Opinião

A verdadeira prova de Dilma

A Presidente está condenada a ficar na história: ou consegue abrir um tempo novo, ou ficará na memória como aquela que enterrou as duas décadas de progresso que mudaram irremediavelmente a face do país.

O Brasil que sai das mais tensas eleições desde 1989 é um país mais ansioso, dividido e inseguro. A campanha foi feroz e incerta, mas a maturidade da sociedade conseguirá superar com facilidade as feridas abertas e olhar para a frente.

Desde que as fragilidades das elites políticas expostas com crueza pela contenda sejam superadas. E desde que o Governo de Dilma seja capaz de perceber que o seu segundo mandato não pode continuar à procura do tempo saudoso e irrepetível de Lula da Silva. O momento em que o Brasil pôde lançar uma geração de políticas sociais e de redistribuição de rendimento que alteraram a face do país acabou de vez. Depois de andar dois anos a tentar iludir a realidade, Dilma vai ter de olhar o problema de frente e tomar opções difíceis.

O que esta eleição mostrou é que os brasileiros perceberam que há à sua frente um tempo novo, mais exigente. Quase três quartos dos eleitores, muitos dos quais votaram em Dilma, reclamam mudanças. Depois de se tornar num país muito mais próspero e decente, sem a oposição escandalosa entre uma minoria de ricos e uma massa gigantesca de miseráveis, o Brasil pode encarar os desafios com outros argumentos.

Tudo será mais fácil se o PT e o PSDB jogarem no Congresso da República argumentos que façam esquecer os ataques soezes e as falsas acusações que se ouviram na campanha. A história política do Brasil é demasiado perigosa para se voltar a cair num cenário de crispação como o que levou à ditadura em 1964. Infelizmente, não será fácil conservar o confronto governo/oposição em terreno isento de demagogia e ataques fulanizados, quando em causa está uma agenda com pontos quentes como a corrupção ou a necessidade de introduzir reformas que ameaçam as políticas de redistribuição.

O que aconteceu na Petrobras vai exigir a Dilma uma prova de resistência a estilhaços políticos com efeitos que poderão ser mais penosos que os do escândalo do Mensalão. E o reconhecimento de que o Brasil já não consegue repetir as médias de crescimento do passado, que se encontra numa encruzilhada que não tolera a mera repetição das fórmulas, tornarão a governação mais árdua e imprevisível. Principalmente quando se pressente que um Congresso fragmentado tornará a obtenção de maiorias de apoio parlamentar mais difícil de conseguir.

Para que as mudanças sejam percebidas e aceites vão ser necessários um governo e um sistema político responsáveis. Vai ser preciso dizer-lhe aquilo que nem Aécio nem Dilma tiveram coragem de dizer: que a economia deixou de ter condições para produzir excedentes para a redistribuição; que o crescimento salarial vai ter de abrandar; que a falta de investimento e a crise na outrora mais poderosa indústria da América do Sul vão fazer alastrar o desemprego; que é preciso tempo e paciência para retomar o modelo dos anos Lula.

Se a corrupção não ferir de morte a credibilidade dos eleitos, se a classe política tiver a coragem de reformar um sistema que privilegia a corrupção e o tráfico do poder, se Dilma conseguir uma base de apoio para acertar um novo rumo, se for possível esbater o anátema de uma eleição que dividiu o país, tudo será mais fácil.

Se os devaneios de uma elite política, muito pior do que o país que representa, claudicar nestas exigências, há o risco de o Brasil voltar a ser agitado por uma vaga de protestos como os de Junho de 2013. Ou de entrar nos devaneios do golpismo ou do populismo como o de Collor de Mello. Dilma está condenada a ficar na história. Neste momento crucial, ou abre um tempo novo ou ficará como a Presidente que enterrou as duas décadas de progresso que mudaram o país.

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