Morreu “o rei Cobra”e voltou a haver um Presidente branco na África subsariana

Guy Scott estará na presidência da Zâmbia 90 dias. Desaparecimento de Sata abre caminho a reformas.

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Guy Scott, o vice-presidente branco que baralhava os lideres africanos Reuters
Michael Sata na campanha de 2006: "Não perdi, raios", disse a um jornalista. Perdeu, mas ganhou as eleições seguintes
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O mandato de Michael Sata foi marcado por perseguição à oposição e declínio na economia Siphiwe Sibeko/Reuters

O Presidente da Zâmbia, Michael Sata, ou o “rei Cobra”, como era conhecido pela sua língua viperina, morreu na terça-feira à noite em Londres, onde estava a receber tratamento médico. Interinamente foi substituído pelo vice-presidente Guy Scott, que se tornou o primeiro chefe de Estado branco na África subsariana desde Frederik de Klerk, em 1994.

A Constituição do Zaire determina que devem ser realizadas presidenciais dentro de 90 dias. Mas Scott poderá não ser candidato por ser filho de pais que nasceram na Escócia. O professor de Ciência Política da Universidade da Zâmbia, Lee Habasonda, disse que os seus críticos podem invocar uma cláusula na Constituição que exige que o Presidente seja um zambiano de terceira geração.

A Constituição foi redigida em 1990 pelo Presidente Frederik Chiluba, para impedir o seu rival, Kenneth Kaunda (o primeiro Presidente da Zâmbia independente ) de se recandidatar — o pai de Kaunda nasceu no que é hoje o Malawi. Mas será provavelmente invocada apenas se Scott quiser ser candidato, o que muitos analistas consideram improvável.

Há menos de 40 mil brancos entre a população total da Zâmbia, 13 milhões. Sata, contou Scott numa entrevista ao Guardian em 2013, perguntou-lhe um dia o que seria “se não fosse branco”. “Seria o Presidente”, respondeu Scott.“Isso calou-o.” Scott também contou como a sua presença deixava baralhados outros líderes africanos nos encontros de alto nível. “Acho que me vêem como uma mascote, um amuleto de boa sorte para a política africana.” 

Não foi indicada uma causa para a morte de Sata, que tinha 77 anos, nem foi dito de que doença sofria. Ocupava a presidência desde 2011 e não tinha só a língua afiada — o seu estilo de confronto na política, assim como em relação às empresas estrangeiras, deixava investidores, sobretudo na área das minas, à beira de um ataque de nervos.

Não são esperadas grandes consequências económicas da morte de Sata, já que os investidores também não apreciavam particularmente o Presidente que, antes de chegar à chefia do Estado (foi eleito à quarta tentativa) foi polícia, trabalhador numa linha de montagem de automóveis, sindicalista e varredor de plataforma na estação de comboios Victoria, em Londres.

Nas eleições de 2008, disparou em todas as direcções quando os resultados o mostravam muito perto do seu principal adversário, Rupiah Banda — “Não perdi, raios, não me façam perder tempo”, disse a um jornalista da BBC. Em 2011 derrotou Banda após uma campanha em que usou uma retórica nacionalista, anti-China (o investimento chinês nas minas de cobre é visto com sentimentos contraditórios: se, por um lado, traz mais emprego, por outro lado, também é fonte de acusações de exploração de trabalhadores).

 O Presidente ameaçara recentemente retirar a licença à Konkola, proprietária de minas de cobre que é o maior empregador privado da Zâmbia, depois de esta anunciar planos para o despedimento de 1500 trabalhadores.

Para a empresa de consultores ETM (África do Sul), Sata foi “uma figura polarizadora na Zâmbia no plano económico, apoiando medidas cada vez mais autoritárias e ad hoc contra o sector mineiro, o que fez diminuir o investimento”. “A sua morte pode abrir caminho a uma administração mais reformista”.

No início do seu mandato, diz a antiga correspondente da BBC Penny Dale, “parecia que ele iria cumprir as promessas de lidar com a corrupção e criar empregos e segurança”. “Mas o seu mandato foi marcado por uma perseguição à oposição política e um declínio na economia.”