Entrevista

O Maio português de Patxi

Basco nascido em Madrid, Patxi Andión mantém laços com Portugal há 45 anos: lança agora o primeiro disco ao vivo da sua carreira, Cuatro Días de Mayo, gravado em palcos portugueses, e está de volta para seis concertos em solo absoluto.

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Cantou pela primeira vez em Portugal em 1969 (no programa Zip-Zip, na RTP). E subiu ao palco do Coliseu de Lisboa num concerto histórico a 24 de Março de 1974, depois de ter sido “devolvido” à fronteira por três vezes pela PIDE. Desde então, foi estreitando laços com o país. De tal modo que o primeiro disco ao vivo da carreira de Patxi Andión, basco nascido em Madrid em 1947, foi gravado em Portugal, em 2011 e chega agora às lojas nacionais: Cuatro Días de Mayo.

Na mesma altura em que, em Espanha, lança o livro Breverías. O disco, soberbamente gravado, inclui uma canção em euskera,  língua basca (do poeta José María Iparraguirre, 1820-1881) e um fado de António dos Santos. A par do disco, Patxi percorrerá de novo Portugal, mas agora em solo absoluto, só voz e guitarra. Hoje, dia 31, actuará em Setúbal, no Luísa Todi. Seguem-se Coimbra (1), Portimão (2) e três concertos no âmbito do Misty Fest: Lisboa, S. Jorge (5), Vila do Conde (7) e Aveiro (8).

Nasceu em Madrid e foi levado para o País Basco, terra dos seus pais, ainda bebé? Ou foi o contrário? É que circulam as duas versões…
Nasci em Madrid e aos 16 dias fui levado para um casario que fica entre Azpeitia e Azkoitia, no País Basco. A família do meu pai, de onde herdei o apelido Andión, vem da cidade de Medigorría, na zona das três fronteiras: de Navarra com Álava e La Rioja. E a da minha mãe é de Álava, Vitória. Ele tinha saído da prisão [era preso político] em Janeiro de 1947 e eu nasci a 6 de Outubro do mesmo ano, como resultado dessa libertação. O meu pai não podia sair de Madrid, tinha que se apresentar na polícia regularmente. Levaram-me para o País Basco, para junto de pessoas de família e ainda comecei lá a escola. Mas aos 7 anos voltei para Madrid.

É em Madrid que frequenta o tal colégio onde, segundo escreveu, nasceram os seus “primeiros pensamentos de consciência de classe” e os seus “primeiros ódios”?
Sim, foi em Madrid. Era um colégio nacional, do Estado, muito pobre, onde caía água nas salas, no Inverno. Para mim a escola sempre foi muito stressante. Quando terminei os estudos, fui falar com o director para saber se devia seguir engenharia civil e ele não achou boa ideia. Porque eu passei mesmo à justa. Mas quando fui para a Universidade isso mudou. Comecei a ter boas notas e a ir para o quadro de honra.

O seu pai queria que fosse engenheiro?
A minha família paterna era de engenheiros, mas ele não se bateu por isso. Claro que ficou muito feliz quando comecei a estudar engenharia e foi muito complicado para ele quando eu a abandonei. Porque o que eu queria mesmo, desde pequenino, era música. Aos 7 anos, já dizia que queria ir para o Conservatório. Porque a minha mãe cantava extremamente bem, a minha avó materna foi soprano e cantou no Teatro Real de Madrid, e em Barcelona, e um primo do lado materno era Jacinto Guerrero [1895-1951], um grande compositor de ópera clássica. O meu pai chegou a lamentar, mais tarde, não me ter enviado para o Conservatório. Possivelmente, seria hoje sétimo violinista na Orquestra de Granada, ou coisa assim.

Como é que foi parar, depois, a um bacalhoeiro antes de aportar a Paris, em 1968?
Conheci, desde a infância, em duas povoações de pescadores, gente muito combativa, muito dura. Nessa altura, um amigo de escola que era patrão de um barco aceitou-me a bordo porque eu pensei que gostava daquilo. Enganei-me, a experiência foi terrível. Quinze, dezassete dias. Enjoei no mar. A seguir fui para Paris, porque nessa altura estava ligado a um grupo político revolucionário, a FRAP [Frente Revolucionária Antifascista e Patriótica].

