Ulrich critica Banco de Portugal por não ter actuado no caso BES Angola

Presidente do BPI considera “extraordinário” que o Banco de Portugal e o BES tenham “permitido a exposição de crédito tão forte e durante tanto tempo” ao banco controlado em Angola

No ano passado, Ulrich não recebeu remuneração variável, o que explica boa parte da queda
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Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI Nuno Ferreira Santos

“O resultado do BPI [de segundo banco mais sólido na Península Ibérica] é muito bom. Ponto. E é a prova da justeza do caminho que temos vindo a seguir nos últimos anos. Obviamente que estamos satisfeitos”, observou Fernando Ulrich, durante a conferência de imprensa desta segunda-feira quando inquirido sobre os testes de stress realizados aos bancos sistémicos de cada país pelo Banco Central Europeu (BCE).

O presidente do BPI, Fernando Ulrich, tinha marcado para ontem a conferência de imprensa para falar dos resultados do terceiro trimestre do banco e dos testes de stress do Banco Central Europeu (BCE) e da Autoridade Bancária Europeia (ABE), divulgados este domingo. No entanto, o tema do BES acabou por ser incontornável.

O banqueiro assumiu uma postura muito crítica face à actuação das autoridades nacionais na supervisão ao banco rival e à exposição do BES ao BES Angola (BESA), que foi alimentado por uma linha de financiamento. A linha, aberta por Ricardo Salgado, foi dada sem limite e prazo e sem que os financiamentos tivessem um beneficiário. "Em Dezembro de 2007, o BES tinha créditos sobre o BESA de 25 milhões de dólares, em 2008 já eram de 2000 milhões e em 2013 acima de 4000 milhões." "Estava tudo nos relatórios e nos balanços", fez notar Ulrich. "É extraordinário" que a parte portuguesa [Banco de Portugal] e "o conselho de administração do BES tenham permitido a exposição de crédito tão forte e durante tanto tempo", avançou.  

"É legítimo perguntar: como foi possível um banco em Portugal ter um montante de crédito tão elevado a uma participada? Como foi possível pactuar com a situação" que vai sair cara "aos accionistas dos bancos portugueses?" — onde se inclui o banco público, a CGD.

Ulrich afirma que, durante seis anos, houve "informação mais do que suficiente" para a parte portuguesa (ou seja, o BdP) actuar e, assim, impedir o que aconteceu ao BES. Se a situação no BESA estivesse controlada, o BES poderia ter uma solução autónoma, sem necessidade de accionar o fundo de resolução.

Sobre os testes ao banco Ulrich afirmou: "O resultado do BPI [de segundo banco mais sólido na Península Ibérica] é muito bom. Ponto. E é a prova da justeza do caminho que temos vindo a seguir nos últimos anos. Obviamente que estamos satisfeitos."

Depois de ter registado prejuízos de 114,3 milhões de euros no terceiro trimestre do ano, Fernando Ulrich diz acreditar "que 2015 será o ano em que o BPI regressará aos lucros, mas é preciso ter cuidado, pois há sempre imprevistos [como a falência do BES]". Para já, o BPI está a desenvolver "conversas e acordos" com "um número até maior do que os 78 colaboradores que terá de dispensar para cumprir o plano definido pela Direcção-Geral da Concorrência Europeia. O banco liderado por Ulrich foi o primeiro e o único a sair de baixo do chapéu da troika, onde se mantêm o BCP e o Banif.

Os exames do BCE e da ABE que colocaram o BPI como o banco com o rácio de capital mais forte do sistema nacional são, para Fernando Ulrich, um "cartão-de-visita" nos mercados internacionais, na medida em que "a sua imagem e reputação" saíram reforçadas.

O banqueiro salienta que se percorreu "um caminho consistente, com reforço de solidez, com balanço mais defensivo, mais conservador". "A nossa opinião é que o capital do BPI está bem, mas não é exagerado." O que dizem estes testes de stress? "Que com este capital e este balanço, perante um cenário severo (o mínimo fixado é de 5%), o capital do BPI baixaria (para 11%), mas ficaria, ainda assim, acima dos níveis exigidos pelo BCE, mantendo-se sólido." 

"É óbvio que a situação é favorável a que possamos equacionar a compra do Novo Banco", pois o BCE considerou que o BPI, depois do cenário mais adverso, teria ainda uma folga de 1345 milhões de euros.

O presidente executivo do BPI entende ser a avaliação do negócio uma "obrigação", isto depois de saber as condições em que decorrerá. Ainda que seja "uma oportunidade", diz, "é simultaneamente um grande risco, porque a responsabilidade pelo fundo de resolução é dos bancos".

A instituição financeira liderada por Fernando Ulrich não deixa, no entanto, de ter "interesse, não só pela carteira de clientes, como pelos activos". "Há anos que venho dizendo que uma fusão entre dois dos cinco bancos a operar em Portugal trará um ganho de eficiência muito significativo", adiantou Ulrich.

BCP: "Polónia é estratégica"
Ainda na ressaca do chumbo nos testes de stress, o presidente do BCP, Nuno Amado, defendeu ontem que que o banco passaria nos testes se os mesmos fossem feitos tendo em conta os dados actuais, e não os do final do ano passado, como aconteceu.

Na apresentação dos resultados do terceiro trimestre, Amado garantiu que não está nos seus planos pedir um aumento de capital aos accionistas e destacou a forte redução na dependência do apoio do Estado. "Há dois anos, tínhamos 9000 milhões de euros — 3000 milhões em obrigações convertíveis em capital (CoCo) e 6000 milhões em garantias sobre dívida emitida. Hoje, temos 750 milhões de euros", salientou o gestor.

O banco reduziu o prejuízo de quase 600 milhões de euros para 98 milhões de euros entre Janeiro e Setembro. "Há uma consistente tendência positiva, trimestre a trimestre, e estamos esperançados que, no final deste ano, possamos atingir o ponto de equilíbrio para podermos passar aos lucros a partir do próximo ano", assinalou o líder do BCP.

Amado garantiu também que "a Polónia é estratégica. Não está nos nossos planos vender essa operação. Não se equaciona uma venda forçada de participações estratégicas", disse. "Podemos fazer mais alguma coisa", acrescentou, sem adiantar pormenores.

A ministra das Finanças também se pronunciou sobre a situação no BCP, salientando não ver "qualquer razão para que se pondere uma intervenção pública no banco". Maria Luís Albuquerque lembrou o aumento de capital feito pelo banco este ano e a devolução de capital que foi feita ao Estado.