O lado desconhecido da Escola de Arquitectura do Porto

Escola do Porto: Lado B é uma exposição de arquitectura em Guimarães que quer explorar os anos mais utópicos.

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Alunos da ESBAP, em 1975 Carlos Valente
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Projecto Organização Insurrecional do Espaço, de Fernando Barroso e Mário Ramos DR
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Projecto a concurso para a Casa das Artes, de Mário Ramos e José Lencastre DR
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Projecto Organização Insurrecional do Espaço, de Fernando Barroso e Mário Ramos Fernando Barroso e Mário Ramos
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Projecto Organização Insurrecional do Espaço, de Fernando Barroso e Mário Ramos Fernando Barroso e Mário Ramos
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Projecto Organização Insurrecional do Espaço, de Fernando Barroso e Mário Ramos Fernando Barroso e Mário Ramos
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Projecto Organização Insurrecional do Espaço, de Fernando Barroso e Mário Ramos Fernando Barroso e Mário Ramos
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Desenho de um monumento pós-moderno, de Eduardo Souto de Moura DR
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Desenho de Fernando Barroso para projecto de São Victor, 1976 DR
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Desenho para o Centro Comunitário do Trabalhador, de Edgar Castro DR
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Construção de eólicas na ESBAP, em 1976 Carlos Valente
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Pedro Bandeira e Nuno Faria, comissários das duas exposições no CIAJG Regina Coelho

Chamam-lhe o Lado B, como se fosse a face escura de uma lua que, até agora, tem mostrado apenas a face mais brilhante de uma dinastia que impôs o nome da arquitectura portuguesa a nível mundial – a Escola do Porto.

Essa genealogia cuja história oficial começou em Carlos Ramos, se estruturou com Fernando Távora e ganhou visibilidade internacional com Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura não se esgota, naturalmente, nesta linha que se instituiu, de algum modo, como história oficial. Há um outro lado que está ainda por explorar.

Estava, porque Pedro Bandeira, arquitecto e professor, respondendo a um desafio do director do Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), em Guimarães, Nuno Faria, decidiu mostrar agora publicamente o resultado da investigação que decidiu fazer a esse lado escondido da instituição portuense.

Escola do Porto: Lado B (1968-1978). Uma história oral – é este, por extenso, o título da exposição documental inaugurada na noite de sábado no CIAJG, em simultâneo e em diálogo com uma segunda mostra, Ricardo Jacinto/ Parque: os cones e outros lugares.

O arquitecto Pedro Bandeira que, no ano passado, surpreendeu ao propor uma relocalização utópica da Ponte de D. Maria Pia no centro do Porto, decidiu procurar outros projectos utópicos para a cidade. “Eu tinha a certeza de que teria de haver algo, e acabei por me cruzar com informações sobre coisas alternativas à imagem daquela que nós temos do que seria a Escola do Porto nessa época”, diz o investigador.

O tempo a que Pedro Bandeira se refere, e que depois delimitou para a sua investigação e para a exposição, foi a década 1968-78. É o período que de algum modo se inicia com o vazio deixado na então Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) com a demissão do professor Carlos Ramos, em 1967, da direcção do curso de Arquitectura, seguido dos reflexos que o Maio de 68 teve nos movimentos de contestação estudantil em Portugal e, em 1978, o projecto utópico que Edgar Castro – um colega de curso de Souto de Moura, que se mostrava “uma grande promessa para a arquitectura”, mas cuja carreira haveria de ser interrompida pela doença – elaborou para um Centro Comunitário do Trabalhador.

Este foi um tempo de grande efervescência e mudanças na ESBAP, marcado pela vigência do "Regime Experimental" (1970), e que, para além do ensino estrito da Arquitectura, foi marcado por questões ideológicas e lutas políticas, que “fragmentaram a Escola entre uma vertente mais marxista-leninista ou mesmo maoísta e outra trotskista e mais anarquista, utópica”, explica Pedro Bandeira.

A exposição que a partir deste sábado se pode ver em Guimarães documenta alguns projectos e trabalhos que resultaram das diferentes visões que então se perfilavam, não só na geração dos estudantes de Arquitectura, mas também dos professores, cujas figuras de algum modo polarizavam as diferentes vias para a ESBAP: de um lado, a austeridade e exigência de Octávio Lixa Filgueiras; de outro, a figura simpática e sedutora de Fernando Távora; e, numa terceira via, a utopia de base ecologista de Jacinto Rodrigues, que tinha vivido o Maio de 68 nas ruas de Paris.

“Esta é uma década que também se vive entre duas possibilidades de pensamento radical, do ponto de vista ideológico e político”, nota Bandeira. E os projectos que então vão surgindo expressam essa dicotomia.