Foi para Paris recuado, andava procurado pela polícia?
Eu estava a começar na música, não tinha responsabilidades armadas. Mas lembro-me de ir ao cinema com uma jovem, andávamos juntos, e de ver reflectida a luz azul das sirenes da polícia nos mosaicos da escada do metro, à saída. Era a brigada, que andava a fazer detenções. Passei dias sem ir a casa até que decidi sair de Espanha. Clandestinamente, até Paris.

No princípio foi desesperante, não?
Muito complicado. Arranjaram-me um visto de refugiado político, mas os franceses olhavam-nos, a nós e aos portugueses, como depois vieram a olhar os negros. Na altura, os negros éramos nós. Dormíamos em apartamentos por turnos de oito horas. Um tipo dormia da meia-noite às 8 da manhã, nessa altura entrava outro e às 4 da tarde outro. Eu passava todo o dia em Paris, deambulando, a fazer horas para ir dormir. Um dia recolhi-me numa igreja, eu que sou ateu, para me abrigar do frio. Foi numa missa cantada que durou duas horas. Valeu pelo calor e pela música, que na verdade era muito boa…

Foi depois disso que arranjou um lugar onde cantar?
Um dia passei por uma porta pequenina com um cartaz que dizia “La Candelária, Música Latino-americana e Espanhola”. Espreitei, entrei, era um sítio muito escuro, com gente nas mesas e um tipo que tocava guitarra. Uma empregada pequenina, magra, com o cabelo cinzento cortado à garçonne, olhou para mim e circulou. Olhou segunda, terceira vez, e eu pensei que ela queria dizer: ‘sai fora’. À quarta, trouxe-me um prato de comida. E depois começou a falar: quem era eu, o que fazia ali. Ela era de Cantábria. Quando soube que eu era basco, disse-me que o proprietário também era. E apresentou-nos. Ele disse-me: “Falas euskera? Ainda bem. Porque eu quase não falo e a minha mãe, que é muito velhinha, só fala euskera. Podes vir amanhã para falar com a minha mãe?”

Aprendeu euskera nos anos em que esteve no País Basco? Em casa falavam euskera?
Não, falávamos castelhano. Aprendi na escola e no bairro. Não falo extraordinariamente bem, mas dava para conversar com a senhora. Um dia, começámos a falar, eu e o filho dela, e só então ele percebeu que eu fazia canções. E comecei a cantar na Candelária.

Quanto tempo ficou em Paris? Ainda apanhou o Maio de 68…
Fiquei até Julho de 1968. Para nós, refugiados políticos, foi horrível, porque a última coisa que precisávamos era que a polícia andasse desinquieta.

Ser revolucionário para estar a ver as revoluções dos outros é incómodo, não?
Além do mais quando se pensa, como nós na altura, que não era uma verdadeira revolução, era uma coisa burguesa. A imaginação ao poder? Não, as armas ao poder!

Quando sai, volta directamente para Madrid?
Eu já tocava em três ou quatro sítios diferentes. À Candelária vinha gente da cultura: Brigitte Bardot, Reggiani, Bécaud, ali cantavam Violeta Parra, Nicanor, os filhos de Violeta, Paco Ibañez... Então, um dia aparece o proprietário do Bobino e ficou toda a gente nervosa. Vinha ver-me. A ideia era fazer a primeira parte de Georges Brassens, em Outubro. Mas eu tinha pela frente o serviço militar e não pude ficar em Paris. Nesse mesmo Outono, gravo o meu primeiro disco em Espanha. Mas saiu em 1969. Luis Eduardo Aute, um amigo que era como um irmão mais velho para mim, perguntou-me se eu tinha planos e disse-me que havia uma cantora que ia gravar o primeiro disco: Mari Trini. Pediu-me para trabalhar com ela. Foi assim que comecei.

