de clubes para ajudar as pessoas traumatizadas, principalmente as crianças, os mais novos. Estamos à procura de modelos para tentar criar estes centros nas paróquias”, diz, explicando que serão sempre abertos a todos. “No Médio Oriente é muito raro haver projectos só para cristãos, os muçulmanos sentem-se muito atraídos pela boa atmosfera que proporcionamos. É a nossa tradição muito aberta”.