A arquitectura confortável de Alcino Soutinho

Exposição biográfica retrospectiva ocupa três espaços portuenses: Galeria da Fundação EDP, Casa-Museu Guerra Junqueiro e edifício BPI. Até 30 de Novembro.

Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Museu Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante Luís Ferreira Alves
Fotogaleria
Museu do Neo-realismo, Vila Franca de Xira
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda

A exposição Alcino Soutinho – Realismo confortável, que quinta-feira abriu em três espaços da cidade do Porto, revisita a obra deste arquitecto da Escola do Porto, desaparecido há menos de um ano. O comissário, Roberto Cremascoli, justifica o título por achar que os conceitos de realismo e de conforto casam bem com a figura de Soutinho.

“Gostei de associar as duas palavras, e tinha também na cabeça a ideia do realismo mágico, que, de algum modo, o arquitecto conseguiu traduzir na sua obra”, acrescenta o arquitecto e curador italiano. Alcino Soutinho (1930-2013) “era uma pessoa que punha toda a gente confortável, era a sua maneira de ser e de estar, e fazia-o com uma aura muito especial”, diz Cremascoli.

O italiano, que vive no Porto desde que em 1991 chegou à cidade para estudar arquitectura, é o autor do volume dedicado a Alcino Soutinho que, em Novembro do ano passado, abriu a segunda série da colecção Arquitectos Portugueses, lançada pelo PÚBLICO – e que saiu uma semana antes da morte do arquitecto da Câmara de Matosinhos, acontecida no dia 24 desse mês.

O índice do livro serviu também de guião para a presente exposição, que se desdobra entre a galeria da Fundação EDP, onde se encontra o núcleo relativo à sua produção arquitectónica e biografia; o edifício BPI, na Avenida da Boavista, em cujo átrio estão expostos a maqueta e os desenhos desta obra iconográfica da sua produção dos anos 1990; e a Casa-Museu Guerra Junqueiro, restaurada e ampliada sobre um edifício inacabado de Nicolau Nasoni.

Alcino Soutinho – Realismo confortável é organizada em sete etapas cronológicas e temáticas. Abre, na EDP, com documentação e iconografia relativa a momentos marcantes na viragem dos anos 50/60. O primeiro é o projecto que, em 1957, Soutinho apresentou ao Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitecto (CODA), um Museu de Artes Populares a instalar no Porto, na zona do Campo Alegre, e que lhe valeu a classificação de 20 valores na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP).

O referido museu nunca chegou a sair do papel, mas o projecto valeu-lhe uma bolsa de estudo da Gulbenkian, em 1961, que Soutinho usou para ir estudar museologia em Itália – o extenso relatório que fez no final da bolsa, a partir de visitas a museus de Milão, Turim, Veneza e outras terras do norte do país, é agora mostrado ao público pela primeira vez.

Elegante e bem vestido…
A experiência italiana mostrar-se-ia marcante na carreira de Soutinho, não porque ele viesse a realizar muitos museus – limitou-se à citada Casa-Museu Guerra Junqueiro e ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, além de ter realizado um projecto para Itália, que não chegou a avançar –, mas porque aí contactou com grandes arquitectos, como Quaroni, Carlo Scarpa, Franco Albini ou Ignazio Gardella.

Num depoimento gravado para esta exposição, Álvaro Siza, colega na ESBAP e “um grande amigo pela vida fora”, diz que quando regressou ao Porto Soutinho “vinha elegante, bem vestido, italiano…”, imagem que cultivaria toda a sua vida.

A dimensão mais política da biografia e a actividade de resistente ao governo do Estado Novo estão documentados com fotografias e notícias do julgamento pela PIDE e prisão, em 1957 – o ano da licenciatura na ESBAP –, quando, com meia centena de outros jovens, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática Juvenil e Defensor da Paz.

