"Bloqueio" informático colocou professores em vagas que não existiam

Esta terça-feira houve professores desempregados que pela manhã receberam a indicação do Ministério da Educação de que tinham ficado colocados a dar aulas e à noite souberam que tinha sido engano. O MEC pediu desculpas pelo "bloqueio imprevisto no sistema de envio de emails”.

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Ministério da Educação pediu desculpas pelo “bloqueio imprevisto no sistema de envio de e-mails” Paulo Pimenta

Um alegado “bloqueio imprevisto no sistema de envio de e-mails” da Direcção-Geral da Administração Escolar (DGAE) fez com que professores desempregados recebessem mensagens do Ministério da Educação e Ciência (MEC) informando-os de que tinham sido colocados numa escola quando, afinal, isso não era verdade. Um único agrupamento de escolas, de Carnaxide, recebeu esta terça-feira telefonemas de “mais de 40 docentes” que acreditavam ter ficado ali colocados numa vaga que não existia. “Lamentável”, afirma a directora, Teresa Silva.

De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo, o problema foi identificado na noite de terça-feira. Professores desempregados que se candidataram a dar aulas através da Bolsa de Contratação de Escola (BCE) e que pensavam ter conseguido um lugar, receberam um segundo email da DGAE com um pedido de desculpas e a informação de que, afinal, se tratara de um engano, relatou.

“Para essas pessoas foi um balde de água fria terrível, mas eu próprio já nem sei o que dizer, excepto que as confusões com a BCE têm sido tantas e de tal forma graves que já é difícil surpreendermo-nos seja com o que for. Resta voltar a exigir que o MEC torne públicas as listas de colocação, para que possamos, nós próprios, verificar se existem mais erros”, comentou César Israel Paulo, em declarações ao PÚBLICO.

O texto do primeiro email com a notificação era igual aos que nas últimas semanas foram enviados aos docentes colocados em escolas TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) e com autonomia. “Não havia nada que pudesse levar-me a pensar que era engano. Na mensagem estava escrito que tinha sido seleccionado para um determinado horário, numa escola que fica a 20 quilómetros da minha residência, e indicava que, para dar seguimento ao processo, deveria aceder à aplicação informática da DGAE para aceitar ou não a colocação”, descreve Nelson Lopes, de Guimarães, um dos docentes afectados.

Aquele professor, que dá aulas há 13 anos e concorreu ao 1.º ciclo e ao grupo de Educação Física, não conseguiu aceitar o horário na plataforma informática, onde, de facto, não estava registada a colocação no agrupamento de Vila das Aves. Mas, segundo diz, nem isso o fez desconfiar de que havia algo de errado. “Passei o dia à volta da plataforma, a tentar aceitar, mas, entretanto, fui organizando as coisas, para me apresentar na escola e começar a trabalhar no dia seguinte”, diz. Casado com uma professora que ficou colocada há apenas duas semanas, a prioridade era garantir que o filho de ambos, que frequenta o 1.º ciclo, teria quem cuidasse dele enquanto os pais trabalhavam. “Era preciso inscrevê-lo nas actividades de ocupação de tempos livres e garantir transporte para a escola e dali para casa. Foi o que fiz”, conta.

Eram 20h04 de terça-feira quando recebeu o segundo email da DGAE:

Exmo.(a) Candidato(a),

Informa-se que deve desconsiderar o e-mail de notificação da selecção, por bolsa de contratação de escola enviado hoje, considerando a existência de um bloqueio imprevisto no sistema de envio de emails, facto pelo qual pedimos desculpa.

Com os melhores cumprimentos,

A Divisão de Informática”

Nelson Lopes, de 39 anos, não se alonga sobre a desilusão, limita-se a “alertar os pais para o que está a acontecer à Educação”. Já Carla Azevedo, de Estarreja, que também foi vítima do “bloqueio do sistema” informático da DGAE, não esconde a perturbação. “É muito difícil suportar tudo o que tem acontecido com serenidade”, afirmou, em declarações ao PÚBLICO.

Com 36 anos, professora de Inglês, Carla não chegou a receber a segunda mensagem. Foi uma das mais de 40 pessoas que ligaram para o agrupamento de escolas de Carnaxide a explicarem que não conseguiam proceder à aceitação do horário na plataforma e que, daquela forma, ficaram a saber que não havia vaga para elas.

“Foi terrível. Quando nos começámos a aperceber do que se estava a passar, nós, os elementos da direcção, fizemos questão de dar uma palavra a cada um dos professores, em vez de deixarmos as explicações – ou a falta delas – para a secretaria. Mas, mal desligávamos uma chamada, recebíamos outra, foi uma loucura”, relata Teresa Silva, directora daquele agrupamento de escolas. Impressionou-a “a ânsia” dos professores pelo lugar, "a vontade de trabalhar": “Uma colega de Aveiro ligou a dizer que não conseguia aceder à plataforma, mas que esperássemos por ela porque já tinha comprado o bilhete de comboio”, conta.

O PÚBLICO pediu informações e esclarecimentos sobre este assunto ao MEC. Aguarda, ainda, resposta.