Alguns exemplos: em Maio de 1968, alunos da cadeira de Arquitectura Analítica de Lixa Filgueiras vão fazer um levantamento exaustivo das construções do bairro do Barredo, no Porto; três anos depois, alunos de Távora dão continuidade a esta “visão social” da Arquitectura com um trabalho idêntico nas ilhas de São Victor, também na cidade. “Os alunos interpretavam este exercício de um ponto de vista social, revelando uma consciência crítica, por vezes irónica, com questionáveis resultados ao nível do projecto”, escreve Pedro Bandeira no catálogo que acompanha a exposição.

No final da década estudada, Edgar Castro desenha o citado Centro Comunitário do Trabalhador como clara utopia – o projecto não é pensado para nenhum lugar específico. “O que ele desenha é que a Revolução pode ser feita com o desenho: são formas geométricas muito puras, cúbicas, com uma composição extremamente regrada, e onde o próprio texto tem um sentido mais formal do que explicativo”. É um projecto que acredita no desenho, numa altura em que esta disciplina é fortemente contestada por uma faixa de estudantes, que o substituem, nas situações mais radicais, com a interrupção da frequência do curso para irem fazer a Revolução junto da classe operária…

É neste contexto que, em 1975, dois alunos, Mário Ramos e Fernando Barroso, desenvolvem o mais icónico e provocador dos projectos que Pedro Bandeira conseguiu até agora identificar. Sob a denominação Organização Insurreccional do Espaço – que o comissário explica ser, desde logo, uma provocação ao livro de Távora, Da Organização do Espaço –, os autores propõem soterrar os lugares mais icónicos da Baixa do Porto, como a Avenida dos Aliados ou a Praça de Almeida Garrett, deixando apenas de fora os topos dos edifícios mais altos...

Num projecto desenhado a grafite e acompanhado com fotomontagens e um texto em BD marcadamente irónico e cínico, os autores escrevem: “Não colonizamos os povos, mas vamos ocupá-los para os libertar (…). Obrigamo-los a produzir o trabalho voluntário”.

Tratava-se de uma espécie de manifesto situacionista, de alguém que já não acredita na Revolução, mas também não acredita na arquitectura nem no urbanismo. Mas Ramos e Barroso acreditam na imaginação e na criatividade. Apesar disso, Organização Insurreccional do Espaço não deixou rasto, tendo sido simplesmente ignorado.

Pedro Bandeira vê nesse projecto o testemunho de “uma Escola que era então vivida como espaço de experimentação e de alguma radicalidade, que é uma coisa muito bonita”. E lamenta que a Universidade dos nossos dias, que está tomada pela ideia da suposta produção científica da excelência, os papers, não permita essa experimentação”.

A exposição Escola do Porto: Lado B é inaugurada uma semana antes daquela que, na próxima sexta-feira, será dedicada, no Museu de Serralves, ao projecto SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), que viria a marcar a visibilidade da Escola do Porto nos anos logo a seguir ao 25 de Abril de 1974.

Pedro Bandeira e Nuno Faria dizem que a proximidade das datas “é uma mera e feliz coincidência”, que vai permitir aos interessados verem diferentes leituras sobre a evolução da Escola do Porto. E o director do CIAJG realça o facto de, no programa paralelo às exposições em Guimarães, estar inclusivamente agendada uma visita guiada (11 de Janeiro) com a participação, entre outros, de Delfim Sardo, que é o comissário da mostra de Serralves.

Pedro Bandeira vê nestas experiências mais ou menos radicais vividas na viragem dos anos 1960/70 “as bases do SAAL”. E cita o caso concreto de Souto de Moura, que integrou a equipa daquele Serviço ao lado do seu mestre Álvaro Siza, entre outros, e que “não renega a importância deste tempo de formação na ESBAP. “O que Souto de Moura reivindica, nessa altura em que desenhava monumentos pós-modernos – que podemos ver na exposição de Guimarães –, é pensar a Arquitectura independentemente das questões ideológicas e políticas”, diz Pedro Bandeira, convencido de que, nesses "anos de brasa”, o arquitecto que se afirmaria logo a seguir com o projecto para a Casa das Artes no Porto estava “claramente do lado B” da Escola.

Nuno Faria, que é curador da exposição de Ricardo Jacinto, explica que a associação de ambas as mostras se faz pelo seu desejo – quando no início do ano pensou este programa – de abordar “as questões da criação colectiva, da comunidade e da utopia” e também “a desconstrução da arquitectura enquanto disciplina”.

Parque revisita, e actualiza, o projecto de criação colectiva que Ricardo Jacinto (n. Lisboa, 1975), arquitecto, escultor, músico, realizou entre 2001 e 2007, e que foi apresentado em vários “palcos” do país, entre os quais Montemor-o-Novo e Lisboa (Culturgest).

Nuno Faria convidou-o a recuperar esse trabalho e apresentá-lo no CIAJG, “com peças performativas novas” – Peça de embalar, Atraso e Os – e um conjunto de canções. “São instrumentos musicais/sonoros que se geram a partir de princípios sinestésicos” e, por outro lado, “dispositivos que inventam o seu próprio espaço de habitar”. 

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