Na década seguinte, Soutinho torna-se arquitecto das Caixas de Previdência, com actividades no terreno em localidades como Ovar, Régua, Amarante, Santo Tirso, Bragança… Uma experiência que vai depois transportar para o histórico processo SAAL (actualmente evocado numa exposição no Museu de Serralves), onde dirigiu, com Manuel Mendes, as obras no bairro portuense da Maceda, em Campanhã.

“Todos passámos pelo SAAL com grande empenho profissional”, realça Siza, lembrando, contudo, que Soutinho chegava aí já com “uma grande experiência” de trabalhar a habitação social. Duas grandes plantas da época documentam o projecto para Campanhã.

Também nos anos 70, Soutinho transforma o antigo castelo de Vila Nova de Cerveira na Pousada D. Diniz, que lhe garantirá, na década seguinte, o Prémio Europa Nostra. O diploma desta distinção e os desenhos a lápis dos quartos e outros espaços interiores da unidade hoteleira são mostrados na galeria, bem como um vídeo sobre a obra. De resto, no total, a exposição contém oito filmes documentais, três dos quais com depoimentos de Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, além do de Siza. São figuras que integraram o grupo de arquitectos que, com as famílias respectivas, todos os anos viajavam ao encontro das arquitecturas pelo mundo fora – e há várias fotografias a registar essas aventuras.

Em paralelo com esta documentação e iconografia mais familiar e afectiva, no piso inferior da galeria EDP destacam-se os desenhos e plantas para a Câmara Municipal de Matosinhos, a sua obra mais conhecida. Siza realça o facto de não se tratar apenas dos paços do concelho, mas também da galeria e biblioteca municipal, e ainda um auditório, que espera ainda ver construído. “É um conjunto que faz cidade”, diz Siza, destacando também a importância que este projecto teve numa altura em que a prática e o debate arquitectónico se faziam entre o movimento pós-moderno e aqueles que defendiam um processo de continuidade.

Roberto Cremascoli – que foi aluno de Soutinho mas nunca trabalhou com ele, tendo, no entanto, integrado o atelier de Siza – concorda que a Câmara de Matosinhos é o seu projecto mais iconográfico. “É a obra da liberdade; é importante porque não existem espaços ocultos, as pessoas entram e saem pelas portas do rés-do-chão, vão até à sala da assembleia, ao salão nobre; há uma circulação livre”.

Mas o curador italiano considera que a obra mais representativa da arte de Soutinho é o Museu Amadeo de Souza-Cardoso. “É aí que se concentra toda a sensibilidade dele”, diz, lembrando tratar-se de um antigo convento – de São Gonçalo –, onde o arquitecto repõe a estrutura original de três pátios e acrescenta um novo corpo que não interfere com o edificado. “É uma atitude que ele aprende em Itália, a relação entre o novo e o antigo, que nunca é de antagonismo, o novo nunca é agressivo em relação ao antigo, mas convive com ele”, realça Cremascoli.

No piso inferior da galeria, dois recantos são utilizados para pôr em relevo duas outras dimensões da obra de Soutinho: o pintor e o designer. Há uma “confortável sala de estar” com o mobiliário que o arquitecto desenhava para as suas obras. E há também uma “sala de desenho”, De lápis na mão (título do texto do livro da colecção Arquitectos Portugueses) – e Siza lembra também que “Soutinho podia ter sido um pintor de grande qualidade, sobretudo na aguarela, onde se nota a influência do neo-realismo” –, onde se expõem vários quadros que foi pintando ao longo dos anos. É uma pequena amostra de uma colecção mais vasta, que está exposta na Casa-Museu Guerra Junqueiro.

“Aqui, quis de algum modo repor o projecto original de Soutinho, que era uma galeria destinada às artes decorativas”, explica Cremascoli.

No programa paralelo à exposição, haverá, a 22 de Novembro, uma visita ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, guiada por António Cardoso; no dia 24 – quando passa o primeiro aniversário da morte –, o edifício BPI será palco de uma homenagem.

Alcino Soutinho – Realismo confortável, nas suas três vertentes, está aberto até 30 de Novembro.