Mas como é que isso conduz ao seu primeiro disco?
Eu estava no estúdio, com a Mari Trini, e o director da RCA, um cubano, passou, ouviu a minha voz e perguntou: “Quem é este tipo?” Explicaram-lhe e ele pediu que, no fim, fosse falar com ele. Mas acabei por gravar na Movieplay, fizeram uma oferta melhor. Fui gravando: duas canções, mais outras duas e o disco não saía. Até que me disseram que, afinal, iam fazer um LP [Retratos]. Na altura, todos lançavam singles ou EP’s.

O seu primeiro single tinha Canto e La Jacinta, sobre uma prostituta. Foi inspirada numa personagem real?
Não, é fictícia. É uma representação do que, nessa altura, eu imaginava ser o papel que essas mulheres representavam nos portos, um papel familiar…

Como se uma mulher em cada porto fosse sempre a mesma mulher, é isso?
Sim, quase um prolongamento da mulher familiar, mais do que uma coisa sexual.

Neste disco que gravou ao vivo em Portugal, grande parte das canções são do início da década de 1970 (12 num total de 16). E entre elas está Padre, que dedicou ao seu pai e que é quase um hino emocionado. Como era a sua relação com o seu pai?
Era uma pessoa muito especial. Lutou pelo lado republicano, foi preso, sofreu bastante, teve muitas dificuldades para voltar a trabalhar (era economista) por causa dos antecedentes políticos. Até que conseguiu emprego num grupo económico importante. Mas quando lhe propuseram um aumento de salário, recusou. Disse que ganhava o suficiente para sustentar a família. Era director-geral, mas o seu salário era o 37.º na escala da empresa. Devido a isso, quando o meu pai morreu, os accionistas decidiram dar à minha mãe, até à morte (ela morreu com 97 anos), o salário completo do meu pai. Eu tinha por hábito ir buscá-lo ao escritório, parávamos para tomar um vinho, e alguns amigos meus riam-se disso. Diziam: “vais com o teu papá?” E eu dizia: vou. Porque ele não era meu amigo ou companheiro, era o meu pai. Escrevi essa canção quando ele começou a adoecer, já com a ideia de que não iria viver muito mais.

Vivendo em Madrid, como é que vê a Espanha hoje?
É muito complicado. Primeiro, que Espanha? Independentemente dos problemas globais europeus, a crise interna espanhola tem uma origem muito clara, que é a redacção da Constituição de 1978. Os políticos que a redigiram não tiveram suficiente atrevimento para, de uma vez, fazer um país federal. É verdade que a igreja, o exército, a polícia, tinham um poder extraordinário. Mas poderiam ter tido uma visão de futuro.

É esse o tema essencial, hoje, em Espanha? Mudar a Constituição e avançar para um estado federal?
Sim. Só que no caso catalão não vai ser suficiente. Na Catalunha não há nenhum défice democrático. Os catalães votaram 22 vezes desde 1978. Como os bascos, como todos.

Então qual é o problema catalão?
É um problema de sentimentos. Que só passam da esfera psicológica individual para a colectiva com a intervenção dos poderes políticos. Aconteceu na Alemanha, com o nazismo. O nazismo era um sentimento de muito pouca gente, foi o aparelho político do nazismo que fez com que um país inteiro acreditasse naquilo.

Mas acha que todos os catalães acreditam no que dizem os seus dirigentes? Acha que é inevitável a independência da Catalunha?
Penso que sim.

E do País Basco?
É diferente. O que se passou com a Catalunha, tentou Ibarretxe no País Basco pela via institucional. Mas o parlamento disse “não” e ficou tudo como estava. A relação do basco com o espanhol é muito diferente. Penso que os catalães sempre tiveram um sentimento de superioridade, enquanto Espanha sempre teve uma imagem ruim dos catalães. Já o carácter basco sempre teve boa aceitação em Espanha. Os bascos podem ser independentistas, mas não são anti-espanhóis.