Quando o Estado Islâmico transformou o refém no repórter

Jornalista britânico usado para contar a versão dos jihadistas da realidade em Kobani, cidade curda que se tornou num símbolo do combate ao grupo e que os EUA têm bombardeado.

“Olá, o meu nome é John Cantlie e hoje estou na cidade de Kobani", começa por dizer o refém
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“Olá, o meu nome é John Cantlie e hoje estou na cidade de Kobani", começa por dizer o refém AFP/Estado Islâmico

O início lembra a CNN, com a sua obsessão por gráficos e recurso às últimas tecnologias. O texto também podia ser da BBC — o facto de o personagem ser britânico ajuda a transportar os espectadores para uma emissão da emissora nacional do Reino Unido.

Planos muito abertos, “gravados com um drone do Estado Islâmico”, informam-nos, mostram o que aparenta ser a cidade curda de Kobani, no Norte da Síria, que os jihadistas tentam tomar desde 16 de Setembro. A música é a mesma que Hollywood escolheria para um iniciar um thriller — ou que a CNN ou outro canal ocidental usaria numa reportagem ou separador.

A imagem aproxima-nos da cidade e há setas a identificar instalações em diferentes pontos. Depois, a verdadeira surpresa: de um desses pontos surge o refém John Cantlie, numa imagem que passa a ocupar o ecrã. “Olá, o meu nome é John Cantlie e hoje estou na cidade de Kobani, na fronteira entre a Síria e a Turquia.”

Cantlie, o fotojornalista raptado com James Foley a 22 de Novembro de 2012 (Foley foi decapitado, num vídeo divulgado a 19 de Agosto), numa estrada junto à fronteira com a Turquia, tem surgido numa série de vídeos do Estado Islâmico (nome adoptado no Verão pelo antigo ISIS ou ISIL, Estado Islâmico do Iraque e do Levante). Mas até agora era Cantlie de fato cor-de-laranja, sentado, que admitia estar ali coagido. No último, dizia que os ocidentais nas mãos dos jihadistas eram alvo de tortura, incluindo waterboarding (simulação de afogamento, a técnica que a Casa Branca de George W. Bush usou com suspeitos terroristas).

O John Cantlie deste vídeo, de camisa preta, é outro — é um que põe especialistas, como o tenente-coronel James Reese, ex-comandante da Força Delta dos Estados Unidos, a discutir a síndrome de Estocolmo (simpatia que alguns sequestrados desenvolvem pelo sequestrador) na CNN. Há momentos em que Cantlie surge tenso, planos laterais mais aproximados em que parece estar a ler o texto que diz, mas outros em que fala com o à vontade de um repórter de televisão treinado, mudando de tom, acompanhando exclamações com gestos que só podem ser naturais ou muito ensaiados.

Sempre com legendas em árabe, Cantlie diz estar “na chamada zona segura do PKK”, (o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, turco), aliado da milícia YPG (Unidades de Defesa do Povo), do Partido da União Democrática (PYD, sírio), que tem defendido Kobani quase sozinho. A área em que se encontra, descreve, está sob controlo dos jihadistas e só por isso é que o vemos a caminhar naquelas ruas. O objectivo é claro: desmentir os media ocidentais e os relatos que têm feito do terreno usando o imaginário desses mesmos media.

Media anglo-saxónicos

O refém britânico aponta especificamente a cobertura do
International Business Times (publicação online com diferentes edições nacionais), da BBC e de Patrick Cockburn, veterano do jornal Independent. Os repórteres ocidentais, “e eu não vejo nenhum por aqui”, afirma, enquanto olha para um lado e para o outro, “têm dito que os membros do Estado Islâmico se estão a retirar”, antes de citar ao dia as notícias destes media. Isto acontece porque só recebem informações “dos comandantes curdos e dos porta-vozes da Casa Branca”.

“Há um mês que os combatentes islâmicos lutam por esta zona e apesar dos contínuos bombardeamentos dos EUA, que já custaram quase 500 milhões de dólares, os mujahedin [combatentes] avançaram até ao centro da cidade”, afirma, enquanto vemos planos de zonas desertas e outros com combatentes armados a caminhar de costas.

A certa altura, Cantlie aponta para onde se pode ver uma bandeira turca. “Ali, atrás de mim, fica a Turquia”, diz; “aquilo que se vê ali em cima são campos de refugiados” dos 200 mil habitantes de Kobani “obrigados a fugir por causa dos combates”. O britânico goza ainda com os EUA, repetindo o que o Estado Islâmico já dissera sobre as armas e munições lançadas por aviões para os curdos que foram parar às mãos dos jihadistas.

