O dia em que Ali voltou a ser "O Maior"

Há 40 anos, em Kinshasa, Muhammad Ali derrotou George Foreman no “Rumble in the Jungle”, um dos mais míticos combates da história do boxe.

Fotogaleria
Corbis
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP
Fotogaleria
AFP

Muhammad Ali passara três anos e meio afastado dos ringues e já não era “o maior” mas continuava o mesmo fala-barato que gostava de fazer rimas. “Para este combate tentei algumas coisas novas. Lutei com um jacaré. Andei à porrada com uma baleia. Algemei um relâmpago e mandei o trovão para a prisão. É mau! Na semana passada assassinei uma rocha, feri uma pedra e mandei um tijolo para o hospital. Sou tão mau que faço os medicamentos ficarem doentes.” A 30 de Outubro de 1974, faz hoje 40 anos, Ali, só tinha mesmo a verborreia do seu lado. Ninguém o dava como favorito na disputa do título de pesados, em Kinshasa, contra George Foreman, mais novo e mais forte que o homem que dez anos antes tinha dito que era o maior. Mas Ali, como acontecera tantas outras vezes, foi quem ficou de pé.

É um dos mais míticos combates de boxe, promovido com o nome que ficaria para a história do desporto: “Rumble in the Jungle” (qualquer coisa como “Pancada na Selva”). Foi um dos muitos que, durante o século XX, mereceu o título de “combate do século” e, 40 anos depois, continua a ter eco muito para lá do boxe. Por Ali ser uma figura de impacto transversal, por o combate ter sido no Zaire patrocinado por um ditador, Mobutu Sese Seko, por ter sido antecedido por um mega-festival musical de três dias, por ter terminado com uma enorme tempestade.

Ali chegou ao combate de Kinshasa com 32 anos, sendo que tinha passado três dos quatro anos anteriores sem ter efectuado qualquer combate porque era um objector de consciência e tinha-se recusado a combater na guerra do Vietname. Nesta condição, tinha sido suspenso do pugilismo, ele que conquistara o título de pesados, dez anos antes, pela primeira vez num duelo com Sonny Liston, ainda como Cassius Clay. Ali estava menos rápido, menos dançarino, já não “voava como uma borboleta”. Pelo contrário, quem tinha o estatuto era George Foreman, 25 anos, uma verdadeira máquina destruidora no boxe, só com vitórias, quase todas por knock out, incluindo duas sobre dois dos poucos que antes tinham derrotado Ali, Joe Frazier e Ken Norton, ambos despachados em apenas dois combates.

Ali contra Foreman era uma espécie de passado do boxe contra o seu presente, e o suficiente para captar a imaginação do mundo inteiro. Don King, o promotor de cabelo espetado, era um novato na altura, mas percebeu o enorme potencial de tal confronto. Para que o combate acontecesse, cada um dos pugilistas exigia, à cabeça, cinco milhões de dólares. King, que se tornaria uma figura influente e polémica no mundo do boxe, formou um consórcio e atraiu o interesse de Mobutu Sese Seko, o ditador do Zaire, que queria usar este combate para reforçar a sua autoridade perante o mundo.

King transformou o combate num evento multidisciplinar. Levou para África alguns dos grandes nomes da música soul norte-americana, com James Brown, B.B. King, Bill Withers, entre outros, para um festival de três dias, também ele patrocinado em parte pelo regime de Mobutu. Mais de 80 mil pessoas foram ao festival entre 22 e 24 de Setembro, mesmo que o combate, inicialmente previsto para 25 de Setembro, tenha sido adiado durante mais de um mês porque Foreman tinha sofrido um corte no sobrolho durante um treino.

O que hoje em dia pode ser visto no Youtube por qualquer pessoa com um smartphone, tablet ou computador com acesso à internet foi, na altura, presenciado ao vivo por cerca de 80 mil pessoas no Estádio 20 de Maio e por milhões em todo o mundo através da televisão. Ali não era o favorito, mas tinha o apoio popular. Nas ruas e no estádio gritava-se “Ali, boma ye” (“Ali, mata-o!”) porque Ali era uma celebridade à escala mundial que andava na rua e se mostrava acessível aos locais, enquanto Foreman era mais frio e distante. Ali tinha um trunfo suplementar que o fazia ainda mais popular: ele abraçava sem reservas a sua herança africana, enquanto Foreman não gostava particularmente de passar tanto tempo no Zaire.

Previa-se um massacre para o lado de Foreman, o especialista em combates rápidos. Mas o plano de Ali era desgastar o seu adversário ao máximo, quer encostando-se às cordas, quer agarrando Foreman. E assim o combate foi até ao oitavo assalto, com os socos de Foreman cada vez mais vagarosos e descoordenados. “Estava lento, como um homem que tenta escalar uma montanha feita de almofadas”, escreveu Norman Mailer no seu livro “The Fight”. Nos últimos segundos do oitavo assalto, Ali sai das cordas, castiga Foreman com uma rápida combinação de três socos e o campeão vai ao tapete. O assalto estava praticamente no fim, mas ainda houve tempo para a contagem final. Quando Foreman se levanta, já Ali celebrava a vitória com os braços no ar.

Ali voltara a ser “O Maior” e ainda defenderia o seu título em várias ocasiões, incluindo o “Thrilla in Manilla” de 1975 contra Joe Frazier, talvez o seu último grande combate, antes de se retirar definitivamente em 1981 - três anos depois ser-lhe-ia diagnosticada a doença de Parkinson. Quanto a Foreman, teve uma carreira longa, que incluiu uma derradeira conquista do título de pesados em 1994, já com 45 anos, derrotando Michael Moorer com os mesmos calções com que tinha sido derrotado por Ali em Kinshasa.