Iranianas atacadas com ácido num país onde os direitos humanos não param de piorar

Desde que Rohani foi eleito, houve pelo menos 852 execuções no Irão, denuncia a ONU, que diz que o Presidente se mostra incapaz de cumprir as suas promessas de reformas. Lei de “apoio aos que fazem a promoção da virtude e combatem o vício” prestes a ser aprovada.

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Ataques em Isfahan deixaram várias mulheres gravemente queimadas e cegas Behrouz Mehri/AFP

Ácido lançado contra o rosto e o corpo de mulheres, uma mulher executada por matar o homem que acusava de a ter tentado violar, um aumento alarmante no número de condenações à morte e execuções. A lista podia continuar. O redactor da ONU para o Irão, chocado com a execução de Reyhaneh Jabbari, de 26 anos, avisa que os direitos humanos, em especial os das mulheres, estão a piorar no Irão.

Há relatos divergentes sobre os ataques com ácido que deixaram um número indeterminado de mulheres gravemente queimadas e cegas – e é frequente haver mais do que uma versão na República Islâmica. O ponto comum é que todos ocorreram na cidade de Isfahan, a capital cultural do país e destino turístico, apesar de terem surgido nas redes sociais rumores que lançaram o pânico em Teerão, Tabriz ou Yazd.

A socióloga iraniana Mahnaz Shirali escreve no jornal Le Monde que, “desde 15 de Outubro, mais de 15 mulheres foram atacadas com ácido por motards em pleno centro da cidade de Isfahan, quando seguiam ao volante dos seus carros”. Segundo o diário Los Angeles Times, “pelo menos oito ou nove ataques aconteceram nas últimas semanas”. Já o Governo e a Justiça limitam a quatro o número e garantem que o último ocorreu a 15 de Outubro.

“Trata-se de um acto desumano, ilegal, violento e contrário ao islão. Os responsáveis irão sofrer a mais dura punição”, afirmou o procurador-geral, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i.

Houve protestos a denunciar os ataques em várias cidades, incluindo Teerão. “Onde está o olho da minha irmã”, gritaram alguns manifestantes na baixa da capital. Como acontece sempre desde os protestos que se seguiram às eleições de 2009, os maiores de sempre depois da Revolução Islâmica (1979), os manifestantes não ultrapassavam as dezenas e não resistiram à polícia que os confrontou. Mesmo assim, houve detidos em Teerão.

Alguns liberais e reformistas acreditam que as autoridades ajudaram a promover estes ataques por causa de uma lei que em breve será aprovada no Parlamento e que prevê protecção para os cidadãos que decidirem agir para fazer cumprir as normais sociais em vigor, podendo apenas, em princípio, “aconselhar verbalmente” as incumpridoras.

As autoridades judiciais desmentem que as vítimas não respeitassem o código de vestuário que obriga as mulheres a cobrir o cabelo e Mohseni-Eje’i avisou “os grupos contra-revolucionários” e certos “sites e media que fazem provocações”, ligando estes ataques à lei intitulada “apoio aos que fazem a promoção da virtude e combatem o vício”.

Promessas por cumprir
“Não podemos ouvir todas as palavras pouco exactas que visam perturbar a opinião pública acusando injustamente pessoas ou grupos", afirmou também o Presidente, Hassan Rohani, eleito em Junho do ano passado com o apoio de muitos jovens que querem ver reformas no país. “As pessoas não podem ter nenhuma dúvida. O Governo fará tudo para deter e entregar à justiça os responsáveis por estes crimes”, disse Rohani.

É difícil ler as descrições sem que venham à memória os ataques dos bassidji (voluntários islamistas) contra os manifestantes que saíram à rua depois de umas eleições que consideraram fraudulentas, quando Mohamed Ahmadinejad foi reeleito contra os reformistas Mir-Hossein Moussavi e Mehdi Karoubi, em prisão domiciliária desde 2011. É que muitos vídeos destes protestos mostravam bassidji a perseguirem pessoas ao volante de motas.

O responsável da ONU para o Irão, Ahmed Shaheed, acaba de denunciar que os direitos humanos no país não pararam de se deteriorar desde a chegada do poder de Rohani. Com pelo menos 852 execuções nos últimos 15 meses, incluindo “uma pessoa executada por ter feito uma doação a uma organização estrangeira”, Shaheed afirma-se especialmente chocado com a execução de Reyhaneh Jabbari, que apunhalou o homem que a tentava violar, um antigo empregado do Ministério da Informação.

Rohani, diz Shaheed (que tem o cargo desde 2011 e nunca foi autorizado a entrar no país), “é incapaz de resolver este problema e de respeitar as suas promessas”. O problema pode ser mesmo esse – num país onde a figura mais importante é o guia supremo, ayatollah Ali Khamenei, e as instituições mais fortes são constituídas por religiosos, Rohani (ele próprio um religioso) não tem qualquer poder sobre o aparelho judiciário.

Violência “intolerável”
Shaheed conseguiu entrevistar 400 iranianas, um terço destas a viver no Irão (incluindo algumas detidas), e denuncia que há meninas de nove anos a casarem-se, que as solteiras enfrentam muitas dificuldades em encontrar trabalho e que uma mulher que tente divorciar-se por ser vítima de violência doméstica tem de provar que esta violência é “intolerável”.

“Mesmo se Khamenei tentar reconciliar-se com os jovens homens iranianos, é impossível que o faça com as mulheres. O conflito mais duro é o que existe entre o regime e as mulheres”, antecipava ao PÚBLICO Hassan Makaremi, investigador iraniano a viver em Paris, depois da vitória de Rohani.

A luta entre o campo do Presidente e o campo conservador, que controla o Parlamento, também continua acesa. Nesta quarta-feira, Rohani viu os deputados chumbarem a sua terceira proposta para ministro das Ciências, Investigação e Tecnologias, um posto muito sensível por coordenar as universidades. O anterior titular do cargo, Reza Faraji Dana, foi afastado no fim de Agosto por deputados que o acusavam de ter nomeado para o seu gabinete pessoas que participaram na contestação de 2009.