O link onde o PÚBLICO viu pela primeira vez o vídeo, na segunda-feira, já não estava disponível horas depois. Mas não faltavam outros com os cinco minutos e 32 segundos da “reportagem” de Cantlie. Ontem ao fim do dia, era mais difícil encontrar o vídeo original no YouTube — os EUA e a UE pediram há muito às empresas proprietárias das redes sociais para apagarem todas as mensagens e vídeos do Estado Islâmico, um combate perdido à partida, já que o mais provável é que as mensagens voltem pouco depois, publicadas a partir de outro local, republicadas por um membro ou simpatizante.

Os decapitados

Cantlie, 43 anos, é o único dos reféns ocidentais a surgir em vídeo que não foi decapitado ou ameaçado de morte. Desde Agosto, e a intervalos regulares, foram divulgados vídeos das decapitações de Foley e de outro jornalista americano, assim como de dois britânicos que trabalhavam em agências humanitárias, Alan Henning e David Haines.
No início de Outubro, surgiu o último, de Henning, e Peter Kassig, ex-ranger que esteve no Iraque em 2007 e chegou ao Líbano em 2012 para tratar refugiados sírios, é apresentado como a próxima vítima.

Este novo vídeo aparece dias depois da divulgação de um apelo da irmã de Cantlie para que Washington tente falar directamente com os captores. O pai ainda gravou uma mensagem dirigida aos jihadistas a pedir a libertação do filho antes de morrer, na semana passada. Quase em simultâneo com o vídeo da irmã, no fim-de-semana, o New York Times escreveu sobre como os reféns foram todos agredidos e torturados durante semanas ou meses, passando de grupo em grupo até chegaram às mãos do Estado Islâmico.

A proximidade entre os relatos do Times e este vídeo tão diferente levou alguns analistas a levantarem a hipótese de que o objectivo seja mostrar um grupo menos bárbaro do que a propaganda habitual. A verdade é que o Estado Islâmico tem uma máquina de propaganda inédita e comunica em simultâneo para vários públicos. Desta vez, não parece haver grandes dúvidas de que a audiência alvo são as opiniões públicas das dezenas de países que participam nas operações aéreas, especialmente os EUA e o Reino Unido.

Vender um país

“Seja pensado ou intuitivo, o que eles fazem é pegar na lógica do
branding e aplicá-la sistematicamente à sua imagem de marca”, disse ao PÚBLICO Ricardo Miranda, especialista em marcas da Brandia Central, que a semana passada deu uma conferência sobre o Estado Islâmico em Lisboa. 

“Se fossem um país, era assim que se vendiam. Tudo bate certo na forma como constroem o seu discurso. Sabemos que têm um chefe de Estado, mostram-nos as suas organizações de gestão local, imagens dos novos membros que nos contam como é a vida”, descreve Ricardo Miranda, explicando que o caminho seguido é idêntico ao de marcas que eram marginais e quiseram tornar-se mainstream.

O New York Times chama-lhe “jihadismo 3.0”. Quando tomaram Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, os jihadistas publicaram 40 mil tweets num só dia (mais do que o número calculado de membros do grupo, 30 mil). Seguiu-se outra invasão do Twitter com a sua bandeira negra erguida sobre Bagdad, uma imagem para assustar os habitantes como os tweets sobre Mossul terão levado muitos soldados iraquianos a abandonar as suas posições. Na verdade, o Estado Islâmico não tem poder para tomar a capital iraquiana.

A rapidez é uma das suas armas de eleição. “São os primeiros a usar esta rapidez para recrutar, sabem que os jovens vivem nas redes sociais e querem respostas instantâneas. E usam as novas tecnologias de uma forma aberta, como se fossem uma Coca-Cola”, diz Ricardo Miranda.

Há propaganda para assustar e há propaganda para recrutar, no mundo árabe, no mundo muçulmano e nos países ocidentais. Há uma qualidade maior do que a conseguida por qualquer outra organização terrorista até agora, notava José Manuel Anes, fundador do Observatório de Segurança e Criminalidade Organizada e Terrorismo, num debate há dias na Mesquita Central de Lisboa. “Aqueles vídeos e aquelas fotos são feitos para poderem ser aumentados, passados nas televisões.”

Há um discurso centrado na violência, na vitória e na conquista, e outro na solidariedade e na partilha. “Estás disposto a sacrificar esse teu bom emprego, o carro, a família?”, pergunta num vídeo um britânico identificado como Abu Bara al-Hindi. “A vida no Ocidente, eu sei como é que vocês se sentem — no vosso coração sentem-se deprimidos”. “A cura para a depressão é a jihad”, acrescenta, dizendo estar a citar o Profeta.

“A batalha por Kobani está a chegar ao fim. Os mujahedin estão apenas a limpar o que sobra”, diz Cantlie neste último vídeo. Numa guerra que se faz tanto de propaganda, Cantlie termina a referir-se a outro tipo de guerra: “Não há nada tão sujo e duro como a guerrilha. E essa é uma das especialidades dos mujahedin”.